Atrasos e empecilhos

Renato pulou da cama ao ver que o celular não tinha despertado. “Justo hoje?”. Colocou a camisa, calça, terno e sapatos em uma velocidade impressionante, e ao abrir a janela do quarto levou uma flechada no peitoral esquerdo, centímetros acima do coração. “Que saco!”. Analisou rapidamente a flecha espetada, para em seguida olhar para o relógio, “Não vai dar tempo”. Pegou uma maçã e um iogurte. ”Azar nunca vem sozinho!”. Se enfiou no carro, colocou o cinto de segurança desviando da flecha e correu para a empresa. Tinha uma apresentação de projeto às dez e já eram nove e trinta e sete. “Calma, respira, já fiz esse trajeto em quinze minutos”.

No caminho teve tempo para repassar o que iria falar para o cliente. “Com todo respeito, a sua empresa não me parece estar ouvindo o que os consumidores pedem nas redes”, ou algo assim. O objetivo era vender um aplicativo para a marca de leite vice líder no mercado, a maior cliente da empresa.

Ao parar no semáforo da Brasil com a Atlântica, viu o rapaz cadeirante girando a bola de basquete e vindo para pedir uma ajuda. Todo dia ele vinha e todo dia Renato arrumava um jeito de evitar o sujeito. “Foi mal amigo, hoje estou corrido”, pensou na desculpa antes da abordagem. Mas desta vez nem precisou. O cadeirante chegou na janela do carro não falou nada. Ele apenas parou perto do espelhinho, olhando fixo pro motorista. Renato estranhou. Achou que o cara estava bêbado, ou talvez tivesse mudado de ramo. “Parou de pedir e vai me assaltar”. Procurou a arma na mão do rapaz, mas não tinha. O cadeirante mal conseguiu falar “Amigo, você tem uma flecha…”. O semáforo abriu e Renato completou “desculpa, não tenho nada”, acelerou.

Renato olha pelo espelhinho o cadeirante que permanecia no meio da avenida. De relance viu a flecha, “essas penas horrorosas de feirinha hippie”. Cogitou arrancar por conta própria, mas ficou com medo de piorar a situação. Já estava tudo dando errado, uma flecha a mais não seria o problema. Veria isso na hora do almoço. “Reunião, ata por email e flecha”, se organizou em ordem de prioridades. “Não. Reunião, ata por email, lanche e flecha”. Não tinha comido quase nada no café e se tivesse que esperar muito pra ser atendido poderia desmaiar.

Nove e cinquenta e oito chega no valet do prédio da empresa e desce sem nem mesmo pegar o ticket. “Seu Renato…”, o manobrista tenta. “Depois eu venho”, e sobe correndo. No elevador olha o celular: duas chamadas perdidas, cinco mensagens. “Nem vou ver”. Arruma o cabelo no espelho, confere a barba. “Vai dar tudo certo”, pensa.

Flávia vem correndo “é na sala sete, o cliente não vem, vai ser por skype mesmo daqui cinco minutos”. A parte boa era que ganhava mais tempo. A parte ruim é que não usaria todo o seu charme presencial. Renato era bom nisso, olhava nos olhos do cliente, prestava atenção em sua linguagem corporal e adequava seu discurso. Mas paciência. “Você está pálido, Renato”, Flávia observa o colega por um micro instante, “quer um café pra acordar?”. Era disso que ele precisava. “Por favor!”, e corre para a sala sete.

Flávia entra na sala com o café, recebem a chamada. Mas antes tem o aquecimento de toda reunião virtual. “tá me ouvindo? E agora? Deixa que eu e ligo. Aumenta o som. Vou tirar o vídeo”. Vai sem vídeo mesmo.

Por quarenta minutos Renato falou, andou e leu. Respondia a todos os “mas precisa?”, “já não existe?”, “eu não entendo disso”, do cliente. Desenhou sem precisar desenhar, enviou referências e pesquisas. Falou do ambiente, panoramas e conjunturas. Clientes, público e tendências. Fez a metáfora do mercado consumidor ser como uma floresta, com raízes, rios e fungos. E antes de começar o striptease ouviu o que queria: “É, me parece mesmo interessante. Vamos dar andamento nessa conversa no fim da semana e já fechamos?”. Bingo.

Desligaram a chamada empolgados. Flávia levantou para cumprimentar, “mandou bem, ele vai fechar!”. Renato estava orgulhoso. O dia que começava caótico com relógio atrasado, flechada, cadeirante no semáforo agindo estranhamente, até que não ia tão mal assim. Tirando aquela dor no peito chatinha, as coisas estavam voltando ao normal. Repassou as tarefas: Reunião, ata por email, lanche e… Não deu tempo de chegar até sua mesa e caiu de costas no chão.

Ao acordar entubado na ambulância, o enfermeiro tenta tranquilizar, “senhor Renato, nós encontramos uma flecha cravada no seu peito. Você perdeu muito sangue e está indo para o hospital”. Muito confuso, Renato ainda tenta deixar claro que a situação está controlada,“é que eu não comi nada no café, acho que baixou a pressão”. Apagou de novo. E não voltou mais.

Na empresa todos estão inconformados.“Ele estava mesmo com uma cara abatida quando chegou hoje. Vinha trabalhando demais. Acho que foi coração”, comenta Flávia na mesa do restaurante por quilo. “Mas se tem um lado bom, hoje ele fez uma apresentação impecável”.

Formado em publicidade Rafael é roteirista, dramaturgo e ator, e já escreveu para diversas séries para a televisão. É também um dos sócios da produtora “Talagada”, que conta com uma websérie de esquetes de humor em seu canal do Youtube. Semanalmente Rafael apresenta seu texto de stand up na rua Augusta, em São Paulo.

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Rafael Fanganiello

Formado em publicidade Rafael é roteirista, dramaturgo e ator, e já escreveu para diversas séries para a televisão. É também um dos sócios da produtora "Talagada", que conta com uma websérie de esquetes de humor em seu canal do Youtube. Semanalmente Rafael apresenta seu texto de stand up na rua Augusta, em São Paulo.

  • Sara dos Anjos

    Prioridades da atualidade… :))) Gostei!

  • Diego Sampaio

    Sensível e interessante 🙂

  • Juliana

    Gostei muito do conto e da flecha.

  • Nay Chan

    que tapa na cara. Gostei muito!