Melhores e Piores livros de 2016

Fui intimado a falar dos melhores e piores livros que li em 2016. Não sei se era para fazer um ranking ou simplesmente para apontar o melhor\pior título, então resolvi fazer do meu jeito. Primeiro, queria dizer que este ano não tive realmente uma decepção literária, como aconteceu, por exemplo, em 2015, quando li A garota no trem. (Sério, não leiam esse lixo literário.) Mas bem, há sempre aqueles que gostamos menos, e são estes que estarão na lista de piores livros do ano. Dito isso, afirmo que indicarei um nacional e um estrangeiro em cada categoria.

Então vamos lá!

Piores (ou leia-se: aqueles que não curti tanto assim)

Como um fã de ficção científica (seja na literatura ou no cinema ou whatever), estava bastante animado para ler mais do pai da ficção científica, a.k.a., Júlio Verne. O único livro que lera dele antes foi Da terra à lua. Até onde lembro (li quando era muito pivete), eu gostei, mas pode ser que minha memória esteja nublada pela falta de senso crítico literário tão comum em nossa infância. Enfim, eu estava animado para ler A viagem ao centro da terra, mas o hype não foi correspondido. Acho que estou ficando sem paciência para ler estes clássicos.

A trama é boa, e o final é até satisfatório, mesmo considerando todo o hype que a própria narrativa faz. Como história, o livro funciona muito bem. Como forma de entretenimento, ele falha. O que se vê são personagens mal construídos, estereotipados. Sem mencionar que a única personagem feminina relevante não tem nenhuma expressividade, e serve apenas para reafirmar o protagonista masculino. Típico. Mas não é apenas isso. Os diálogos são muito ruins. Artificiais, inverossímeis. Não, obrigado. Bem, acho que é isso que consigo lembrar deste livro.

Já o nacional que também não correspondeu às expectativas foi O feiticeiro – volume 1: O estrangeiro. A autora é Má Matiazi, e conheci o livro pela campanha no Catarse. Acho que ficou claro, é o primeiro volume de uma série. Já adianto logo que se você quiser saber como acaba a história, vai ter que esperar pelo volume 2. Este é o principal problema do livro: a trama não tem clímax. Quero dizer, existe um ponto de virada no enredo lá pelos últimos capítulos, mas nada grande, conclusivo. É como se a autora tivesse pegue uma história completa, partido no meio e entregou-nos apenas a primeira metade.

Fora isso, não simpatizei com o protagonista, mas admito que ele foi bem construído. Aliás, todos os personagens são bem construídos; é preciso dar este crédito. E a escrita é bela, quase poética. Porém, a trama pesa mais na minha avaliação e esse quesito deixou muito a desejar.

Ainda digo, porém, que vale a leitura dessas duas obras. Não levem minhas críticas a sério.

 

Melhores (ou leia-se: os que eu curti bastante)

Vejamos agora os vencedores. Tanto o nacional quanto o estrangeiro têm suas semelhanças. Ambos os textos discutem a temática dos androides e se estes podem ser considerados e\ou têm os mesmos direitos que os humanos. Porém, abordam os temas de maneiras diferentes. Estou falando, é claro, de Androides sonham com ovelhas elétricas? de Philip K. Dick e Brasil cyberpunk 2115 #2 – Recall de Rodrigo Assis Mesquita. Vamos começar pela obra estrangeira.

O livro que inspirou o filme Blade Runner tem como tema central a empatia. Isso é evidente ao longo de todo o texto e a maneira como Dick discute este tema é o grande trunfo do livro. É estabelecido que os androides do modelo Nexus 6 que o protagonista  Rick Deckard tem que caçar são incapazes de sentir empatia, e isso os desqualifica como humanos. Mas será isso mesmo? Ao longo da obra, vemos como andróides são capazes de se identificar uns com os outros, e acompanhamos toda a transformação de Deckard, que começa a realmente sentir empatia pelos andys. O arco do protagonista é bem trabalhado.

Ademais, a trama em si é muito boa. É uma distopia de qualidade com pitadas de ação e discussão filosófica, bem na medida. Os diálogos são interessantes. O worldbuilding é fantástico. Os pontos fracos são os vilões sem graça e o final sem sal (anos-luz abaixo do espetacular final do filme).

Já o livro do Rodrigo está mais para cyberpunk que para distopia, embora tenha elementos dos dois gêneros. Mais que isso, porém, Brasil cyberpunk é uma sátira ácida e bem-humorada aos elementos dos gêneros e à nossa sociedade moderna. Me diverti bastante lendo este livro. Rodrigo consegue capturar os momentos certos das piadas, e ainda nos entrega uma trama maravilhosa, cheia de mistérios, também centrada no tema androides vs humanos. Ao contrário da obra de Dick, Brasil cyberpunk #2 ainda explora temas políticos, tão atuais e necessários no Brasil de 2016.

A leitura é curta e flui bem. Os diálogos são bem realistas. E os personagens foram bem desenvolvidos, ainda mais comparando com o volume 1. O worldbuilding, meramente tocado no primeiro livro, aqui foi bastante expandido. A escrita do autor é leve e dinâmica, e seu humor lembra um pouco Douglas Adams.

Enfim, duas belas e indispensáveis obras sobre androides, cada uma em seu estilo.

Mestre em matemática pela UFC, viciado em séries e jogos, curioso observador do universo, editor do Clube de Autores de Fantasia e aspirante a escritor.

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Mestre em matemática pela UFC, viciado em séries e jogos, curioso observador do universo, editor do Clube de Autores de Fantasia e aspirante a escritor.