Finita felicidade

Vejo o céu de chuva se formando. As roupas estão no varal. Deixarei para tirá-las, como sempre, e não sei ao certo o porquê disso, apenas no minuto final. Quando o cheiro de mormaço já estiver entrando pela janela. Quando os pingos cantarem sua melodia de homenagem ao solo. O beijo da vida; facilmente confundível com o som de um banho se iniciando no chuveiro.

Talvez eu goste da adrenalina do correr para evitar que o trabalho da máquina de lavar seja em vão. Talvez eu goste da sensação daqueles pingos de chuva não planejados enquanto recolho as roupas com cheiro de amaciante. Parece procrastinação, mas não é: é poético.

O ideal é deixar o feijão de molho desde o dia anterior. Mas a humanidade já não aguenta rituais de longa duração. Inventa-se a panela de pressão, e o avião, e a comunicação instantânea. Embora eu goste do assoviar da panela de pressão e do estiloso uniforme das tripulações, sinto falta das cartas de amor que padeceram diante dos áudios do whatsapp.

Saboreio a ansiedade de botar a panela de pressão no fogo. Metáfora do mistério. Um teste cruel aos ‘Tomesistas’. Entregar-se tão cegamente aos ponteiros do relógio. O tempo e suas medidas são confiáveis? Tira-se a pressão. Abrir a tampa como quem corta o primeiro pedaço do bolo e testemunha o interior, o desconhecido. Um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade. Ficou cru por dentro; culpe possíveis defeitos na regulagem do forno.

Chamada para as manifestações políticas. Eu nunca vou. Sou apenas mais um hipócrita de esquerda. Culpo o cansaço desesperançoso que abate os justos. É que o Brasil dá muita vontade de desistir. Terceiriza-se (#nãopassarão) a responsabilidade de ‘dar um jeito’ a um super-herói poderoso que nunca chega. A tão almejada mágica que a humanidade nunca achou a ponto de satisfazer-se.

Quando pequeno, achava que a panela de pressão era um objeto mágico em que você botava umas coisas dentro e saia comida. Panelas de pressão têm realmente um jeitão de coisa sobrenatural.

Amanhã eu vou voltar a malhar. Malhar para atender vaidades quanto a expectativas de relacionamentos futuros que talvez nunca aconteçam. Almejar amores de plena satisfação. Amores mágicos. Coisa de contos de fadas. Terceiriza-se a noção de realidade em prol de esperar por essa felicidade que torne política algo irrelevante. É necessário uma pitada de egoísmo para se ser feliz. Três gotas de negação. Empatia com cuidado. É uma receita cruel, ninguém disse que seria fácil.

Nunca volto a malhar. Parece preguiça disfarçada de discurso de não ligar para padrões sociais de beleza empurrados pelas novelas da Globo. Mas tão bonita a bunda durinha. Viver é nunca estar plenamente satisfeito.

Vou aprender a investir na bolsa. “Você não era comunista?”. Ter dinheiro para não precisar se preocupar se o feijão vai sair cozido da panela. Comer bem sem precisar do talento na cozinha. Restaurantes, celulares potentes que facilitam o cotidiano, assinatura da Netflix, dormir no ar condicionado durante o verão. Parece mágica! Parece a tal da realização. O consumismo como solução para o cansaço dos que esperavam mais. Coisa de conto de fadas. Mas o final feliz só chega para os moradores do castelo. O príncipe, a princesa e a ilusão. A felicidade que nunca chega. O avião com destino a felicidade não existe. Nenhuma mágica culinária te entregará de bandeja a satisfação eterna (exceto um estoque inesgotável de sorvete Jen e Berry talvez). Malditos capitalistas sedutores. Ninguém será sua felicidade, não importa a firmeza dos glúteos ou o tamanho dos bíceps. A felicidade tem a ver com um pesado e rígido treino interior. A geração do whey e dos entorpecentes. Solidão e consolos. Felicidade é ter feijão na mesa.

Sou feliz esperando a chuva cair. Tirar as roupas do varal parece um proposito. A simples realização da execução. Os que comem em restaurantes perdem o feliz ritual de cozinhar e o ato terapêutico e reflexivo de lavar os pratos. Lavar panela de pressão é foda! Cortar uma cebola, descobrir o ponto ideal de uma fraldinha, bater tomate com hortelã no liquidificador.  Os que dormem no ar condicionado desconhecem a canção de ninar dos ventiladores de teto. A tecnologia evitando ruídos. Quem disse que o silêncio noturno é agradável?

Acabou que o sol apareceu no céu, quem sabe uma praia me anima o dia. Mágicas praias cariocas. Belos e vaidosos corpos cariocas. Um mate gelado e uma esfirra de calabresa.

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

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Thiago Noronha

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

  • Sara dos Anjos

    Me reconheci bastante neste texto, Thiago!! Gostei de ler!