Osore-zan

Aos 25 anos, Joana realizara seu maior sonho, custeando a tão sonhada viagem ao Japão. Mais do que uma obsessão, o país se tornara algo ideal em seu pensamento, um bálsamo milagroso capaz de curar tudo o que lhe escurecia a alma.

Talvez o encanto por tudo que fosse nipônico tivesse começado em razão dos desenhos que assistia aos sábados pela manhã, onde maravilhosas garotas mágicas salvavam o mundo com os poderes da amizade e do amor. Quando tudo o mais em sua vida parecia manchado pelo veneno escuridão, a luz daquelas histórias era tudo o que a ajudava a se manter de pé, a acreditar que existia uma alternativa de sonhos e flores de cerejeira à sua espera.

Depois de muitos sacrifícios e conquistas, havia conseguido, tendo feito uma viagem de quase dois meses, que terminava, como previsto, no monte Osore, naquela exata noite de lua, onde confessaria todos os malfeitos de seu passado.

O silêncio que dominava o pico do Osore-zan1 era nada menos que sobrenatural. No topo, sentada exatamente no centro do pátio aberto do templo, Joana meditava uma última vez, tentando acalmar sua mente e se conectar com Tsukuyomi2, a quem desejava ofertar sua alma. Concentrar- se enquanto era cercada pelos Onis3 de Izanami4 era difícil, mas ela sabia ser aquela sua última chance de liberdade.

Enquanto meditava, buscava conectar-se com a energia que a envolvia, e, ao mesmo tempo, deixava-se livre para que a transformação tomasse seu corpo. Sentiu a contração dos músculos e a agonia do fogo, lutou por manter a consciência enquanto seu corpo se redobrava e assumia a forma quadrúpede, os relinchos e gemidos escapando de seu pescoço decapitado, o fogo do pecado queimando em seu sangue e escapando pela boca ausente, escancarada e faminta de almas pecadoras como a sua.

Apesar do insistente impulso do galope, permaneceu imóvel, forçando o controle da mente sobre o corpo, concentrada em permanecer Joana e nada mais.

Ao assumir sua faceta demoníaca, os Onis que a cercavam tomaram forma, posicionados em um círculo mal traçado a sua volta, seus sussurros tornaram-se vozes autoritárias que cobravam explicações e bradavam ameaças. Joana se concentrava na lua e em alcançar Tsukuyomi com suas preces. Finalmente foi ouvida e por resposta teve somente a indagação de seus motivos.

Ainda em sua figura amaldiçoada, com as patas dianteiras reclinadas em contrição, falando através de seu espírito, Joana contou sua história e rogou pelo fim de seu sofrimento.

Contou para a Lua tudo o que jamais pudera contar para ninguém. Falou de sua mãe beata, Maria, e do Padre Joaquim, que dizia ter visto o demônio nos olhos da menina Joana. Fora o mesmo a convencer sua mãe de que estava possuída e que somente ele poderia salvá-la. Contou das noites na sacristia onde o sacerdote lhe batizara em gozo enquanto se regogizava em suas lágrimas. Das surras da mãe quando tentou gritar sobre o verdadeiro Maldito na terra.

Falou de seu primeiro galope enquanto ainda era menina e dos pecados que ardiam no coração dos que se diziam puros. Do prazer que foi tomar a vida dos que faziam com outras o que fizeram com ela. Confessou, por fim, nunca ter amado. Seu único desejo em vida era fugir para o mais longe possível, exatamente aqui, onde realizaria o sonho e estancaria o sangue.

Tsukuyomi ouviu tudo que Joana precisava chorar e tentou consolá-la com sua luz, vendo em seu coração a certeza de seu pedido. Comovido pelo sacrifício e pelo sofrimento da jovem, fez brotar da terra um galho novo, afiado e pronto, às margens do rio Sanzu5, acalentando o espírito do demônio para que este não impedisse o último ato de escolha daquela alma que tão pouco pedia.

Em um último galope, Joana empalou-se na madeira nova. Viu seu sangue verter sobre o solo sagrado, transformando-se novamente em mulher. Sentiu, em meio à agonia da morte, a liberdade de ter exorcizado seu pior demônio. Quando seu corpo nu caiu no rio, sua alma desprendeu-se para realizar a travessia, suave e tranquila, que a libertava do fogo para o renascimento na carne.


1 Monte Osore, localizado no Japão

2 Deus japonês da Lua

3 Demônios japoneses

4 Deusa do submundo, responsável por julgar as almas mortais

5 Rio das almas

Advogada e feminista. Tem o sonho de ensinar e paixão por aprender. Escritora iniciante e leitora veterana, resolveu tentar a sorte no caminho das letras. Colecionadora de causos, histórias, livros, canecas, bottons e qualquer outra coisa que chame vagamente sua atenção.

LEIA TAMBÉM:

Lara Forte

Advogada e feminista. Tem o sonho de ensinar e paixão por aprender. Escritora iniciante e leitora veterana, resolveu tentar a sorte no caminho das letras. Colecionadora de causos, histórias, livros, canecas, bottons e qualquer outra coisa que chame vagamente sua atenção.

  • Vilson Gonçalves

    Me destruiu.

  • Sara dos Anjos

    Chorei.