Um mundo de belos sorrisos

Acordo. Durante alguns minutos encaro a brancura plácida do teto. É vazio, mas, por alguma razão, reconfortante. Pudera eu ficar aqui o dia todo. Afasto o pensamento com um movimento de pernas, sentando na lateral da cama. Ritualisticamente olho em volta, as molduras, peças de vidro, móveis, todos no mesmo tom do teto, sua alvura me parece por um segundo opressora, quero me virar e deitar de novo. Afasto o pensamento me levantando da cama, conto os passos até o banheiro, a fuga é em vão pois o ambiente pouco difere do cômodo anterior, tenho vontade de correr e pular na cama quentinha. Afasto o pensamento sentindo a água bater em minha face, me banho como se o chuveiro pudesse empurrar os sentimentos esgoto abaixo junto com a água.

Vou até o closet. Um mar de cores invade meus olhos e por um segundo são tão opressoras quanto o branco. O que tem de errado comigo? O belo vestido estava escolhido desde a noite anterior, metodicamente dobrado, o tom cinza remetendo à seriedade exigida no trabalho. Visto-me devagar, encarando o espelho. Adoro, odeio, e volto a adorar. Saio da frente antes que o processo retorne ao ponto de partida.

O café está posto. Mais uma vez, deparo-me com o colorido sobre a mesa. Admiro tudo, mordo uma torrada e estou satisfeita. Parecia delicioso, e era.

Organizo o necessário e me dirijo à porta, cruzo o corredor com a cabeça vazia de pensamentos diversos. Num sobressalto, uma lembrança me ocorre antes de sair, um sorriso irônico vem a minha cabeça junto com o questionamento: seria o esquecimento proposital?

Dou alguns passos para trás e me viro para a parede ao lado da porta. Meus rostos estão todos lá, encarando-me com serenidade.

Meu deus! Como pude esquecer-me de minha face? Que choque seria sair ao mundo sem ele, expressão máxima de quem sou. E dos meus privilégios.

Poucos têm a quantidade e variedade de rostos que possuo. A maioria por mero luxo: quem sairia na rua com uma expressão constante de Surpresa?

Tento evitar pensamentos mais longos e vou direto no meu clássico e belo Sorriso, mas ao tentar evitá-los é como gritar para que venham com mais força.

Vejo então minha expressão de Raiva. Deveria usá-la, é apropriada para o que sinto constante naquele ambiente de trabalho. De repente a memória me assola vivida.

***

Me dirijo a sala decidida, foram meses de trabalho e esforço praticamente singulares de minha parte, eu mereço. Bato na porta, dentro a resposta.

– Entre. – a voz suave, por trás de um sorriso.

– Bom dia senhor. Posso ter um minuto do seu tempo? – digo ao abrir a porta.

– Claro. Fique à vontade. – responde com seu largo sorriso indicando a cadeira a sua frente.

Sentei, tentando ignorar seu olhar invasivo ao meu corpo, fui direto ao assunto a fim de acabar com a situação o mais rápido possível.

– Venho questionar sobre a minha promoção, tenho feito meu trabalho de maneira excepcional, já passa da hora de ascender um nível na empresa. – falei sem pestanejar, mantendo um olhar incisivo por trás do meu próprio sorriso.

– Você tem ousadia, nós gostamos disso aqui – ele me olhava e eu sentia a malícia – mas, veja bem, você já subiu até onde podia subir. Nunca uma mulher vai chegar em uma posição de equivalência a minha nesse lugar, deve entender de suas próprias desabilidades. – disse ele por trás daquele repugnante e condescende sorriso.

– Desabilidade? – questionei intrigada.

– Sim. Desabilidade. Ser uma fêmea, mulher por si só a maior de todas as desabilidades, mas não me entenda mal, é magistral que tenha chegado onde chegou, só não imagine que com sua condição irá além disso, quanto mais cedo se conformar melhor para você. – despejou isso em mim e em nenhum momento quebrou o sorriso, nem poderia.

– Mas só por isso, eu pensei que…

– Nem comece com esses blá-blá-blá progressista. Você conhece seu mundo melhor do que eu, o erro foi seu em criar expectativas que nunca estiveram na mesa. E se quer discutir sabe muito bem que esse não é lugar para isso. Se isso é tudo pode se retirar e por favor não desperdice meu precioso tempo com esse tipo de coisa novamente. – aspereza por trás de seu lindo e branco sorriso.

Raiva não viria sozinha puxa meus olhos para Asco, já sabia seu lugar decorado de tanto pensar em colocá-la. Ojeriza daquelas pessoas, seus fingimentos e hipocrisias. A falsidade impera no lugar dos rostos escolhidos. Alguns dias depois do duro choque de realidade, eu tinha consciência que de fato me iludi, conhecia aquele lugar, mesmo assim quis acreditar que poderia mudar as coisas. Estava de pé diante de minha mesa, vários de meus pares estavam em suas próprias trabalhando em algo particular, todos com seus sorrisos quem assiste algo engraçado.

Senti a súbita aproximação em minhas costas.

– Andei pensando no que você falou sobre promoção. – disse a voz suave atrás de mim.

Me virei, meu sorriso estaria muito mais largo se isso fosse possível.

– Jura? – disse esperançosa. Então pude ver a malícia naqueles olhos.

– Talvez exista algo que possa fazer para finalmente alcançá-la. – disse isso com sua mão fazendo um movimento suave por baixo da minha saia.

Busquei desesperada o olhar de meus pares em busca de auxílio, todos assistiam a cena, mas ao receber o encontro do meu olhar, seus sorrisos se voltavam para a máquina a sua frente. Senti uma gota de suor gelada descer pelas minhas costas.

Empurrei seu corpo bruscamente.

– Entende sua desabilidade? É por isso que não pode chegar onde estou. – ironizou.

Malditos hipócritas, no fim ninguém viu nada. Quem disse que viu, me viu gostar. Ora eu sorria, é obvio que devia gostar, foi tudo que ouvi. Mas será quem alguém desgosta de algo no lugar dos sorrisos?

***

Pensar em hipocrisia leva meus olhos à Ironia. Quem sou eu para falar da hipocrisia alheia? Cercada das minhas faces que se escondem dentro dessas paredes, sem coragem de escapar de minha prisão de cristal. Questiono se algum dia da minha vida vivi de verdade, senti de verdade? Sentimentos podem ser plenos sem a possibilidade de externá-los? O redemoinho de sensações me traga para o fundo.

Tristeza me encara com seus olhos penetrantes e carentes, desvio meu olhar, mas é impossível desviar da reflexão. De fato, ela seria aquela que melhor expressaria o que vai dentro de mim, mas sequer posso cogitar colocá-la. Para ela reservo meus olhares tímidos de paquera quando passo nesse corredor a caminho da rua.

Vê? A hipocrisia é a armadilha do lugar dos sorrisos.

Seriedade seria uma boa opção, é sóbria, combina com meu vestido. É obviamente chamativa, mas não tanto quanto Tristeza. Mesmo assim, levantaria perguntas, e – muito pior – comentários. Ninguém que ver sua infelicidade no lugar dos sorrisos, para que esse exibicionismo?

De repente turbilhão de sentimentos se intensifica, olhando meus rostos ali, organizados e etiquetados nas prateleiras, uma infinidade de sentimentos que não posso usar no mundo afora. Irritação e Indignação captam meu olhar, sinto vontade de vesti-las e sair orgulhosamente na rua, intimidando os falsos sorrisos com violência no olhar.

Medo então me encara, com seu olhar profundo toca em minha alma e aplaca o turbilhão. A quem estou querendo enganar, não suportaria aqueles olhares e seus belos sorrisos, os julgamentos são tão intensos que é como se eu pudesse ouvi-los. Tenho que tomar coragem todos os dias, mesmo usando o Sorriso.

Existe algo de muito estranho comigo, é como se eu pudesse ver além, o que está por trás das faces. Minha mão sobe como que por instinto e toca no vazio onde deveria haver um rosto. Encaro o espelho. Questiono se aquele não deveria ser meu rosto verdadeiro, se não seria isso que deveria usar. Olho para o lado e Horror me mostra o pensamento que estaria atrás dos sorrisos se eu decidisse ir ao mundo assim. Surpresa me encara abobada, pelo simples absurdo que representa o pensamento. Assombro me agoura imaginando as reações, o esconjuro e expurgo que sofreria.

Mais uma vez eu fico aqui, presa a me olhar, imaginando as possibilidades de um mundo que está a passos de distância e poderia ser experimentado na prática. O que de pior poderia acontecer? Não vou morrer, não serei espancada, o pior que pode me acontecer é a rejeição por trás de belos sorrisos. Como pensamentos alheios podem intimidar tanto? Ferir tanto?

Paro por alguns segundos me encarando. Uma determinação enche meu coração, não quero mais fingir, não quero ser o que não sou, quero ser mais que um belo sorriso. Meus rostos me encaram como se me perguntassem quem será o escolhido. Tristeza é o mais coerente, sempre quis vesti-lo, ele é melhor representante de mim em muito mais tempo do que posso lembrar, ele é o que se encontra no fim do turbilhão. O curioso é como nesse exato momento uma alegria agora reside em mim em decorrência dessa nova e temerária resolução de vida. Mas eu não me deixo enganar e sei o que de fato reside em meu ser.

Pego o banco, as expressões menos usadas ficam nas prateleiras de cima. Ao subir no batente nossos olhares se cruzam, encaro Tristeza de frente, de alguma de forma ela me parece satisfeita por minha escolha, provavelmente mero reflexo da minha imaginação desejosa.

Diante do espelho eu a coloco, preenchendo o vazio, e encaro aqueles olhos penetrantes: parece tão certo que eu me deixo na sensação por alguns momentos, como se apenas ao vesti-la eu enfim sentisse plenamente o que ela significava. Uma lágrima solitária escorre pela minha face, toca meus lábios e me faz sentir seu gosto salgado. E o mais curioso foi que, do fundo do meu coração, tudo o que quis naquele momento foi poder sorrir.

Estou satisfeita como em muito tempo não me sentia. Organizo novamente minhas coisas e me dirijo para a porta dessa vez em passos duvidosos…lentos…vacilantes…eu paro…

Por que…?

Meus ombros pesam e eu baixo minha cabeça enquanto meus dedos escorregam pela maçaneta que eu não tenho força para abrir.

Viro-me com Tristeza estampada em plenitude no rosto, mas é Fúria que preenche o coração. O turbilhão culmina em explosão, em um ímpeto eu ataco aquelas faces. Com violência e amargor eu destruo várias enquanto recebo o olhar julgador das remanescentes.

Quando consigo parar, meu peito arfante e lágrimas copiosas. Levanto minha cabeça e primeiro olhar que recebo é de Vergonha, que me julga, rubra.

Vou para o quarto me desviando dos cacos, dispo-me e reinicio o processo feito na manhã, com a esperança que o reboot resolva essa crise. Após alguns minutos, estou recomposta. Organizo minhas coisas, passo veloz pelo corredor e pego meu rosto sem pestanejar e vou para a rua.

As pessoas passam por mim e me cumprimentam afáveis, retribuo. O que posso fazer? O que mais eu poderia vestir em um mundo de tão belos sorrisos?

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.