Sabedoria, felicidade e Michel

Já faz algum tempo, escrevi um post no Facebook que me rendeu algumas curtidas e muitas elucubrações. O quase-microconto, batizado “O Rapaz”, dizia o seguinte: “Vivia para três coisas: forró, whisky e mulher. Era tão vazio, mas tão vazio, que seus amigos o chamavam estourado”.

“Estourado”, em bom cearês, é gíria para o indivíduo que só vive de farrear. Via de regra, dirige um SUV, de preferência equipado com um paredão de som, os lugares reservados a seu pequeno harém. É aquele personagem típico das músicas do Wesley Safadão ou de qualquer forró/sertanejo universitário.

Óbvio que meu post tinha lá a sua cota de preconceito, mas atire o primeiro livro de Goethe quem não acha que essa alegria destrambelhada cantada nas rádios está ligada a certo vazio, se não existencial, ao menos cerebral. Vou ser franco com vocês: por mais que eu me censure, no íntimo, tendo a achar que a associação é mesmo com a burrice. Ou ainda: a felicidade, como nos é vendida hoje, é privilégio de estúpidos.

Vocês bem sabem que o mundo tem gente burra a valer. Vão à rua perguntar quem é a favor de uma nova Ditadura Militar no país e terão uma ideia do buraco em que estamos. A questão é que, na média, esse bando de idiotas tende a ser mais feliz. O motivo é um mistério.

Na outra ponta, pessoas notadamente geniais quase sempre são melancólicas. Seus sorrisos, quando sorriem, vêm carregados de estranhamento, como se arriscassem passadas em terreno perigoso. No país da alegria irresponsável, são eternos forasteiros.

Não sei de onde vem essa minha teoria. Talvez a culpa seja de mamãe, que me deixou ler Fernando Pessoa novo demais (tão inteligente e tão triste, aquele português…). Qualquer que seja a causa, é uma ideia que tem encontrado diversas comprovações empíricas ao longo dos anos. Michel Euclides é um exemplo.

Michel, meu amigo, colunista deste Escambau, é das pessoas mais inteligentes que já conheci, daquelas inteligências que não carecem de grita, basta-se em si mesma, no silêncio reflexivo ou nas colocações ponderadas. E Michel, reconheça ele ou não, é um homem a quem a felicidade não é permitida. Motivos para ser feliz não o faltam, com a bela família que tem, e sei que Michel se realiza com eles, assim como escrevendo. Porém, seus olhos não mentem, arrisco afirmar.

Há um ano atrás, mais ou menos, reunimos alguns escambanautas de Fortaleza para a realização de acampamento na serra (o primeiro – e até agora único – Escambamento). À noite, estávamos reunidos em volta de uma fogueira que não deu certo, todos gargalhando de alguma troça, quando minha atenção se voltou a Michel. Lá estava ele, rindo como os outros, os lábios esticados, os dentes à mostra, mas os olhos… Ah, os olhos de Michel são inteligentes demais para sorrirem. Estavam lá, carregados de angústia ou nostalgia, como se guardassem um conhecimento que a nós é negado. O que sabiam aqueles olhos? A rota de um cometa que se aproximava? A inefabilidade da vida?

Sei que é um raciocínio romântico e algo presunçoso, sobretudo por eu ser também um infeliz. É bom que se diga, no entanto, nem todo infeliz é inteligente, eu como exemplo. E há felicidades, no plural. Estou tratando aqui de uma delas, segundo o entendimento mais popular. Em outros textos, pretendo me aprofundar mais (sempre com a mesma irresponsabilidade e falta de conhecimento do assunto, claro).

Postas as considerações, ao fim e ao cabo, o que fica além do meu post preconceituoso e de minhas rasas certezas: os olhos dos sábios guardam sempre alguma tragédia.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

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  • Michel Euclides

    Sem palavras aqui. Porra, que texto!