A Profecia

O filho de Tay dorme, esperança de evitar danação,
O traiçoeiro será traído, matará sem intenção,
Irmão contra irmão marca o início das penas,
O chão treme e sacode, demônios surgem das fendas,
Uma cobra surge da mais pura terra, o mal ela intenta,
Num trono de lágrimas, sangue e ossos O Perdido, por fim, se senta.
– Profecia de Wulla.

O céu noturno está limpo e estrelado, o mar está intenso e revolto, mas ela já ouviu o mar demais, por isso ignora o seu som. Ouve agora o barco de pesca batendo nervosamente contra a água e contra o píer que está amarrado na vila que fica a alguns quilômetros de onde ela está. O som é tranquilizador de alguma forma. Observa o céu iluminado de estrelas enquanto ouve o barco de pesca. Faz ela imaginar que está navegando no céu, e não está sozinha, sabe disso.

A velha mulher está no topo de uma baixa encosta, tendo abaixo dela o mar revolto se chocando violentamente contra as pedras e vez ou outra borrifando sua pelugem com água salgada. Ela está lá sentada sobre os joelhos por horas a fio, observando o céu, as estrelas e outros reinos além daquele.

Wulla é uma vanara, uma raça antiga de homens-macacos. Vanaras são longevos, chegam aos 80 anos sem problemas, sua pelagem acinzentada ou castanha vai se embranquecendo à medida que envelhecem. Wulla nasceu com a pelagem prateada – sinal de que ela possui a benção de ver e ouvir os espíritos, e a maldição de poder ser vista e ouvida por eles. Wulla viveu entre os outros vanaras por muito tempo, até entender que a vida como xamã da comunidade não era suficiente para atender os espíritos, então resolveu se isolar. Viajou para a ilha de Osa, uma pequena e pedregosa ilha habitada apenas por uma pequena vila de pescadores que envelhece e diminui com o tempo que passa.

A chegada da anciã de olhos dourados foi há 50 anos, o que a faz imaginar ter pelo menos 100 anos, mas ela não se importa em contar, assim como não se importa em usar trapos simples, ter refeições modestas e viver em isolamento numa erma caverna localizada numa distante ilha no infinito mar. Tudo que importa é a vida que corre em suas veias, bombeada do mundo e que passa por todos os reinos. E que hoje ela salvou aquela parte do multiverso que sua carne habita.

Não faz muito tempo hospedou por uma semana um jovem elfo guerreiro chamado Silkami Sildafen. Belo, de olhos brilhantes e negros e cabelos prateados. Trajava uma ornamentada espada prateada e esmeraldina e um elegante quimono das mesmas cores adornado pelo desenho de uma única flor de crisântemo, símbolo da casa do filho do Sol e da Lua. Vindo da terra dos clãs e dos homens para saber como derrotar Takishi – a filha preferida de Tiamat e a mais velha dos dragões-demônio que estava trazendo devastação e morte no império com seus perversos irmãos.

Wulla foi avisada que ele viria, e foi avisada que ele, no final, derrotaria Takishi e que seus atos iriam pavimentar a paz de mil anos. Era papel dela mostrar como, mas apenas se ele provasse estar pronto.

Apesar da juventude e do honorífico cargo que conquistou, Sildafen era esperto, paciente e humilde. Ela o ensinou como derrotar Takishi e ele aprendeu e assim se foi pela manhã, selar o destino do império e trazer a paz de mil anos. Wulla estava satisfeita pelos resultados da semana. Nada disso seria possível sem o aviso que recebeu, e é por isso que, satisfeita, espera pela chegada do mensageiro.

Ah, lá está ele. Enquanto navegava nas estrelas, Wulla sentia sua presença, mas agora ele se fez visível no céu noturno. Uma fulgurante estrela risca o céu com força. Passa entre as estrelas, arrastando sua longa cauda de fogo. Sua passagem é lenta e constante, cada vez se aproximando mais. Wulla vê que os aldeões do outro lado da ilha também detectaram sua aproximação, alguns olharam para os céus nervosos, mas não conseguiram entender por quê, pois nada viram e voltaram a dormir. A velha vidente calcula que ele chegará pela madrugada, então resolve dar uma chance ao sono antes de encontrá-lo e recolhe-se em sua caverna onde um descanso tranquilo a espera.

Algumas horas depois, o interior de sua caverna brilha como se o sol houvesse chegado. Ela sabe que o céu ainda é escuro, pois é madrugada, mas sorri e se espreguiça e lentamente abre os olhos, fitando a fonte de toda aquela luz e calor.

Apenas sua cabeça é visível pela entrada da caverna. Seus olhos brancos como que feitos de pura luz, em um rosto de escamas douradas como o sol. O topo de sua cabeça draconiana é coroado por longos chifres ramificados, e sua mandíbula cheia de dentes perolados e afiados é adornada por bigodes de couro dourado. Possui quatro membros munidos de garras mas não tem asas em seu corpo dourado, longo , serpentino e grande demais para caber na caverna – grande demais para caber na ilha ou mesmo no mar inteiro, mas isso não importa, pois ele é Tay, o deus-dragão, e as regras deste reino não se aplicam a ele.

Wulla sente algo que ela raramente sente: surpresa. Ela se preparava para ir ao paraíso nas costas de Tay, como justa recompensa pelos seus feitos em vida, mas ela intui que este não é o momento. Ainda há algo a ser feito algo de grave importância.

O dragão-deus abre a boca revelando sua fileira de dentes e sua sibilante língua. Ele não precisa abri-la para falar, mas aprendeu este truque para sinalizar sua fala e não confundir os mortais. Sua voz rasga a caverna como o som do trovão. Após um período, é possível entender o que o celestial diz.

– Venerável Wulla, filha de Wasa seus feitos foram necessários, mas não trouxeram a paz. A paz não virá em sua vida, se vier. O futuro é incerto, mesmo para mim, pois estou aflito. Não se preocupe, terá sua ida ao Yomi, mas tem pouco tempo! Espalhe o que irei lhe mostrar, até que todos entendam a importância desta mensagem. Você não será lembrada nem venerada, e viverá no reino dos mortos esperando pela sua entrada no céu. Sem delongas, veja! Veja o que me aflige e espalhe a mensagem. Esta é a vontade de Tay, senhor dos céus!

Wulla não teve tempo para temer as implicações das palavras de Tay: sua mente é invadida por visões, visões mais realistas que a própria realidade, visões que enlouqueceriam qualquer mortal despreparado para tal experiência.

Ela vê uma terra. Coberta de montanhas e planícies, rios largos e poderosos apinhados de peixes e outras criaturas ribeirinhas, vê florestas virgens e pântanos sinistros, tudo isso cobrindo aquela imensidão rodeada por mares ricos e cheios de vida. No céu vê Tsukoyomi, o senhor da lua, em seu quimono escuro cor de prata olhando desejoso para Amaterasu, a senhora do sol que por sua vez contempla preocupada seus filhos. Ao seu lado está seu filho preferido – Teikami que na visão mora ao lado dela, longe de seus irmãos em seus suntuosos palácios e castelos abaixo do céu, servidos por cidades pacíficas e leais que pontuam aquela vasta terra. Logo Wulla entendeu que via a terra do império esmeraldino, também conhecida como Ryuu Tazai.

Um movimento estranho na terra e notou um homem que saia de um buraco, um homem com finos cabelos desgrenhados, usando uma máscara de um demônio de três olhos. Logo soube que era Oniyomi, o filho perdido de Amaterasu e Tsukoyomi. Ele tentava não chamar atenção, se esgueirando na mata como uma cobra. Tão natural era seu movimento, que uma serpente que estava lá não o viu. Mas, no céu, o filho de Tay já ia avisar a cobra, quando Onyomi o fitou e lhe disse: – Me deixe em paz! Você terá seu momento, mas sabe que não é esse! Meu irmão Tay lhe disse algo sobre mim? Pode dizer com certeza se esse não é MEU momento?

Vencido, o filho de Tay baixa a cabeça e responde: – Não e não. Você venceu desta vez, mas talvez meu momento chegue em um futuro perfeito. – Se retirando assim para ir dormir e esperar uma resposta de seu pai. Triunfante, Onyomi continua a se esgueirar em direção à cobra.

O animal estava ferido, mas alerta. Não é uma cobra qualquer e sim Sasori, o guardião sombrio do império. Sasori conhece bem aquelas terras, mas não esperava seu irmão perdido. Desprevenido, Sasori deixa Onyomi chegar perto o bastante para lhe beliscar com suas longas unhas envenenadas. A cobra enlouquece de dor e começa a pular e silvar alto, chamando atenção de todos. O chão começou a tremer, e todos achavam que era por conta dos saltos frenéticos da serpente.

A cobra invade o jardim da andorinha, de surpresa, que é forçada a voar para longe. O Cão Fu e o Dragão vêem o ataque da cobra e a atacam em represália, mas a cobra está frenética demais e continua lutando mesmo sendo ferida. A terra começa a se romper e a se fender. Das frestas, vários demônios do inferno escapam. Todos os filhos do Sol e da Lua começam a brigar entre si.

Ossos, lágrimas e sangue são despejados como resultado da luta. Da pilha do material, forma-se um trono. A terra explode em fogo, e demônios maiores saem das crateras resultantes.

A cobra morre sucumbe ao veneno de Onyomi, e um terrível dragão-demônio surge da mais pura terra do império, para sempre corrompida pelo miasma da criatura. O monstro voa alto, engolindo todos os filhos do Sol e da Lua e expelindo fogo pestilento no trono, endurecendo-o e dando o acabamento final.

Oniyomi senta no trono. A seus pés, ossos, sangue e lágrimas.

Wulla volta ao reino dos mortais sabendo que o filho de Tay espera sua mensagem no futuro. Ela teme que as visões e a aflição de um Deus tenham custado caro a sua razão. Mas não há tempo a perder, e tempo ela não tem mais.

Jornalista, professor, nerd, slow blogger e escritor nas horas vagas.

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Igor Lins

Jornalista, professor, nerd, slow blogger e escritor nas horas vagas.