O que fazer desse espaço-tempo improvável enquanto estamos vivos?

Esse é um importante questionamento, parece. A mania voluntária de pensar e questionar, que tanto define a nossa espécie ‘homo sapiens sapiens’ (homem que sabe que sabe). O homem pensante. O explorador inconformado. Uma busca meio ilógica e sem fim. Seria o sentido de tudo isso o tal tesouro no fim do arco-íris?

Busca-se um Deus. Não se sabe se para culpar ou aconchegar-se ao colo. O homem é um ser carente. Solitário em seu abismo interior cavado por esse tal vício em saber e entender demais.

Um físico disse-me, certa vez, que a antimatéria é Deus. A física, tão vaidosa em sua arrogância de muito acertar, viu-se no x inalcançável. Uma plaquinha de ‘foda-se’ no fim das pesquisas. Inexplicável, harmônica e contraditoriamente ilógica. Tal qual a vida. Tal qual um Deus.

Anos depois me volta o físico: A antimatéria é a alma do universo. A tal da alma é Deus. O interior sagrado. A conectividade de tudo. Somos só energia, oriundas do mesmo ponto mínimo, há bilhões de anos atrás. E assim seremos. Impulsos. Você ainda está preocupado com a fatura do cartão? Talvez sim, e eu não te culpo, também estou. Como chegamos até isso? Vou repetir: Bilhões de anos. Um dica: faça-se boa energia.

O físico se matou, dois anos atrás. É triste, ou não. Uma escolha. Disse que entregou-se ao tudo. “Qual diferença de morrer aos sessenta ou aos trinta?”

Eu vejo a vida de uma forma meio incomum. Eu gosto de admirá-la. Acho bizarro e bonito em toda a sua completude. A natureza, o vento, o mar (que tanto encanta o homem por sua conhecida rebeldia), as sensações, as texturas. Frio, calor, o alívio após mijar quando se está apertado. Chocolate seguido de um gole de água. Sentimentos. Gozar olhando nos olhos de quem se ama.

A vida, então, digna de observação ininterrupta e densa, também é engraçada. É engraçado na sua imprevisibilidade. É como observar um cachorro que, ilogicamente, corre atras do próprio rabo. Os tais dos físicos suicidas. Um homem que sorri ao admirar a indomabilidade do mar.

Tem um casal de vizinhos que sempre briga. Discussões homéricas. Acusações. Vaidades e medos. Até que um dia, a mulher gritou para o cara, por cerca de dois minutos: Vai dá o cu, cracudo!

Essa frase, bela, podemos dizer, humana e peculiar, foi repetida umas oitenta vezes. Foi uma metralhadora. Vida que segue. Dias passam. O casal volta a gritar no interior nada íntimo do apartamento. Alguém grita de uma janela desconhecida: Vai dá o cu, cracudo!

Fez-se o silêncio. Discussão continua. Um outro alguém grita: Vai dá o cu, cracudo!

E vários vizinhos pareciam realizar-se (ilogicamente?) com a vingança sob o grito de “Vai dá o cu, cracudo” que tanto os incomodou outrora. A beleza da rebeldia. O encontrar do animal brincalhão e harmônico, sem moralismos. Correr atrás do próprio rabo.

Aí o casal briguento se uniu em protesto aos intrometidos: Vai se meter na sua vida, você nem me conhece, só eu posso chamar ele de cracudo. E foram felizes se ajudando e gritando ferozmente aos vizinhos bisbilhoteiros. Um dia aumentei o coro, foi realmente uma sensação gostosa.

Entendem? É algo ilógico, mas ao mesmo tempo lindo e bizarro. A vida e o viver necessitam de testemunhas de seus grandes acontecimentos insignificantes.

Demos tanta força a nossa mente, que tornou-se quase impossível domá-la. Perdemos-nos. Facilmente pode-se esbarrar com a destrutiva loucura. E facilmente pode-se esbarrar com a calma ancestral de se sentir apenas parte de todo esse espetáculo existencial. Os que largam tudo e vão viver na praia são ditos loucos. Mas será? Lembra da fatura do cartão? hahahahahaha.

Quando as coisas estiverem indigestas demais, em sua cabeça; quando a cabeça pesar em pensamentos atropelados. Brinque com o seu cachorro, tome um café, destrua uma folha e sinta o odor nas mãos, um banho quente, a água escorrendo pelo corpo. Grite um ‘vai dá o cu, cracudo!’ Ou as ondas do mar. Ou amar. Amar. Amar.

“O amor é o tal do Deus”, disse-me postumamente o meu amigo físico. Amar de dentro pra fora. Amar o todo. Explodir e fazer sentir até nas galáxias mais distantes.

Ilógico, parece-me.

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

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Thiago Noronha

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

  • Sara dos Anjos

    Adorei o que escreveu, Thiago!!! Me parece que quando nos damos estes instantes infinitamente mais felizes do que o pagamento total da fatura do cartão de crédito e dizemos a nós mesmos, honesta e sinceramente, foda-se tudo o que não me dá prazer (desde salvar uma formiga da gota d´água até sentir o olhar de amor de um filho) a gente começa a VIVER (deixando de lado esta coisa de procurar, pensar, raciocinar, racionalizar…ufa, que saco isso!). Eu me juntaria ao coro! Só as risadas valeriam mais que tudo!!!

  • Emerson Braga

    Excelente, Thiago! Excelente!

  • Gina Eugênia Girão

    Puxa vida! Viver é ser feliz – isso eu já sabia – mas o amor… Ah, esse “não querer mais que bem querer”, é deus, mesmo – e olha que até ateia sou! Excelente texto!!!