Das virtudes do fracasso

Eu não queria ser escritor, mas aconteceu. Gostar de desenhar me levou aos quadrinhos, e a complexidade que a criação de um HQ exige (sempre vou defender que as artes mais difíceis de articular são os quadrinhos e o cinema), me levou a procurar algo que eu pudesse criar com mais liberdade e menos planejamento: assim que decidi me aventurar pelo mundo da literatura. Escrever, desenhar e finalizar uma história em quadrinhos sobre tudo que eu tinha na cabeça seria incrivelmente mais custoso do que resumir esse tudo em palavras, parágrafos e pontos.  

Hoje penso no erro tático que foi entrar nas letras por conveniência. Não me levem a mal, eu amo um bom livro, mas palavras simplesmente não despertam em mim a mesma paixão que imagens. Eventualmente aprendi a amar a escrita, mas ela sempre representará para mim uma ausência.

Enfim, aos 18 anos, eu queria criar um mundo. Admirava Bosch, Tolkien, Frazetta, Howard e Moebius por seus esforços, e queria fazer algo como eles. Ao mesmo tempo, tinha um amor muito grande pela história do nosso continente, pelas culturas pré-Colombianas, pela herança cultural e linguística dos indígenas e pelos mitos entranhados no imaginário brasileiro.

Uni meus dois amores. Criei um mundo uma versão mítica da América antiga, um universo que mesclava olmecas, maias, teotihuacanos, incas, moches, anasazi. Incorporei sacis e curupiras à minha maneira. Me matei de estudar por cerca de dez anos. Busquei criar algo com um clima distinto. Desde a faculdade eu amava também Fellini, Buñuel e Gabriel Axel. Fosse o que fosse, o produto da minha escrita precisava ser sensível. Tinha que ser visual e atmosférico. A história não me importava. Estava escrevendo como um desenhista.

Publiquei um romance. Escrevi uma penca de contos. Fiz amigos no meio. Recebi elogios e olhares curiosos por um escrever alta fantasia sem elfos ou dragões.

Então vieram as críticas. Uma escrita muito lenta. Sem conflito. Muito estilo. Muita descrição. Muita ambientação. Muito telling, pouco showing. Se eu já não gostava de manuais de escrita, passei a gostar ainda menos. A razão era evidente. Eu estava escrevendo como um desenhista, afinal de contas. Estava escrevendo como alguém que manda às favas a ideia de narrativa que todo mundo ama.

O que me atingiu foi que as críticas vieram de gente inteligente, que, em princípio deveria compreender que propostas diferentes pedem abordagens diferentes. Se não conseguiam apreciar o meu trabalho, claramente era porque a minha proposta não era clara. Desagradar um público amplo é uma coisa; não se fazer entender por críticos, gente que vive e respira uma arte, isso é a morte.

Me recolhi. Não consegui mais escrever uma palavra sobre meu mundo. Elas simplesmente não saem. Até mesmo ler trabalhos semelhantes me traz uma dor profunda que não consigo explicar. Me afastei completamente de qualquer tipo de ficção que envolva temas indígenas, por exemplo. Lê-los só me lembra do fracasso.

A borda dourada no lenço roto: fracassar me fez ver tudo com clareza. Me fez ver meus equívocos. Hoje sou capaz de traçar minha trajetória de volta ao começo e ver o que fiz de errado. Agora me planejo para fazer arte diferente, desenhos e palavras, sobre outros temas, com outros elementos, e gosto verdadeiramente do que faço.

Penso que é importante refletir sobre as virtudes de fracassar, sobre a importância de ver o que há de errado e o que pode ser repensado. Ninguém produz uma Mona Lisa na primeira tentativa, e eu estou apenas começando.

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

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Vilson Gonçalves

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

  • Sara dos Anjos

    Adorei seu texto e me deu muita tristeza pelos obstáculos que você encontrou pelo caminho. Sempre acabo me perguntando o quanto de preferências e gostos pessoais está investido naqueles que nominamos (e até respeitamos) críticos literários. Seria possível uma completa isenção de crítica sem interferências pessoais? Muitos dos escritores tiveram seu caminho inicial barrado pela crítica, mas continuaram com seu estilo apesar das opiniões “abalizadas” dela e hoje são idolatrados mundo afora. Stephen King, Vladimir Nabokov, Agatha Christie são apenas alguns dos exemplos. J.K. Rowling (cuja imaginação é fascinante) também. Ou isto não é literatura para a crítica? Você poderia ter insistido, Vilson, apesar da dor… quem sabe?

    • Vilson Gonçalves

      É complexo, Sara. A verdade é que criar algo é em si extremamente cansativo, e criar com vento batendo na cara foi mais do que eu era capaz de aguentar.

  • Thiago Noronha

    Gostei tanto 🙂