8ª Carta

8ª carta – 27 de outubro de 1969

Dona Dinda,

Seria maravilhoso se a carta de hoje soasse como uma ode: sonora, alegre, entusiástica. Planejei cada sustenido, cada bemol, a fim de alegrar a vida estranha que a senhora deve levar no hospício. Não nos enganemos, mãe. Não há música. Nem mesmo a mais sofrida e soturna das elegias. Só há silêncio e dor. E, por hora, é o bastante. É o tributo devido àqueles que morrem antes de nós.

Não, não existe nenhuma melodia. Tenho as mãos atadas aos pés e uma estopa suja socada na boca. Apenas minha mente vagueia livre, escreve cartas que jamais chegarão a quem são destinadas. Mas gosto de pensar na mãe lendo meus pensamentos, logo depois de tomar seus barbitúricos. Assim não me sinto tão sozinho neste inferno de homens verdes que, com seus coturnos reluzentes, esmagam meninos vermelhos.

Eu matei o Luquinha, mãe! Eu matei o Luquinha… Ele não queria pular o muro. Não queria levar meu plano malfadado adiante. Mas o convenci a simular uma crise de diabetes para que o levassem à enfermaria.

Quando a noite já estava alta e a maioria dos soldados laranjeiras dormia, deixei meu quartinho, saltei a janela do ambulatório e facilmente encontrei o leito do Lucas. Sentado na cama, de olhos perdidos e assustados, me esperava. Ele não queria me seguir, mas o venci pelo cansaço. Sempre muito fui persuasivo e nunca soube medir consequências.

Nos esgueiramos por detrás dos alojamentos até chegarmos à caixa d’água próximo da Avenida dos Expedicionários, onde cessamos por um instante o movimento de fuga. O Luquinha estava exausto e respirava com dificuldade. Mas eu não tinha tempo de aguardar por sua recuperação. Joguei seu braço por sobre meu ombro e corremos entre as mangueiras, até a guarita da qual falei em minha última carta. Como eu havia previsto, estava vazia. Subimos com alguma dificuldade as escadas e, uma vez dentro da guarita, o Lucas passou seu corpo pro lado de fora e pendurou-se em meus braços a fim de amortecer a queda.

Eu ainda o segurava quando ele foi atingido por um tiro de fuzil. Haviam nos descoberto. Talvez já me observassem há muitos dias. Ao sentir o projétil atravessar seu corpo, Luquinha me pediu com os olhos pra que eu o largasse. Ele queria morrer do lado de lá do muro, em liberdade. Então o soltei. É impossível me esquecer do som de seu corpo tombando contra a calçada de pedra tosca. Aquele deve ser o mesmo ruído que todo inocente faz ao cair morto.

Antes de ter o desprazer de conhecer o rosto do assassino de meu correligionário, fui imobilizado por uma forte pancada em minha nuca. Se eu pudesse escolher, teria escolhido um tiro.

Acordei nu e machucado, amarrado como um animal, nesta sala iluminada por uma lâmpada amarela fraca e vacilante. Há pouco, o sargento Galego passou por aqui e, fingindo distração, fumou um cigarro enquanto me contava uma de suas invertidas boas novas.

O corpo do Luquinha foi trazido pra dentro do quartel e fotografado ao lado do Paiol. Irão acusá-lo de tentar roubar munição e armamento militar. Assim, os jornais cearenses poderão noticiar a morte de um perigoso amotinado. Talvez o soldado responsável pelo disparo receba uma medalha das mãos do Prefeito José Walter. Vivemos em um mundo no qual assassinos são enaltecidos e vítimas acusadas de traição. Como não sentir vontade de morrer também, mãe?

Do outro lado da porta, alguém me diz que meu pai major nada poderá fazer quando o Professor chegar. “Amanhã vai ser a sua formatura, estudante”, repete insistentemente o homem sem rosto e satisfeito com a proximidade de meu fim.

Mãe, eu vou morrer. E eu mereço morrer, pois desperdicei a vida de um amigo com o propósito egoísta de recobrar a confiança de meus companheiros mais próximos.

Os cabos e soldados recebem de seus superiores orientação pra desestabilizar nossa confiança uns nos outros. Todos saberão de meu crime. Fizeram de mim um traidor fortuito.

Se não sumirem com meu corpo, caso a senhora seja liberada pra ir ao meu enterro, por favor, não me faça usar terno e gravata. Quero vestir a blusa pintada pela Babi com o desenho de um punho erguido e aquela calça de sarja medonha costurada pela mãe. Apesar de eu ter dito que jamais a usaria, ela ficará bem com meu Conga Esporte.

Por favor, não chore e nem atire flores sobre meu túmulo. Cante baixinho, até eu dormir, aquela canção da Elza:

“Perdão, meu bem

Tanto mal eu sei que lhe causei

Me perdoe, pois fui eu que errei

Em mudar nossos caminhos”

Não aguento mais estar acordado. Se acordado, tenho pesadelos terríveis, como o de agora.

Seja minha mãe, dona Dinda, e me faça dormir.

 De seu menino torto,

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.