No meio do caos com uma flor na boca

por todos os lados há câmeras piscando, frágeis.
coração de pedra. prédios.
razão, olhares de vidro
enquadrando teu sexo
mordendo tua boca.
dentro do ônibus
passagem.
nos trens,
no muro da tua casa.
paisagem
dentro da palavra louca.
(uma vez me apaixonei! que importa?)
não se olham mais as estrelas,
com os mesmos olhos,
a lua cheia,
há muito o universo foi medido.
esquadrinhado.
teu corpo, nada. poeira.
uma partícula de carbono na beira do abismo.

(meu Deus! que Deus? é só um modo de dizer).

“aqui se faz, aqui se paga!”,
ouvi. faz tempo.
foi ontem,
quando brincava com carros de lata. agora, é já antigamente.
a rua anda cheia dos filhos de Adão,
como víboras se roendo.
cadê a gente?

(cheguem, cheguem! tudo pela metade do preço!)

eu vejo ali, um pássaro voando sem asas, um pardal
num campo sem azul.

(atenção! um mendigo morreu de frio, um poeta de fome na rua, uma mulher, onze negros na favela;
a travesti agonizou, com mil pedradas na cabeça…)

não suporto ver TV.

Deus salve a fome dos homens,
no século XXI!

Escritor, poeta e estudante de filosofia. Autor de “Máquina de Inventar Instantes” (Ed Premius, 2015), seu livro de estreia, também escreve para o blog “A Fábrica do Efêmero”.

LEIA TAMBÉM:

Cícero Almeida

Escritor, poeta e estudante de filosofia. Autor de “Máquina de Inventar Instantes” (Ed Premius, 2015), seu livro de estreia, também escreve para o blog “A Fábrica do Efêmero”.

  • Mile Cantuária

    Excelente!