Sobre reis e vermes

Criado pelos avós. O avô lhe dizia que a vida é como uma partida de xadrez especialmente difícil. É necessário escolher bem o time dos que lutarão nessa batalha ao seu lado. É preciso identificar as torres, os bispo; saber jogar com o cavalo.

– Você pode nunca ser um rei, mas guie-se pela ideia de estar sempre pronto para ser um.

Poucos homens seriam bons reis. Poucos bons reis se viu na história. Basicamente, por ser um papel tão desafiador e confuso. É necessário vocação, talento e disposição.

– Justiça e integridade. Leve-as como bússola.  

Que a integridade te oriente quanto ao certo social momentâneo e coletivo. Que sua lealdade e valores sejam sua bandeira de guerra. O certo que gere harmonia social dentre os que te veem como o rei, o líder, o que guiará os exércitos nesse tabuleiro traiçoeiro.

– O conhecimento e a busca dele te cairão como responsabilidade na percepção sincera de dever. Conhecer, aprender e ampliar é um dever social, seja-se rei ou plebe. Nunca atente contra a evolução perceptiva dos seus.

Um rei inspira. Um rei abre mão de individualidades. É necessário tornar-se menos humano e mais símbolo.

– Ser um bom rei é obrigação dos grandes homens.

A avó passava o dia na cozinha. Muitas receitas e quitutes. Mente e corpo como templos a serem cuidados. Temperar-se com a destreza, a sabedoria e o feeling de que se está fazendo um bom prato final. “O banquete dos vermes”. Que as mágoas e arrependimentos não te amarguem demais a carne. Que as decepções e rejeições não te azedem desde o tutano. Que a doçura excessiva não te torne enjoento demais.

Aqui mais uma preocupação das muitas que deve-se carregar: agradarei o paladar dos vermes que tão sem compaixão devorarão meu corpo? Todos esses sentimentos acumulados. Cada momento desse marinar de temperos que é a trajetória humana. O banquete dos vermes. Vermes não diferenciam reis, padres ou padeiros. Aos vermes não cabe julgar, apenas saborear. Mas quem, além deles, daria mais sincero feedback sobre o prato final?

– Prepare-se com o melhor dos anfitriões. Sirva-se por inteiro, sem vaidades. Apenas os vermes testemunharão.

O avô insistia em partidas diárias de xadrez. O neto nunca ganhava. O velho até presenteou-lhe com um livro de jogadas. Mas o velho conhecia todas as jogadas. Era necessário criar a própria estratégia. Derrota após derrota. Fracassos. É necessário estar preparado para as partidas decisivas. Um erro perceptivo e já era. Peças maliciosas esperando um vacilar dos olhos. Veja o tabuleiro inteiro! Todas as possibilidades, ou o máximo que conseguir.

A última partida com o avô. O velho já estava na bandeja. Os vermes sabiamente tranquilos por entenderem do inevitável. Os vermes nos contarão sobre o fim: os sonhos, os amores e tudo o que poderia ter sido. Partida acirrada. Peça a peça. Era a última chance de provar-se rei. Vaidades que os vermes entendem como irrelevantes. Todo o conhecimento já adquirido estocado num rodízio barato sob sete palmos de terra. A última ceia. O sagrado. O milagre do fim. À moda da casa. Especialidade do chef.

Perdeu. Também não se tornou o mais cuidadoso dos cozinheiros. Errou nas doses e medidas. Amou demais. Sentiu saudades que latejavam até no dedão do pé: a sensação de cozinhar-se por dentro. Odiou e lamentou:

– Põe batata palha pra melhorar o sabor!

Carioca diz que bota ketchup na pizza porque ketchup deixa tudo mais gostoso. Paulista diz que suas pizzas são tão saborosas que dispensam ketchup.

O mundo é uma marmita requentada. Mas os vermes não se importam.

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

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Thiago Noronha

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