9ª Carta

9ª carta – 29 de outubro de 1969

Dona Dinda,

                      Faz tempo que a senhora não sente orgulho de mim, não é mesmo? Pois já pode vestir sua camiseta canarinho, empunhar bandeirolas e cantar o Hino Nacional até as benzodiazepinas fazerem-na dormir de contentamento, em êxtase celestial. Mãe, tornei-me um traidor. Supostamente, contribuí para o nobilíssimo trabalho do Exército Brasileiro, tão empenhado em livrar o país daquilo que os colunistas de O Globo chamam de escória comunista.

Apesar da sessão prevista na ordem do dia de ontem, o Professor não me torturou até a morte. Nem sequer recebi sua temida visita. Permaneço vivo graças à intervenção de meu pai, o condecorado major Paulo Campos.

Eu estava sentado no chão e tinha meus olhos mergulhados na luz fosca, que pouco ilumina esta sala, e imaginei-a como um pequeno sol. Depois veio a brisa em meu rosto e o som de crianças brincando à beira-mar. O Kahlo e a Frida latindo para as ondas enquanto a senhora me erguia das águas para o céu. Foi quando o major entrou. Ele trazia uma prancheta, um banco de madeira e aquele semblante de quem sentiu minha falta por muitos anos. Depois de fechar a porta atrás de si e acomodar-se, deteve seu olhar sobre mim como se desejasse descobrir meu funcionamento. No início, senti-me incomodado e procurei não o encarar. Tinha vontade de matá-lo, de vingar a morte do Luquinha com o sangue de meu próprio pai. Nada seria mais shakespeariano, não acha?

Ficamos aqui por uma, talvez duas horas, sem abrirmos as bocas. Vez ou outra nossos olhares se encontravam e ele me sorria como se tudo fosse acabar bem para nós dois, como se pudéssemos viver um futuro em comum. Talvez acredite que os danos psicológicos causados pelo cárcere sejam capazes de despertar da latência o amor que eu talvez ainda sinta pelo pai idealizado de minha infância. Jamais profanarei, abrigando aquele homem em meu peito, minha capacidade de amar. Meu amor pertence aos companheiros e à Causa, não se permitirá amar o inimigo.

Já não nos acho tão parecidos, o major e eu. Sei o que vejo quando nos encaramos, e não sou eu. Mas… O que ele vê?

Quando desisti daquele jogo e perguntei o que fazíamos, major Campos escreveu algo na folha que trazia presa à prancheta e se despediu de mim sem dizer palavra. Deixou a sala e, logo depois, a lâmpada foi apagada. Nunca mais estarei tão sozinho e no escuro como me sinto desde aquele instante, dona Dinda.  

Daqui de dentro, hoje pela manhã, ouvi uma gritaria ganhando o quartel. Antes que eu tivesse a chance de me recostar à porta e entender melhor a razão dos protestos, o sargento Galego entrou. Depois de me entregar roupas limpas, sentou-se no mesmo banco em que meu pai estivera e, enquanto eu me trocava, ofereceu-me um cigarro aceso. Não recusei. Não me encontro em posição de rejeitar qualquer coisa capaz de me proporcionar alívio. Com um Hollywood ardendo em sua boca, o sargento deu um longo trago e me disse que eu havia feito a coisa certa, pois o Professor teria arrancado minha confissão de dentro dos meus ossos. Segundo o Galego, eu entreguei o nome de três amigos da UFC. Disse-me satisfeito que o Eduardo Lira, o Solon Peçanha e o Carlos Beberibe foram presos ontem e que já se encontram acomodados nas dependências do 23º Batalhão de Caçadores, graças à minha valiosa contribuição. Mãe, o Solon e o Eduardo nunca militaram na vida! Não são a favor deste desgoverno, mas também nunca se posicionaram contra, não são homens da luta. Quanto ao Carlos, o máximo que fez foi guardar em sua casa alguns papéis e tecidos que utilizávamos para a confecção de faixas e cartazes, nunca quis participar ativamente do movimento. O major Campos me usou para incriminar três inocentes. Ontem, enquanto me observava, deve ter procurado pelo cagueta que não sou e jamais serei. Fui salvo da tortura e condenado a uma vergonha inominável quando meu pai falsificou minha assinatura sobre aquele pedaço de papel.

Acho que o sargento, apesar de ser um homem limitado, percebeu em meu rosto a manobra de meu pai. Mas acredito que ele nada falará ao Comando. Sargento Galego é um voyeur, sabe que terá mais para assistir caso eu permaneça vivo. Antes de me deixar sozinho, olhou para o fio de onde pende a lâmpada e pôs o banco sob seu braço, em sinal claro de que eu estava proibido de encerrar precocemente sua diversão. Ainda me disse que, a partir de agora, ele muito provavelmente será meu único amigo. Todos, militares e prisioneiros, me desprezam com a mesma determinação.

Não posso deixar este mundo como o desgraçado delator que causou a morte de um companheiro e a prisão de outros três. Deve haver algum modo de eu provar que não compactuo com os militares, que minha odiosa parcela de sangue verde-oliva coagula diante da bravura rubra que corre nestas veias. Minha natureza revolucionária não será acanhada por um estigma fraudulento. Tentam destruir com documentos forjados toda a poesia da qual sou feito. Eu não degenerei. Eu não sou filho do major. Sou filho da louca. Da louca!

De seu menino torto,

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

  • Sara dos Anjos

    Que triste!!! Minha nossa, estas cartas mexem com um monte de sentimentos!!! E são maravilhosamente bem escritas!!!

    • Emerson Braga

      Sara, obrigado pela leitura! Não sei se já na próxima carta, mas vem Plot twist por aí! Abração.

      • Sara dos Anjos

        Êba!! Espero que o sofrimento diminua! Obrigada, Emerson (pelas cartas e pela resposta!). Um abraço!