Saudade, café e cigarro

O sol se punha com a beleza que só a atmosfera poluída das grandes cidades pode oferecer. Sabino estava sentado sobre a laje, observando a arquitetura harmoniosa e cansada, ele próprio descrente de tudo o que tinha dentro e fora de si.

– Quer dizer então que meu neto resolveu se casar.

Seu avô tinha o sotaque carregado do interior do Ceará, mas falava com muita correção. Sempre admirara aquilo no velho.

– Sim, vô.

– Com quantos anos você está agora, Sabino?

– Vinte e seis.

– É, eu casei com dezessete. Pelo meu padrão, já está quase passado.

Sabino riu. O velho calvo tinha um humor seco e direto, disfarçado pela carranca escura e mapeada de rugas. Se fosse inglês, seria um lorde.

– Nem tanto, nem tão pouco, vô.

O velho sorriu, os dentes perfeitos e brancos.

– Como ela é, meu filho?

– Linda. Inteligente. Ativa. Independente.

– Vai te dar trabalho – disse o velho.

– Os tempos são outros, vô. As ideias são outras. As pessoas mudaram.

– Ainda bem que os velhos morrem, não é?

Eles riram.

– Ela me lembra a vó, de certa forma. O fogo nos olhos, sabe? Aquele negócio imperioso, de querer tomar a frente de tudo… e ela também tem esse lance de família unida, quase todo fim de semana o pessoal dela se reúne, estão o tempo inteiro se ligando…

– Parece coisa de família italiana.

– Tipo isso, vô.

O velho olhou para ele, os olhos verdes e profundos que sempre o encantaram.

– Você está feliz, meu neto? Eu gostaria de vê-lo feliz. Sempre foi meu preferido, e eu amei sua mãe demais por ter colocado meu nome em você.

– Estou tão feliz quanto se pode ser, vô. E eu carrego seu nome com muito orgulho.

O velho sorriu mais uma vez, os olhos brilhando.

– Bom – disse ele se levantando, a cabeça lisa brilhando com a última luz do dia. – Então acho que posso ir, não é? Cuide de sua avó, ela ainda passa um bom tempo por aqui. E cuide de sua mãe, também.

– Cuidarei.

Sabino ficou de pé e abraçou o avô. Cheiro de café e cigarro, e sabonete Senador.

– Seja feliz, Sabino.

– Vou tentar, velho teimoso. A gente se vê.

O avô se afastou e segurou-o pelos ombros.

– Espero que não seja logo – disse, e beijou a testa do neto. Em seguida, entrou na rua ao lado da laje e seguiu adiante.

Sabino tirou um cigarro da carteira que trazia no bolso e acendeu-o com o isqueiro que fora do avô. Não demorou muito, ouviu passos se aproximando.

– Ah, aí está você! – disse Lívia, sua noiva. Usava um vestido preto que lhe destacava a pele clara. – Estão todos te esperando, Sabino! O que você está fazendo?

– Estava me despedindo do velho – disse ele, soprando a fumaça para cima. – Um ano, já, mas parece que foi ontem a última vez que o vi.

Ela o abraçou. Tinha o cheiro perfeito de uma manhã de domingo.

– Eu queria ter conhecido ele – ela disse, a voz abafada no pescoço dele.

– Ele teria gostado de você. Bem – disse ele, jogando a bituca no chão -, vamos lá.

Ele se levantou da tampa de cimento e contemplou a foto do avô no túmulo. Como o tempo passa rápido, velho. Como apaga, veloz, as pontas e os contornos das lembranças.

Apertou a mão de Lívia e, juntos, seguiram para a capela por entre os túmulos antigos do São João Batista.

Na brisa da noite recém-aberta, o cheiro antigo de saudade, café e cigarro.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Thiago Noronha

    ” – Ainda bem que os velhos morrem, não é?” <3

    • Michel Euclides

      O novo sempre vem…

  • Sara dos Anjos

    – Linda. Inteligente. Ativa. Independente.
    – Vai te dar trabalho
    haha! Lindo texto, emocionante…

    • Michel Euclides

      Obrigado!

  • Catia Guimarães

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