Casa, calçada e construção

Eu morava na casa mais feia da rua. Mesmo em um bairro na periferia de Fortaleza, a saudosa Vila Pery, onde as casas vizinhas não eram exatamente um charme arquitetônico, a minha conseguia ser de uma feiura inigualável.

Contextualizando, meus pais vieram do interior do estado na maior pindaíba, trabalhando muito e ganhando pouco, e tiveram que erguer a casa do zero em um terreno que vovó não muito gentilmente concedeu. O dinheiro escasso e a megalomania de papai fizeram com que a casa estivesse em constante construção, esticando o prazo de término ad infinitum. Os pedreiros largavam o serviço pela metade, metade que, aliás, eles tinham feito muito mal e porcamente. Nunca vi uma casa atrair tanto pedreiro mão grossa. E dá-lhe resto de cimento, portão empenado, viga torta, coluna pela metade. A casa era um Frankestein.

Acontece que as mesmas características que deixavam a casa horrorosa faziam do pequeno Moacir uma criança feliz. Os tijolos no canto da parede se tornavam fortes dalgum exército inimigo; as colunas por concluir, montanhas a serem escaladas; as britas, armas mortais. Se tudo vira brinquedo nas mãos de criança, a casa feia era um parque de diversões.

Daí que a adolescência foi chegando e a alegria foi se tornando vergonha e chateação. Afinal, era a casa mais feia da rua, e tudo pra adolescente motiva os mais profundos questionamentos existenciais. Não dava sequer pra eu levar minhas namoradinhas na calçada, com a areia de construção ocupando quase tudo. Não que existissem muitas namoradinhas para serem levadas, mas a minha casa ficava numa parte da rua que era meio escurinha, ideal para ousadias juvenis. E a calçada, podendo servir a nobilíssimos fins, era só um banheiro de gato.

Apenas uma pessoa se incomodava mais com a areia na calçada da minha casa que eu: Pedrinho do Apartamento. Pedrinho, apesar de morar no único prédio do bairro (daí o apelido), era o rei das calçadas, o maior conquistador que conheci na vida. Toda semana, uma garota nova. Parecia até que ele recrutava as meninas em bairros vizinhos. Porém, a melhor calçada, em suas próprias palavras, não lhe era acessível por conta de uns cem quilos de areia que já não deviam prestar mais pra nada.

O que sempre nos intrigou em Pedrinho, por sinal, era como ele conseguia beijar tantas bocas sendo tão miseravelmente feio. Pedrinho era a versão humana da minha casa, por assim dizer; não dava nem para chamá-lo feio: era inacabado. Um espigão, os ossos quase rasgando a pele, a cara de bode pelado. A gente perto dele se sentia sempre meio Brad Pitt.

Mas Pedrinho tinha humor. Era mais engraçado que minhoca de biquíni. Já tive cãibras nas bochechas por conta dele, e olha que nesse dia eu estava tentando fazer o tipo misterioso para a prima de um amigo (que na semana seguinte acabou numa calçada com o Pedrinho). Esse era o segredo do Casanova da Vila Pery: ser estupidamente hilário. E aí ninguém nem reparava nos dentes tortos e nos olhos esbugalhados.

Sempre quis ser como Pedrinho do Apartamento.

Eu já tinha dezessete anos quando minha família se mudou, deixando para trás a casa feia. Meus pais desistiram, aceitaram a derrota e compraram um apartamento em outra região da capital. Entrei na faculdade, perdi o contato com meus amigos de infância, segui a vida. Desde então, mudei-me mais duas vezes, a última para morar sozinho no meu próprio cafofo.

Dia desses, encontrei Pedrinho na rua. Não o reconheci, ele me chamou (meu rosto não muda nada desde os cinco, seis anos). Pedrinho agora estava forte, o rosto escondido por uma barba cheia. Muito bem apessoado, diga-se de passagem.

Trocamos umas palavras rápidas, eu apressado com o intervalo do almoço. Depois de uma vida de muitos namoros, Pedrinho casou, mas foi deixado pela esposa e estava solteiro de novo. Pareceu-me amargo, ranzinza, muito diferente daquele Pedro de outros tempos. Mal sorriu ao se despedir. Mudado.

Lembrei da casa da minha infância e do quanto ela me proporcionou diversão e aborrecimento quase na mesma medida. Talvez eu pudesse voltar a ser feliz numa casa daquelas, talvez casa alguma sirva pra mim. Talvez, só talvez, eu perceba daqui a alguns anos que nunca vivi tão bem quanto hoje.

Sei lá. No fim, somos que nem casa feia: a construção nunca termina. E, na maioria das vezes, não sai bem como a gente planeja.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Sara dos Anjos

    Ameeeeei, Moacir! A última frase vale ouro!!!

    • Moacir Marcos

      Obrigado, Sara!

  • Emerson Braga

    Cara, eu te amo!