A saga de Heleno

Heleno conheceu aquela ruiva em maio do ano passado. Foi um amor breve, mas intenso. Depois disso ele se tornou imortal. Sempre foi um bom lutador, mas agora estava imbatível, seus adversários quase não o tocavam, ir à lona parecia impossível. Uma lenda em ascensão.

Sua sorte ia além da arena. Nada o ameaçava. nada o tocava. Isso até acordar febril, era um sinal, estava na hora de visitá-la. Seja lá o que o protegia, perdeu o efeito.

– Tem certeza? Se me lembro bem, você falou que ela era inconsequente – falou Marcelo, seu treinador –, louca e jovem demais, ela tinha o que? Dezesseis anos?

— Dezessete. Foi depois daquela época que minha sorte aumentou. Tenho que fazer isso. Eu irei visitá-la.

— Você não está bem, deveria ir ao médico. – Marcelo era cauteloso, mas sabia que ele não consideraria uma segunda opinião.

Uiara morava num bairro distante. Foi uma tarefa árdua chegar ao seu bairro. Demorou cerca de uma hora para chegar lá. Ainda que fizesse parte da mesma cidade, o lugar parecia ter uma arquitetura própria. As ruas seguiam um padrão aleatório, as casas muitas vezes se desencontravam. O local era bem arborizado, suas árvores, porém, eram estranhas e retorcidas, pareciam confrontar as paredes dos casebres abandonados. Remédios pouco ajudavam.

A porta estava aberta, ele não fez cerimônia para entrar. A guirlanda que ficava na porta, sempre florida, estava caída.

Ele a encontrou na cozinha.

— Oi querido, estava te esperando.

— Eu não estou bem.

— Também estava com saudades! É sempre assim, somem, nos odeiam, nos discriminam até precisar de nós. E não estou falando apenas pelas bruxas – ela lhe entregou o chá que estava preparando -, beba isso, vai aliviar sua febre.

— Como você… Está diferente.

— Pintei o cabelo, gostou?

Não era apenas seu cabelo loiro: ela havia engordado, surgiram algumas rugas precoces. Ela não parecia apenas mais madura, envelhecera alguns anos!

— Sim, sim. – Heleno falou enquanto bebericava o chá. – O que aconteceu com esse lugar?

— É a época do ano, as coisas tendem a definhar para então se reerguerem.

— Diga-me, o que foi que você fez comigo?

— Te amei – respondeu a bruxa -, você não disse que meu amor era a única coisa que precisava?

— Disse? Esse foi um ano estranho – ambos sentaram-se à mesa -, algo mudou em mim.

— Ah, Heleno. Você devia ter me visitado antes. As coisas estão complicadas agora, o ciclo está incompleto.

— Durante esse ano, eu fui imbatível, intocável. Toda desgraça desviava do meu caminho, mesmo quando eu procurava. Agora acabou.

— E agora você me pede ajuda. Não fui eu que fiz isso, no máximo despertei.

— Isso é loucura. Se eu perder minha sorte não irei durar muito, logo a morte vai me encontrar e vai cobrar o atrasado.

— Quando nos conhecemos, eu participava de um coven, era como um clube do livro, mas por ser a mais nova eu era destinada a servir biscoitos. Nunca podia escolher o livro da vez. Então saí.

Heleno terminou o chá e agora olhava atentamente para ela. Observando seus traços, seus trejeitos. Talvez tudo pudesse ser diferente, mas sua cobiça foi mais alta, não acreditou que aquele relacionamento tão intenso quanto um trem descarrilado descendo uma ladeira rumo a uma ponte inacabada fosse levá-lo a algum lugar. Talvez levasse.

Ela continuava falando.

— Recentemente descobri que o coven está passando por problemas. Depois que aquela coisa chegou tudo ficou de cabeça para baixo. Ele é mau, se alimenta de nossa energia, faz uso de nossa empatia. Não podemos fazer nada enquanto ele não se for.

O que é essa coisa, afinal?

— Um gigante, vindo de terras distantes.

— Falo sério, garota.

— Eu também! Claro, ninguém o viu. Mas sabemos que ele chegou e está à procura de algo. Se você quer sua vida de antes precisa expulsar esse monstro daqui. Para então renascer.

— Não sei o que vim fazer aqui – Heleno suava, sua febre piorou –, você sempre faz isso.

— Sabe que não estou errada, e é a sua vida que está em risco, por isso você voltou. Pense no que te falei.

Ele estava quase desmaiando, minutos se passaram.

— Pensarei – falou, levantando-se com dificuldade –, tenho que ir agora.

— Por favor, fique! – Uiara falou, espantando-se.

Ele parou, apoiando-se na porta. A bruxa foi até ele e o abraçou, então notou que ele estava ardendo em febre. Com certo esforço ela o levou para a cama, ele tremia. Ao cobri-lo ele falou:

— Por favor, fique. Tenho frio.

— Meu querido, por que não veio antes? – Ela falou, deitando-se ao seu lado.

— Mãe… – Heleno sussurrou. – E Uiara notou que ele estava delirando.

***

— Sabe quantas vezes te liguei? – Marcelo perguntou.

— Dormi na casa dela. Acho que ela conseguirá tirar a morte do meu encalço.

— O que ela te propôs?

— Algo sobre derrotar um gigante estrangeiro.

— Ela deve estar falando de Balor, mas não sei como ela sabia dele.

— Fiod Balor? O finlandês peso pesado? – Heleno surpreendeu-se. – Por que não me falou dele?

— Ele está há dias no país. Quer lutar com um local. Você não está em condições. Então recusei.

Heleno saiu calado. Não foi difícil conseguir o contato do agente do gigante finlandês. Desafiar um lutador de uma categoria superior sem estar preparado é loucura. Mas Heleno estava obstinado. Era sua chance de se reerguer, por um ano sentiu o prazer da invulnerabilidade e estava disposto a lutar por isso. Aquela febre constante era o aviso que sua sina mudou.

***

— Ainda posso jogar a toalha, ok? – Marcelo sabia que Heleno não o perdoaria por isso, já estava no ringue, seu desafio iria começar.

O gongo soou. Fim do primeiro assalto.

— Ser o saco de pancadas dele não funcionou.

Mais três minutos se passaram. O gongo foi sua salvação.

— Você deve reagir. – Marcelo tentava ajudar desesperadamente.

— Minha costela…

— Não ganhará por pontos.

— Acho que trinquei minha costela. – Reclamou.

— Merda. Você precisa nocauteá-lo.

Último assalto. Como um berserker, Heleno avançou. Uma avalanche desenfreada de ataques. Num instante de vacilo, um direto no queixo o desestabilizou. A guarda abriu, o cérebro chacoalhou e seu rosto encontrou a lona.

***

(Você conseguiu. Meu querido.)

Heleno acordou. Os bipes denunciaram estar num hospital.

— Cara, você nasceu de novo. Todos sabem da sua luta! – Falou o jovem na cama ao lado. – Nós só estamos em observação, já nos liberam.

— Que dia é hoje?

— 21 de junho. Hoje cai feio, posso estar delirando, mas quando cheguei aqui podia jurar que vi uma velhinha deitada com você, quem era?

— Não sei…

Heleno suspirou. Por instantes pensou ter ouvido sons de cascos vindos do corredor, mas ao olhar só viu um jarro de tulipas deixado por sua amada. As flores estavam mais vivas que nunca.

O ciclo estava completo.

Anderson Rodrigues, 21 anos, nascido na Bahia e criado no entorno do DF. Licenciado em Educação Física, cursa o bacharelado na UnB. É um leitor assíduo e escritor por hobby. Fã de Asimov, Poe, Lovecraft e Douglas Adams, considera a literatura um laboratório. Como um bom cientista louco, vive a dar vida às mais variadas histórias a fim de que seus contos — suas criaturas — toquem e afetem seus leitores.

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Anderson Rodrigues

Anderson Rodrigues, 21 anos, nascido na Bahia e criado no entorno do DF. Licenciado em Educação Física, cursa o bacharelado na UnB. É um leitor assíduo e escritor por hobby. Fã de Asimov, Poe, Lovecraft e Douglas Adams, considera a literatura um laboratório. Como um bom cientista louco, vive a dar vida às mais variadas histórias a fim de que seus contos — suas criaturas — toquem e afetem seus leitores.