Requiém para um sonho

Enquanto a velha mastiga, ele deseja. Revira a papa viscosa. Ouve as mesmas advertências da gorda entupida.

“Ela fala o certo, mas sempre do jeito errado”, o interlocutor remói enquanto saliva, no pensamento, a refeição dos seus sonhos em prato alheio.

No meio de outra mastigada (cavalar) da idosa, ele avança. Arranca o garfo das mãos surpresas e enfia-o na jugular que, de pronto, lhe espirra sem critérios. O moço alto e pálido sorri, como um amaldiçoado, mas satisfeito porque jantará carne, um ano depois. Experimenta a peça cozida, todavia reprova. Acha melhor a do entorno aos buracos, ainda cuspindo vermelho. Pega a faca rente e degola a senhora, que lhe fornece a consumação dos instintos.

– O que foi, rapaz? Ficou surdo?

– Hã? Nada, Vó… nada.

– Você sabe que não pode comer carne, né? O médico te proibiu e …

– Tá, vó. Tá. Já sei, sei…

A campainha toca.

Entre rápido e sereno, o moço se ergue. Jura defender a avó de quaisquer abusos, por isso a recolhe. A velha se queixa de dores. Ele verifica a região indicada. Nota uma falha nas costuras (grossas) do pescoço. A campainha se repete. A senhora é, cuidadosamente, transportada ao sótão. O moço pálido se constrange, mas tem de resguardá-la. Sabe que ela abomina policiais.

Elício Santos é colaborador fixo da Revista “Capítulo Um”, e tem textos publicados em outras revistas especializadas. É colunista do Blog “Chavalzada”. Obteve premiações em alguns concursos literários e participou de várias antologias de contos e poesia. Cursou três oficinas literárias.

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Elício Santos

Elício Santos é colaborador fixo da Revista "Capítulo Um", e tem textos publicados em outras revistas especializadas. É colunista do Blog "Chavalzada". Obteve premiações em alguns concursos literários e participou de várias antologias de contos e poesia. Cursou três oficinas literárias.