Tão pouco e tanto

Os caminhos não são muitos. Pelo menos os que consigo enxergar, quando estou encurralada no meu cotidiano e não vislumbro mais do que aqueles que me levam à segurança de minha casa. Vou de um ponto a outro, cruzando com íntimos e desconhecidos e penso que o mundo já não me esconde segredos, mas o que encontro é apenas um espelho de minha própria vida. Surpreende-me, às vezes, outros rostos e outros passos, outras esquinas e praças. Vejo o horizonte, mas o limito a uma paisagem pendurada na parede da minha sala. Sou uma interrogação.

Sou um grão de areia. O oceano me mete medo, a imensidão me faz tremer. Insignificante, escondo-me debaixo das pedras e faço de tudo para não me notarem ali. Penso que me faltará o chão e uma ira gigantesca engolirá minha vontade. Pequena, sou apenas uma e acredito que os meus lamentos não fazem diferença. Surpreende-me, às vezes, que o que digo se propaga em ecos e levo um susto de minha própria voz. Sou uma dúvida.

Tudo é muito simples. Nascer, crescer, morrer. E nos intervalos mudar, transformar, revirar, reviver. Renasço a cada dia e morro um pouco a todo instante. Sonho. Sinto meu corpo desabando e meu coração erguendo-se às alturas. Compreendo e amo. Tenho dúvidas e sofro. Minha alma, apaziguada, contempla em silêncio a passagem do tempo. Revolto-me, grito e torno a ficar em paz. Encho-me de expectativas. Os obstáculos me frustram. Procuro-me. Procuro. Esgotam-me as forças e volto a lutar, esperançosamente. Surpreende-me, às vezes, um não-saber absoluto ou a descoberta do grande mistério. Sou uma incerteza.

Sou criança. Energia inesgotável, tudo à frente, tudo bem. Brinco e rio, relaxo e aproveito. Brilho. Imatura, boto os pés pelas mãos e não espero o suficiente, anseio. Distraída, não percebo o perigo. Antenada, sinto o que não é pronunciado. Levo ao pé da letra. Sou feliz. Esqueço. Surpreende-me, às vezes, o egoísmo, o meu e o dos outros. Sou uma incógnita.

O tempo nada mais é do que uma fileira de postes iguais que vejo como se estivesse na janela de um trem que se move. Se paro, param todos os movimentos, inclusive os dos relógios. Um passo a mais e caio no abismo. Um passo adiante e surge um novo começo. Ontem foi pior. Hoje é tudo novo. Daqui a um segundo, o futuro me baterá à porta. Se for igual, melhor, pois o que já conheço não me apavora. O que desconheço, porém, me atrai e me enche de expectativas. Escolho minhas memórias e planto meu próprio destino. Às vezes, o que digo, penso e sei já não me serve mais, quando mais preciso. Envelheço. Surpreende-me, às vezes, a confusão e a loucura. Sou um desatino.

Ando para frente. Paro para olhar para trás, mas não muito. Não me aquieto no aqui e agora. Tudo passa de roldão, me inquieto. Corro. Não alcanço, canso. Sento para esperar. Vou atrás, pendurada na porta do trem, quase caindo, seguro-me num tênue fio de esperança. Danço. Sapateio enfurecida, vôo. Surpreende-me, às vezes, estar no mesmo barco. Sou uma clandestina.

Sendo assim, tão pouco e tanto, surpreende-me, às vezes, ser justamente quem sou: eu mesma.

Escritora por vocação, analista de sistemas por profissão, romântica de coração, crítica até no dedão, engraçada em qualquer situação, cabeça minada de preocupação, pés no chão, digna de respeito e consideração, honesta de plantão, quase um animal em extinção e nunca fez lipoaspiração.

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Sara dos Anjos

Escritora por vocação, analista de sistemas por profissão, romântica de coração, crítica até no dedão, engraçada em qualquer situação, cabeça minada de preocupação, pés no chão, digna de respeito e consideração, honesta de plantão, quase um animal em extinção e nunca fez lipoaspiração.