Volta, verso e vovó

“Voltar é o diabo”, como bem atesta Emerson Braga em seu romance “A morte de um embusteiro viajante” (crítica aqui). Depois que abandonei esta coluna há alguns meses, tenho tentado voltar de todas as formas, mas sentia como se este espaço não me aceitasse mais, como se a tranca da porta não se abrisse com a minha chave. Já tiveram esse sentimento? A sensação de ter se enganado com o molho de chaves, a expectativa de dormir do lado de fora, agasalhando-se com o tapete?

É fácil confundir-se com a chave de casa porque, provavelmente, outra chave acomodou-se no bolso durante a ausência, uma chave que abre outras portas, em outras residências, a quilômetros de distância. E o diabo de voltar é que até a chave antiga parece estrangeira nas mãos, os dedos meio sem jeito para girá-la. E quando enfim a gente empurra a porta emperrada, as paredes, os móveis, os porta-retratos olham com cara de leão de chácara: “vai encarar?”.

Pois é, voltar é o diabo. Toda volta implica uma reconstrução. Deixar para trás o lar é permitir também que as vigas se entortem pouco a pouco, que a pintura descasque, que o mofo tome conta dos armários. Voltar pra debaixo daquele teto conhecido exige reforma, e reforma exige dedicação (e, sobretudo, paciência com os pedreiros).

Acabei de entrar, e as palavras me olham torto. Tenho aqui argamassa, cimento e tinta lavável extra brilho, mas a prosa me parece desconfiada. Prosa é amor, e enciuma-se. Também pudera: não apenas me afastei de suas orações subordinadas, de seus longos períodos, de seus parágrafos, como também me refugiei nos versos por todo esse tempo. Estava eu brincando de ser poeta, iludido com rimas e versos brancos, com métrica e liberdade, enquanto a minha cozinha definhava, enquanto enferrujavam os meus portões.

Portanto, é melhor ir devagar. Ainda que passe agora a trabalhar toda terça, vou só arrumando uma rachadura aqui, dando um retoque acolá, na esperança que minha casa me reconheça e me aceite de volta. Sem pressa, hoje ainda vou dormir do lado de fora.

E é por isso que a historinha que vai abaixo está contada em verso, uma trovinha. Não é gratuita: fala sobre o mais gostoso dos lares, o amor de avó. E sobre saudade, que é, afinal, o motivo de toda volta, de todo retorno.

***

Aniversário. Eu me escondia
atrás das pernas de mãezinha,
co’as bochechas nas mãos das tias,
sorria

e escapava para a cozinha,
onde o bolo aguardava a festa.
Então, tirava uma casquinha
só minha.

Um dia, despertando da sesta,
vovó pegou-me no delito.
Foi perguntando, mão na testa:
“Mas e esta?”

De novo comendo escondido?”
Meu rosto, cheio de cobertura,
era como o de um monge contrito:
“tô frito”.

Nada! Vovó, toda ternura,
limpou-me a cara confeitada
e, sem qualquer descompostura
ou dura,

fui liberado, benção dada.
E só depois, como convém,
toda a família acomodada,
chocada,

mãezinha descobriu que alguém
meteu-se a besta e estragou
o bolo antes dos parabéns.
Refém

dos nervos, pálido, sem cor,
já estava quase me entregando
quando vovó me segurou.
Falou

que foi mesmo ela, cutucando
para ver o ponto da massa.
Olha, estava mesmo um espanto
e tanto

que saiu comendo que nem traça.
Vovó falando, toda enérgica,
e todo mundo achando graça.
Escassa,

minha cor voltou, estratégica.
E, desse jeito, levou a culpa
vovó, sempre sincera e ética,
diabética,

feito viciada em açúcar.
Hoje, tantos anos passados,
vovó tendo feito a sua fuga,
a busca

por um céu bem assim fechado
quase sempre é o que me consola.
Porque sei que num dia nublado,
é fato

certo: se um anjinho devora
escondido um algodão doce,
vovó já aparece na hora:
“me ouve,

São Pedro,
tu também me atiças!
A nuvem ali estava que era uma delícia!”


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

  • Nay Chan

    que fofo esse!

  • Thiago Noronha

    eu amei Moa