Lula, luta e Luana

E Lula foi condenado.

Não me perguntem o que penso a respeito. Vivemos tempos estranhos. De minha parte, mesmo que fosse comprovado algo contra o ex-presidente (e vamos convir que até agora foram apresentadas, no máximo, convicções), nunca conseguiria vê-lo como um corrupto. Aposto que alguns leitores estão escandalizados, mas tenho cá os meus motivos. São apenas dois, aliás.

O primeiro: memória familiar.

Vivi a época em que o Partido dos Trabalhadores era o baluarte máximo da honestidade na política. Sabe o PSOL hoje? Não arranha o que era a imagem do PT pré-mensalão (lembram do mensalão?).  Para se ter ideia, Lula, quando deputado, chegou a afirmar que o Congresso abrigava trezentos picaretas que só votavam segundo seus próprios interesses. Ganhou até música dos Paralamas do Sucesso. Claro que a gente aplaudia. Lula não se dobrava!

Meu pai era petista radical nos anos oitenta. Integrava a luta com os companheiros, como se dizia. Petista naquela época era sinônimo de grevista, e grevista naquela época era quase sinônimo de arruaceiro, desses que quebram vidraças de loja e tomam cassetadas no lombo. Papai apanhou algumas vezes e, a cada porrada que levava, mais certo ficava de suas convicções.

Eu era criança nos tempos de FHC, mas entendia algumas coisas. Mamãe, funcionária pública, telefonista da Teleceará, acabou demitida quando a estatal foi privatizada, uma das muitas empresas púbicas ofertadas ao Deus Mercado durante o governo do sociólogo de Sorbonne. Não me venham com argumentos, a questão aqui é sentimental, admito logo de cara.

Dá pra imaginar o clima lá em casa quando chegaram as eleições de 2002, né? Os principais candidatos: Lula, José Serra, Ciro Gomes e Anthony Garotinho (que virou meme recentemente; na época era o dono do Rio de Janeiro). Ignorávamos Ciro, político feito e criado no Ceará, descendente dos Ferreira Gomes de Sobral; nossas certezas todas se voltavam a Lula, o homem do povo.

Eu tinha treze anos e caí de cabeça na campanha. Bem, caí de cabeça até onde meus treze anos permitiam, óbvio. Já era um protocomunistinha, tendo lido um pouquinho de Marx aqui, outro tanto acolá. Anos mais tarde, viraria um ferrenho trotskysta, mas isso não vem ao caso. Até então, o menino só queria ver Lula com a faixa de Presidente da República.

E aqui entra o segundo motivo para meu coração não aceitar a figura de um Lula corrupto: amor.

Não era amor por Lula. Minha paixão era uma garota, ainda que com nome perigosamente próximo: Luana. Morena, cabelos encaracolados, mesma idade que eu, havia se mudado alguns meses antes para uma casa quase vizinha a minha, na mesma Rua Eça de Queiroz onde atravessei a infância. Era eu ver a figura esguia de Luana no alto da ladeira e já me derretia todo.

Conversamos algumas vezes, aquela conversa truncada de adolescentes, esbarrando quase sem querer nas calçadas, um se fingindo mais desinteressado que o outro. No íntimo, porém, sentíamos os dois aquela fagulha prestes a se tornar incêndio. Questão de tempo.

Ocorre que, por algum bizarro alinhamento planetário, Luana não suportava Lula e o PT. Fiquei conhecendo essa sua aversão em uma conversa banal na fila da mercearia: ela se irritou com um adesivo petista pregado na balança do caixa. Quase deu escândalo. Curioso, resolvi investigar aquela raiva injustificada.

Pois era injustificada mesmo! Nem dava para dizer que era geracional, os pais dela praticamente decididos a votar em Lula. A menina é que não podia nem ver uma estrela vermelha e já se indignava. Pra ela, Lula na presidência era mais errado que peidar na frente da avó.

Eu estava numa sinuca de bico. Tinha meus ideais, tinha meus motivos, mas, caso admitisse as posições políticas, podia dar adeus a qualquer chance com Luana. Fiz o que era certo na minha imberbe cabeça: na frente de Luana, era um ferrenho anti-petista; longe dela, Lula-lá-brilha-uma-estrela.

Ninguém nunca desejou tanto que uma campanha presidencial acabasse.

Resisti incólume ao primeiro turno. Luana nem desconfiava. Encontrávamo-nos cada vez mais, sobretudo agora que ela podia destilar seu ódio com mais alguém. Eu sequer prestava atenção no que ela dizia, encantado que estava. A cada encontro, um centímetro a menos de distância, de modo que em não mais que uma semana, invariavelmente, nossas bocas estariam coladas uma à outra. Era uma certeza científica, até.

Calhou de ser a semana que antecedia o segundo turno. Fui tentando me esconder de todo jeito, desconversando quando alguém me perguntava se Lula ou Serra, fazendo cara de paisagem quando Luana descia o malho no grevista do ABC.

Até que chegou o esperado domingo da votação. Luana me dissera que os pais votavam numa cidade do interior, Horizonte, se não falha a memória. Estaria ausente durante o fim de semana. Era a senha para eu me vestir de vermelho dos pés à cabeça.

Chegou o domingo e papai estava a mil, mais animado que beata em dia de procissão. Acordou cedo como nunca, preparou o café, arrumou sei lá onde um bandeirão do PT que devia medir uns três metros e me chamou para vagarmos bairro afora “educando o povo”. Lógico que fui.

Passamos o dia pra cima e pra baixo gritando palavras de ordem, discutindo com os eleitores de Serra e tentando sem sucesso balançar o diabo da bandeira. Cinco horas da tarde e nem eu nem papai conseguíamos falar de tão roucos. Roucos mas orgulhosos.

Eu voltava da operação de guerra quando a vi sentada em frente ao portão da minha casa, esperando com a cabeça apoiada sobre as mãos, uma certa expressão de derrota no beicinho. Quase congelei de espanto; ainda corri para me esconder atrás da bandeira, mas os olhos arregalados de Luana já me tinham flagrado. Eu, mais petista que presidente de sindicato.

Ela se ergueu de um pulo e saiu em disparada. Tentei chamá-la, a voz me faltou. Paguei o preço de tanto gritar “fora FHC” e “fora FMI” ao longo do dia. Os pais dela haviam justificado o voto, fui saber depois, sequer viajaram. Era o cúmulo do azar!

Não tive condições psicológicas de comemorar a vitória petista naquela noite.

Lula finalmente eleito, e Luana sem falar comigo. Passou uns bons meses sem nem sequer olhar pra mim, até que as certezas da idade foram se enfraquecendo e ela voltou ao menos a me cumprimentar na mercearia. Era tarde: já estava de namorico com o Pedrinho do Apartamento (figura que ainda pretendo explorar em outros textos). Perdi a vez.

Hoje, reconhecer que Lula seria apenas mais um político corrupto nesse mar de safadezas é não apenas aceitar a falência das esperanças de meus pais mas reconhecer que troquei minha jovem paixão por uma cilada. Meu cérebro bloqueia, entendem? Por isso, creio eu, poderiam me apresentar uma foto de Lula vestido de Irmão Metralha com um saco de dinheiro do Tio Patinhas nas costas e, mesmo assim, eu coçaria o queixo com ar de incredulidade. Lembrem-se do que afirmei lá no começo: a questão aqui é sentimental.

Como? Que fim teve Luana? Sim, acabamos nos distanciando, sobretudo depois que Pedrinho terminou com ela. Sua família voltou pra Horizonte, até onde sei. A última notícia que tive dela, segundo uma antiga amiga em comum, dava conta que ela tinha virado concurseira.

Não sei se ela já passou em alguma coisa. Sabem como é: restaram poucos concursos públicos por aí.


Confira os outros textos da coluna clicando aqui.

 

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

LEIA TAMBÉM:

Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Michel Euclides

    Que texto, meu amigo. Que texto.

  • Juliana

    Adorei o texto. Conciso , Pode-se perceber o desenrolar de uma história talvez real ,mas com questionamentos oportunos ao momento.Parabéns companheiro de luta. Lu

  • Sara dos Anjos

    Demoro para comentar, mas não falho! Amei o texto, amei seu pai e você com treze anos! Aqui deste lado você tem alguém que jamais acreditou numa só linha das tais convicções, mas te conto um segredo: teria feito a mesma coisa aos treze anos! O amor de treze anos exacerba, invade, põe por terra até mesmo as mais fortes convicções! Adorei!

  • Elisabeth Lorena Alves

    Ri muito. Vivenciei uma situação parecida na época… Dois alunos meus, do EJA, eram apaixonados, mas tinham posição política diferente. Tive que segurar muito ovo quente, escondendo bandeira e camisetas vermelhas…
    Diferente do narrador,com namoro estranho acabou em casamento, mas os ideais políticos de ambos foi pelo ralo ainda no primeiro mandato…
    O amor continua, acompanho pelo Facebook.
    Abraços, sem cores e sem ideologias.