O Velho e os Olhos (A Última Noite – Parte II)

Continuando minha novela de fantasia urbana! 

Confira a Parte 1 – A Essência

Confira a parte 3 – Caça e caçador

Confira a parte 4 – O início e o fim

Confira a parte 5 – O escolhido


Fortaleza, arredores do Estádio Castelão

            Nunca vou perdoar Rafael se a profecia se cumprir. Por que ele faria aquilo? Ele sabia as consequências, e ainda sim optou por nos salvar. Tiago está furioso! Ele acredita que o Velho está envolvido nisso, então estamos indo ao seu escritório em busca de respostas.

– Caralho, o Rafael mandou a gente para muito longe! Nem sabia que ele era capaz de fazer magias de transporte. – disse Tiago, inconformado.

– Da praia de Iracema para o Castelão é uma distância considerável. Deve ter sido algum poder adquirido pela essência. E por que não vir junto? – questionei, mais para mim mesma do que a Tiago.

Assim como eu, ele não fazia ideia. Fomos transportados para um terreno baldio próximo ao estádio Castelão. Agora caminhávamos rumo à avenida principal em busca de um táxi.

Andamos por alguns minutos por ruas enlameadas e escuras, iluminados apenas pela luz da lua. Estávamos num bairro pobre da cidade. Apesar de bandidos comuns não serem ameaça, sempre há a possibilidade de criaturas escusas estarem escondidas nessas áreas.

– Espere, Maria! – sussurrou Tiago, alarmado. – Tem alguma coisa por aqui.

Faltavam alguns metros para a esquina. Aquela área era desabitada, mas havia várias habitações em início de construção – condomínios feitos pelo governo para pessoas mais pobres -, o que fazia daquele lugar um antro de drogados e marginais.

– O que é, Tiago?

Ele fez uma prece silenciosa, invocando as palavras. Sempre fui fascinada pela Magia em seus olhos. Eles agora ganhavam um brilho amarelo intenso, característico de quando ele buscava ver através das coisas. A pele bronzeada tinha alguns arranhões do encontro com os diabretes.

De repente o brilho nos olhos dele sumiu, as pequenas partículas de energia deslizando em direção ao fim da rua. Sua pele empalideceu.

– Fuja, Maria! É um Vazio! – gritou ele.

– Como assim um Vazio!? – perguntei, vendo Tiago empunhar a espada.

– Ladrões de mana! Ele deve ter sido atraído pela explosão do teleporte. Isso é demais para nós! Mesmo de longe ele sugou a magia dos meus olhos!

Agora eu podia ver a forma escura virando a esquina. Se não soubesse que estava ali era capaz de passar despercebido: era uma sombra larga com a forma de um desenho infantil de fantasma. Não tinha pernas e flutuava a um metro do chão. A única coisa que cortava o negrume eram seus olhos, duas órbitas brancas e vazias, como pequenos redemoinhos.

Saquei minha arma e concentrei minha magia nela, um disparo plasmático bem na cabeça. A pequena bola de energia parou a alguns centímetros da criatura, se dissipou sendo sugada pelos seus olhos.

– Você é burra? Ele não pode ser tocado por magias simples! Agora ele ficou mais forte! Um com esse porte deve ter se alimentando aqui por algum tempo, predando humanos e pequenas criaturas mágicas. Vamos fugir!

– Eu estou cansada de fugir essa noite.

– Você está louca, ele vai nos matar!

A criatura deslizava devagar em nossa direção, um agouro materializado. Quantas vidas deve ter tomado, sugando até a alma de pessoas que não possuem magia!

– Vamos ver você absorver isso – eu disse. Olhei para minha arma, um receptáculo por onde eu canalizava minha essência mágica, que se materializava como balas de energia. Esse tipo de artefato é selado para que ele não absorva energia demais do usuário, sem hesitar, eu rompi este selo.

– Não faz isso Maria! – disse Tiago. — É muito perigoso!

Meu corpo inteiro tremia. Eu sentia o calor percorrendo, fluindo para minhas mãos, um brilho intenso crescendo na arma, o roxo usual trocado por vermelho. Tiago gritava do meu lado, mas eu já não conseguia ouvir suas palavras.

Olhei nos olhos da criatura que ainda flutuava na minha direção, confiante de que minha magia nada faria. Bolhas começavam a se formar na minha mão. A arma queimava como brasa. O brilho era tão poderoso que feria os olhos. Mirei o melhor que eu pude, mas daquela distância era quase impossível errar.

Disparei.

A arma explodiu, me jogando para trás alguns metros, mas o disparo saiu. A imensa bola de energia viajou em direção a criatura, ao chegar a cinco centímetros de sua face ela parou, e mais uma vez os olhos começaram a absorver. Dessa vez, a cabeça da criatura aumentava enquanto ela sugava a brilhante massa vermelha, que estacionara em sua frente. Eu podia ouvir o estranho som de sucção que os olhos emitiam.

– Caralho Maria! Ele vai sugar tudo, e eu não sei o que vai vir depois! Vem, vamos sair daqui enquanto ele está distraído.

Ele tentou me levantar, mas eu estava paralisada. Minhas mãos estavam queimadas, cheias de feridas e uma dor lancinante percorreu meu corpo quando ele me ergueu. A criatura continuava a absorver a bola de energia. Apoiei meu braço ao redor dos ombros de Tiago e relutei quando tentou sair.

– Não! Quero ver se ele aguenta.

– Quando ele terminar de absorver essa bola, não vai ser mais uma sombra flutuando lentamente, vai te pegar e sugar todo resto do teu mana e tua alma junto. – disse Tiago. Sua preocupação e assombro eram palpáveis.

– Não importa! Agora que o Rafael foi pego, é questão de tempo até todo mundo estar morto.

Tiago me olhou nos olhos e me abraçou.

– Eu te entendo. – sussurrou.

Me afastou do abraço, e me beijou suavemente nos lábios.

– Por favor, vamos embora. – ele disse com o rosto colado ao meu.

– Não! Olhe para ele.

Uma rachadura branca surgiu no meio da testa da criatura e desceu no meio dos olhos. Momentos depois se espalhou por todas as direções, o projetil que estava parado na barreira invisível da criatura, continuou seu caminho, explodindo a sombra em pequenos fragmentos.

Fomos ofuscados por alguns segundos, e então diante de nós flutuava uma Essência. Andei até ela e recitei as palavras, a bola de energia flutuou e entrou em meu peito.

Milhares de imagens passaram pela minha cabeça, memórias da criatura, dos seres que ela sugou. Eu vi pequenos espíritos da mata, acuados pela derrubada do bosque para a construção dos prédios, suguei sua essência e sua pureza era saborosa. Vi um casal em um carro, que buscaram aquele lugar para trocar carícias, a luxuria do homem tinha um sabor intenso e o medo da mulher era maravilhoso. Vi uma pequena criança entorpecida por drogas, seu ódio não tinha precedentes. Um vampiro que não havia se alimentado direito. Ratos, gatos, cachorros vadios. Foram horas para mim, embora tenham se passado poucos segundos. Quando voltei a mim, Tiago me olhava assustado.

– Seus…seus olhos…

Ele não precisava me dizer. Eu tinha os Olhos do Vazio.

***

Praça do Ferreira – Protetorado do Norte – Zona Neutra

— Senhor, Rafael foi capturado. – disse Erê, o pequeno mensageiro, como se eu já não tivesse a maldita informação. – O paradeiro dos outros é desconhecido, provavelmente mortos.

— Maria e Tiago estão vivos. Ache-os e traga-os aqui.

— Como, senhor? – questionou de maneira estúpida.

— Com a droga de um Rastreador! Contrate um e mande localizá-los!

— Vivos ou mortos, senhor?

De todos os seres que eu convivo, os que mais odeio são esses espíritos mensageiros. Você deve lhes dar a informação precisa e completa, ou terá problemas.

— Esqueça. Traga apenas Samuel, o Caçador aqui.

A pequena fada fez um aceno de cabeça e desapareceu no ar. Me levantei e andei até a janela. O relógio da Praça do Ferreira marcava uma e quinze.

O único Santuário em Fortaleza… esse lugar é tão belo durante a madrugada. Durante o dia é o coração pulsante da economia da cidade; à noite, os clãs, organizações e grupos buscam o santuário controlado por mim para negociações. Aos olhos do homem comum é apenas uma praça vazia. Daqui eu vejo uma agitação maior do que a que acontece pela manhã.

Por anos tento manter a paz nesse lugar, mas eu soube que ela acabaria na hora que o maldito Selo nasceu dentro do meu protetorado. Fiz o que todo Coronel faria: protegi, treinei e mantive o desgraçado vivo. Mas seu ímpeto era incontrolável, e era inevitável que causasse problemas. Eu tinha que fazer algo.

Quando se espera nesse tipo de ocasião, o tempo parece não passar. Agora eu teria que fazer o controle de danos, e localizar Tiago era parte disso. A outra parte era mais complicada: barganhar com os Daemons. Selvagens, inconstantes e ávidos por poder – ou seja, os piores negociantes possíveis. E eu dei de bandeja a minha melhor carta.

— Senhor, o caçador chegou. — disse a pequena fada, que havia se materializado em minha sala mais uma vez.

— Obrigado Erê. Mande entrar.

Samuel era um homem branco, alto e corpulento. Duas cicatrizes desciam de sua testa para as bochechas. Os olhos eram duas bolas leitosas. Ele era cego, mas via mais que todos os homens que já conheci.

— Você foi rápido. — eu disse.

— Estava nas proximidades — ele disse, a voz rouca de um fumante de longa data. — Em que posso ser útil, Velho?

— Preciso que localize umas pessoas para mim.

— Quem?

— Meu filho, Tiago, e  uma moça chamada Maria.

— Irônico.

— O que?

— Os Daemons me pediram o mesmo.

— E por que veio aqui?

— Sua contraproposta sempre é melhor!

— Sábio como sempre. Uma essência de Behemoth.

— Foi o que eles me ofereceram.

— E a da garota.

— Uma essência humana? Mas isso violaria as regras!

— Aqui, eu faço as regras. – Eu disse, e não pude evitar o sorriso.

***

Fortaleza, arredores do Estádio Castelão

Estávamos um de frente para o outro, parados, seus imensos olhos de redemoinho me encaravam. Apertei o cabo de minha espada.

— Maria?

— Não se assuste, Tiago. Ainda sou eu aqui, só… diferente. Você estava certo, ele estava além da nossa capacidade. — a voz de Maria estava diferente agora, mais sombria, mais fria.

— Mas você o destruiu. — eu disse.

— Essa energia era muito intensa. Talvez meus olhos nunca voltem ao normal. Minha mente, essa com certeza nunca mais será a mesma. Havia muito peso nessa alma, e agora ela está mesclada à minha.

— Precisamos continuar. — eu disse.

— Eu sei.

Apoiada em meu ombro, andamos o mais rápido que podíamos. Mesmo isso parecia exigir demais dela. A respiração dela estava rápida e descompassada. Demoraria algum tempo para se recompor. Mas o problema não era falta de energia. Era o excesso.

Fomos em direção à área iluminada pelos postes. Chegamos a uma grande avenida, ao longe podíamos ver o contorno do Castelão. Seguimos nesse rumo, pois ali seria mais fácil achar uma condução.

Ao chegarmos no estádio, peguei meu celular e liguei para um táxi, que não demorou. Estávamos sujos e carregando armas, sem falar nos olhos de Maria. Mas um feitiço meu resolveu o problema.

— Para onde vamos? – perguntou o taxista, que agora deveria ver dois jovens de aparência impecável.

— Centro, por favor. Para a Praça do Carmo.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.