Evidências de uma vida bem vivida

— E por último, deixo meu diário para minha neta, Carol, a quem amo tanto – disse o advogado, lendo o testamento de vovô.

Levantei da cadeira sem muita firmeza e caminhei até a mesa. No meio de todas as moedas e fotos e caixas, o diário de vovô brilhava como se tivesse luz própria. Sem muita segurança, estiquei a mão em direção a ele, mas me contive.

— Vamos, menina. Pegue — disse ele, olhando por cima dos óculos.

O advogado, doutor Lucas, era um velho conhecido de vovô. Tinham praticamente a mesma idade, os mesmos cabelos brancos, o rosto cansado e enrugado.

— Esse diário era muito secreto – eu disse, a voz tremida.

— Para você não é mais.

— Mas por que eu?

O velho sorriu.

— Você é escritora, não é?

— Sou, mas…

Ele apanhou o diário de sobre a mesa e colocou em minha mão.

— Seu avô era um homem sábio. Confie na decisão dele.

Não consegui evitar o choro. Abracei o diário como se fosse meu avô querido, que partiu de maneira tão repentina.

*

Já em casa, sentei-me no sofá e, como se tocasse algo prestes a se desfazer, passei a ponta dos dedos sobre a encadernação de couro marrom. Cheirei-o e pude sentir meu avô ali: couro, cigarro e o velho perfume de sempre.

Abri o diário e, logo na primeira página, reconheci a letra fina e um pouco trêmula que era só dele

 “Aqui, escrevo minhas memórias, evidências de uma vida bem vivida.”

 Logo abaixo, com uma caligrafia menos firme e a tinta mais nova:

“Carol, a Dama Negra me ronda. Isto agora é seu. Espero que saibas que sempre te amei.

De seu eterno avô e pai.”

Não consegui ler mais nada. Não conseguia parar de chorar, de lembrar de sua risada, de sua sobrancelha levantada, do cheiro misto de fumo e almíscar, da roupa branca sempre impecável.

E a barba. Aquela linda barba grisalha, sempre aparada com esmero absurdo.

O diário teria de esperar. A dor era grande demais.

*

Duas semanas se passaram antes que eu pudesse abrir o diário sem vontade de morrer. Neste dia, então, vi-me sorrindo ao ler os relatos das aventuras dele, viajando pelo Brasil como motorista particular.

Eu sempre me perguntara para quem dirigia, mas ele sempre dizia “pessoas importantes que não podem se revelar”. Uma vez peguei meu pai dizendo que ele dirigia para criminosos ricos, mas quando ele me viu desconversou e riu, dizendo que era só uma brincadeira.

Quando perguntei a meu avô, ele riu, levantou a sobrancelha e disse:

— Quem sabe?

Eu nunca soube com certeza.

*

Ele parou de dirigir aos setenta, com a visão já gasta, “e a bunda quadrada”. Desde esse dia, nunca mais entrou em um carro como motorista.

— Quando você passar a vida inteira fazendo a mesma coisa, mesmo que seja algo que adore, salte fora na primeira oportunidade. Não seja uma pessoa de uma habilidade só – disse, e piscou o olho para mim.

*

Ele nunca parou de escrever. Tinha dois livros publicados, sob pseudônimos. Eram livros muito bem vendidos, e a renda deles poderia mantê-lo em casa para sempre, de maneira muito confortável. Mas ele também cozinhava, costurava e fazia drinques maravilhosos.

— Eu sou muito talentoso – dizia, com um sorriso.

E era mesmo.

*

Vovó faleceu quando ele tinha cinquenta e sete. Eram, juntos, o casal mais feliz que eu conhecia. Mas longe de serem perfeitos: brigavam, discordavam, ficavam sem se falar…

Quando ela se foi, ele prometeu que vestiria branco pela vida inteira.

— Ela adorava me ver de branco – disse, durante o velório. – E vai ser assim até eu morrer.

 

*

Todas essas lembranças me saltaram enquanto folheava o diário. Eram memórias esparsas, de momentos aleatórios de sua vida, que ele ia escrevendo à medida que se lembrava. Algumas eram engraçadas, outras dolorosas, outras tão simples que, se fosse outra pessoa, jamais registraria.

“Hoje, quando voltava do trabalho, vi uma sacola voando dentro de um redemoinho de vento. Ela rodava e rodava, sem parar, sem cair. Perdi mais de trinta minutos ali, parado, sem perceber. Fui embora e ela continuou rodando, como se eu não existisse. Foi uma das coisas mais lindas que já vi.”

*

Nas últimas páginas, havia uma lista de coisas que ele queria que eu fizesse.

“Carol:

Essa lista é a evidência-chave de que a vida merece ser vivida com tudo, sem amarras e contenções. Siga-a o melhor que puder, e não esqueça de ticar os quadradinhos quando as tiver concluído.

De seu eterno avô-pai, que te amou muito.

  1. Todos os anos, duas cidades diferentes no seu estado, duas em outros estados e uma internacional. Nunca repita um destino. []
  2. Sempre coma comidas de outros lugares. Nunca se negue a experimentar, por mais que te dê nojo. Deixe para dizer que não gosta depois de provar.[]
  3. Aprenda um instrumento musical. []
  4. Ouça música como se não houvesse amanhã. []
  5. Assista filmes todos os dias, bons ou ruins. []
  6. Leia muito. Desesperadamente. No mínimo, doze livros por ano. []
  7. Continue escrevendo. Seus textos são bons, mas quanto mais escreve, melhor fica. []
  8. Cuide de seu pai. Ele é um tolo, e eu o amo como se fosse meu filho. []
  9. Sua mãe não precisa de cuidados, ela é igual a mim. Mas ela pode ser amada, e é louca por você. []
  10. Há um trecho da BR-116 entre o Ceará e Pernambuco onde eu sempre parava para urinar. É um posto de gasolina antigo, abandonado, de nome “Gia Cotia”. Sempre que passar por lá, quero que lembre de mim. (Eu sei que essa é estranha). []
  11. Se você tiver filhos, saiba que é a melhor pior coisa do mundo. E saiba também que, mesmo quando eles não o dizem, continuam te amando. []
  12. Cuidado com o álcool, e evite o cigarro. Essas coisa vão acabar te matando, e não são, nem de longe, tão legais quanto dizem ser. []
  13. Espero que não use drogas, mas, se usar, cuidado para não se perder. []
  14. Tenha pelo menos um curso de nível superior. Não valem nada, mas as pessoas te veem de uma maneira diferente se você for “formado”. []
  15. A família é a coisa mais importante de nossas vidas. Nunca esqueça disso. []
  16. Sabe o Opala azul, que está na garagem? É seu. Não deixe seu pai tomar. O Lucas já sabe. []
  17. O resto da lista é com você. []

E aí, umas dez páginas em branco até o final do diário.

Deixei-o sobre a mesa e fui até a janela. Estava um dia lindo, um sol maravilhoso.

Fazia quase um mês que não ia na casa dele. Pensar em entrar lá e não sentir o cheiro de cachimbo e ouvir sua risada… era um vazio estranho, mas não de todo ruim.

Pegar o carro e rodar até o trecho da BR-116 entre Ceará e Pernambuco, ouvindo as músicas que ele amava tanto…

Isso daria um puta livro. Já tinha até título: “Evidências de uma vida bem vivida”.

Peguei meus óculos escuros, apanhei o diário e saí.

Hora de começar a ticar os quadradinhos.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Sara dos Anjos

    Gostei demais!!!

    • Michel Euclides

      Grato pela leitura! Abraço!

  • Nilo Paraná

    Adorei a leitura. Gosto muito desse tipo de texto, leve e divertido. Dá raiva quando acaba. E dá raiva de não ter sido eu a escrever…rss…eita, estou muito raivoso hoje. Valeu…parabéns.