O Pacto das Trevas: Fortaleza – Parte I

Visitas inesperadas e Flor de Limão

As coisas ruins vêm em três.

Naquela noite, houve três batidas no vidro da janela; as luzes do quarto piscaram três vezes seguidas; o relógio marcava três da manhã.

João levantou da cama com dificuldade. As juntas dos joelhos estalaram, e ele fez uma careta. Trocou o pijama por uma calça e um blusão de moletom e, devagar, começou a fazer a série de alongamentos que realizava todas as madrugadas, no espaço entre as rondas dos enfermeiros.

Sentiu o corpo começar a soltar. Enquanto esticava os músculos e as articulações, recitava a fórmula assíria de proteção e fortalecimento, invocando Samas como seu patrono, entrando em sua luz. Sentiu-se quente, tranquilo e relaxado.

Sentou-se com as pernas cruzadas e esperou. Não demoraria para que o assédio iniciasse. Um silêncio incomum tomou conta do prédio.

João expirou devagar, e uma nuvem de vapor se formou à sua frente. Seus músculos saltaram com a súbita queda de temperatura, mas, em meditação, logo reestabeleceu o controle interno.

Um forte cheiro de enxofre e decomposição tomou conta do quarto. Até ali, tudo bem. Era parte do padrão.

Mais três batidas, desta vez na porta. Um rosto branco e borrado surgiu no quadrado de vidro de segurança: um sorriso duro, acompanhado de olhos frios e escuros. Aquilo era novidade.

— Olá, João — a voz surgiu direto em sua cabeça, clara, cristalina. O homem na porta permanecia imóvel, os lábios colados.

— Quem é você?

— Um fã. Alguém que te odeia. Deixe-me entrar.

— Não — disse João. — O que você quer?

— Tenho um presente para você.

— Eu não gosto de surpresas. Nem de presentes, principalmente quando vêm de alguém que eu não conheço.

— Você sabe quem eu sou.

— Não, mas saberei, se você me disser seu nome.

O homem abriu a boca num riso silencioso. O barulho de vidro quebrado ecoou pela sala, mas João sabia que era apenas em sua mente. Eles eram especialistas nisso, confundir.

— Você se agarra a essa divindade inferior e espera estar seguro!

— Samas há de me proteger e abrigar em sua luz contra a escuridão. A luz do sol brilha e rompe a noite. O frio cede lugar ao calor, e a vida vence, dia após dia, brotando da terra, alimentando-se de luz.

— Tolo! Somos muitos!

— Vocês não podem me tocar. Podem vir aqui tentar me influenciar ou intimidar, mas não podem me tocar.

A maçaneta da porta girou, e ela balançou na moldura. Uma, duas, três vezes, mas resistiu.

— Nada de novo. Vamos, não perca tempo com o show: diga seu nome, e eu te mando de volta para o lugar de onde veio.

— Você não entendeu — disse ele, a voz ecoando na mente de João. — Não há mais acordo.

— O quê?

A maçaneta girou mais uma vez. A porta balançou na moldura e abriu.

João levantou de um salto, as mãos girando no ar. Evocou uma fórmula sumeriana de proteção, mas o homem – o cadáver, agora via, era um morto – desfez as linhas de luz que erigira como escudo com um gesto descoordenado.

— Os acordos foram revogados, criança — disse o morto, agora falando com a voz rouca e oca, os lábios se mexendo. Parecia um boneco de madeira.

Pela primeira vez em décadas, João sentiu medo.

— Você não pode me tocar. Samas…

O homem avançou e agarrou João pelo pescoço como se ele não pesasse nada.

— Miguel — sussurrou João —, a caixa…

O rosto do homem estava muito próximo agora. Ele fedia a lixo e a decomposição. Sua pele estava coberta de escaras, e os olhos tinham uma superfície opaca. O corpo que usaram para se infiltrar degradava-se numa velocidade absurda.

— Você fede — disse João, com o pouco de voz que restava. Sua visão escurecia, e ele já não sentia o corpo.

— O tempo acabou — disse o cadáver.

João cuspiu em seu rosto.

— Vocês não podem vencer — disse, e sorriu. — Não irão.

Com uma virada de mão, quase sem esforço, o morto-vivo quebrou o pescoço de João e soltou-o, já sem vida, no chão.

*

Cinco horas. Roni, o enfermeiro da manhã, tinha acabado de chegar e estava indo ao banheiro quando viu a cela de João aberta. Um cheiro podre emanava do quarto. Estava escuro, mas ele conseguiu divisar duas pessoas deitadas no chão.

— João?

Roni tentou acender a luz, mas não funcionou. Pegou o celular e, com a lanterna, iluminou o local. E então ele gritou.

*

— E quando você entrou no quarto, o que viu? – perguntou Rodrigo, oficial da Polícia Civil.

— Estava escuro, e eu não consegui acender a luz — disse Roni. — Com a lanterna do celular, então, eu vi eles dois.

— Como estavam?

— Um deles parecia alguém que tinha morrido há uma semana, estava em decomposição bem avançada.

— E o outro, o interno?

— O João… — Roni engoliu em seco. Aceitou a água que o diretor oferecia, bebeu e respirou antes de continuar. — … O João estava com um buraco na barriga. Quase todas as suas vísceras…

— Acalme-se — disse Rodrigo, oferecendo-lhe um copo d’água. — Respire.

Roni bebeu. Ainda não conseguia acreditar naquilo.

— Havia marcas de dentes ao redor do buraco na barriga do João, e os órgãos dele…

— Você quer dizer que o outro, o que invadiu o sanatório, comeu os órgãos do João?

— Não todos — disse Roni. Os intestinos e o estômago foram retirados e jogados para o lado. O doutor Marcos disse…

— O doutor Marcos é…?

— O legista daqui. Ele disse que faltavam o coração, o fígado e os pulm…

Roni vomitou sem aviso. O policial só teve tempo de levantar os pés, mas os respingos ainda lhe sujaram a perna direita.

— Que droga! — praguejou Rodrigo.

Roni estava pálido, e respirava com dificuldade.

— Ele está em choque, oficial — disse alguém que acabara de entrar na sala. — Eu sou o doutor Marcos.

— Tirem ele daqui — disse Rodrigo, sinalizando para outros dois policiais que estavam na sala.

— Levem-no para a enfermaria dois, no fim do corredor — disse o médico. — Eu continuarei daqui. Podemos ir para minha sala?

Rodrigo olhou para a poça de vômito e fez que sim.

*

A sala do legista era impecável. Marcos passou a mão sobre a borda da mesa e não sentiu nenhum grão de poeira. Até as cadeiras pareciam ter sido assentadas de maneira planejada. Rodrigo colocou o celular sobre a mesa e começou a gravar a conversa.

— Eu não mexi no corpo, sabe? — disse o médico, sentado em sua cadeira atrás da mesa, uma xícara de chá na mão. — Em nenhum dos dois.

— E como sabia o que faltava?

— O buraco no abdome era imenso. Foi necessária uma força absurda para fazer aquilo.

— Pelo buraco o senhor viu o que faltava?

Marcos fez que sim, bebendo um gole do chá. Depositou a xícara sobre a mesa organizada e, num reflexo, sorriu.

— Localizei assim que entrei os intestinos, o estômago, os rins e o pâncreas, jogados pela sala. Claro, o fedor era insuportável. Com uma lanterna, pude ver que o esterno fora partido, e a pele do peito rasgada quase até o pescoço. Fígado, coração e pulmões eram os únicos que faltavam.

— E o que o senhor acha que aconteceu com estes órgãos?

— Acho que o outro homem comeu eles.

— Como é?

O médico pegou a xícara e tomou mais um gole. Era jovem, entre trinta e cinco e quarenta anos, começando a ficar grisalho. Tinha olhos inteligentes e frios.

— O outro, o invasor, o assassino. Ele comeu os órgãos de João.

— Mas… por quê?

— Bom, é por isso que os senhores estão aqui, não é?

Rodrigo conferiu se a gravação seguia sem problemas no celular.

— E o outro homem, o que o senhor pode me dizer dele? Seu enfermeiro disse que ele parecia estar morto há mais de uma semana.

— Roni está em choque – disse, fazendo um gesto de cortar com a mão. — Isso é impossível. Provavelmente seja apenas um mendigo muito doente, que já estava apodrecendo por dentro quando entrou aqui.

— E como ele burlou a segurança de vocês, doutor?

— Isso você vai ter que descobrir junto ao diretor e à equipe de segurança, não é?

— Parece que sim — disse Rodrigo. — O diretor está aqui?

— Não. Ele não vem às segundas.

— Bem, se o senhor não tem mais nada a acrescentar, doutor…

— Não, nada.

Rodrigo levantou, apanhou o celular da mesa e estendeu a mão.

— Tenha um bom dia, senhor policial — disse, ficando de pé, mas sem retribuir o cumprimento.

— O mesmo para o senhor, doutor.

Rodrigo saiu da sala do médico com uma impressão distorcida do legista. Ele era sério, frio e distante demais. Talvez por lidar com os mortos.

Ele também achava mais fácil lidar com cadáveres. As coisas eram mais objetivas com eles, não havia segundas intenções ou segredos quando a vida acabava. São os vivos que complicam tudo.

Estava descendo o corredor em direção ao portão eletrônico que levava à saída quando viu a placa informando “Enfermaria Dois”. Era ali que o enfermeiro estava. Precisava vê-lo mais uma vez, ouvir a palavra do homem que testemunhara a barbárie sem filtros.

Roni estava deitado sobre uma maca, o olhar distante contemplando o forro branco do telhado. Havia um forte cheiro de éter ali. E urina velha, mascarada por um desinfetante de má qualidade.

— Pois não, senhor?

A enfermeira era uma senhora, entre cinquenta e sessenta anos, o cabelo grisalho curto coberto por uma touca semitransparente.

— Rodrigo Maia, Polícia Civil — disse ele, apresentando a carteira funcional. — Posso falar com o Roni?

— Infelizmente não. Recebi ordens do diretor para sedá-lo. Ele estava muito nervoso. Depois daqui, passará por algumas sessões de acompanhamento. Foi o que eu ouvi ele dizer.

— Ah… certo. O diretor está aqui?

— Sim, ele vem todos os dias — disse a enfermeira. — A sala dele fica no terceiro andar.

Rodrigo olhou mais uma vez para o enfermeiro apagado. Por que o legista dissera que o diretor não estava lá, e que ele não vinha às segundas?

Despediu-se da enfermeira e seguiu rumo ao portão de saída. Após o bipe e o estalo da tranca, foi admitido no salão de espera. Duas famílias com crianças, uma mulher jovem sozinha, uma senhora de cabelos cinzentos quase azuis com um vestido branco e um forte perfume cítrico adocicado.

— Preciso falar com o diretor — dizia ela, num português perfeito.

— Infelizmente o diretor não vem às segundas feiras – disse a atendente.

Rodrigo aproximou-se do balcão, colocando a carteira funcional sobre o tampo.

— Bom dia… — ele olhou para o nome escrito no crachá. — Carla. Preciso falar com o diretor.

— Senhor… o diretor não se encon…

— Ele vem hoje. Uma das enfermeiras me confirmou que ele está aqui todos os dias. E eu aposto que, quando acontece algo como o que houve hoje, ele chega cedo. Deve estar dando bronca no pessoal da segurança e fazendo telefonemas. Seja como for, Carla, eu preciso falar com ele.

Carla suspirou. Rodrigo não era alguém que se destacasse numa multidão, mas podia ser bem persuasivo quando quisesse.

A atendente pegou o telefone e, numa conversa sussurrada, resolveu a situação.

— Senhor policial, o diretor vai atendê-lo agora. Ei, Mariano! — disse ela, dirigindo-se a um rapaz de branco que passava ali perto. — Acompanhe esse senhor até a sala do diretor.

— Tudo bem, dona Carla — disse ele. — Por aqui, senhor.

Rodrigo começou a se afastar do balcão quando sentiu um braço entrançando no seu. Olhou para o lado e viu a senhora de perfume forte.

— Provavelmente estamos indo até ele pelo mesmo motivo — ela disse, sorrindo. Dentes muito brancos, alinhados de maneira perfeita. Deveria ter sido muito bonita quando mais jovem.

— Acho difícil, dona…

— Pode me chamar de Angélica. E esqueça o dona, rapaz! — disse, dando um tapinha no braço do policial.

A atendente saiu de trás do balcão num pulo.

— Senhora, ei, senhora! O diretor não pode atendê-la agora, por favor, compreenda…

Com uma força insuspeita, dona Angélica parou e travou Rodrigo junto com ela. Devagar, olhou por sobre o ombro em direção à moça que os atendera.

— Volte para seu lugar, criança. Não quero mais ter de tratar com você hoje.

Rodrigo sentiu um arrepio que começou no braço em que ela segurava, espalhando-se por todo o corpo. Foi algo estranho e inesperado, como entrar num chuveiro com água fria quando se está com febre.

Carla voltou para o balcão, pálida, os ombros curvados. Havia pessoas com autoridade natural, pensou ele, e sorriu, ignorando a sensação que tivera antes.

— Fui professora a minha vida inteira, filho — disse ela, caminhando novamente e puxando Rodrigo com ela. — Tudo é uma questão de postura. E do tom correto de voz.

*

Entraram no elevador. A pele dela era escura e fria, mas muito macia. O perfume deixara de ser enjoativo, e tornara-se muito agradável. Calmante, até.

— Flor de limão — disse ela, sorrindo. — Eu mesma faço, é uma fragrância antiga, herança do meu povo. Você gosta?

Rodrigo sorriu.

— É muito agradável, don… Angélica.

— Você está aqui por causa da morte de João, não é?

— Como a senhora…?

— Ah, não se preocupe com essas pequenezas, meu rapaz… eu resolvo coisas assim há séculos.

— Ele era parente seu?

— Foi meu aluno. Um dos melhores.

— E o que ele fazia aqui?

— Acusado de matar a esposa após uma crise de insanidade — disse Angélica, balançando a mão como se espanasse algo. — Mas é claro que as coisas não são tão simples.

— Ele não a matou?

— Longa história.

— Ah.

As portas do elevador fecharam. Tudo acontecia muito devagar. Parte da mente de Rodrigo achava aquilo engraçado, outra estranhava, outra se debatia sem entender.

— A senhora veio buscar o corpo?

— Também. Há questões mais graves a serem resolvidas. Você sabia que não há necessidade da polícia aqui?

— Por quê?

Angélica soltou o braço de Rodrigo e, com a mão direita, empurrou-o contra o espelho do elevador. Tanta força!

— Isso tudo é muito maior que você, Rodrigo. Coisas inexplicáveis. Tudo não passou de uma briga entre dois malucos, um deles com uma faca muito afiada.

— Não havia arma…

Ela tinha os olhos vermelhos. Sem pupilas, sem íris, nada, apenas vermelho.

— Você não viu embaixo da cama, mas havia. E os órgãos que sumiram? Você olhou na latrina?

— Olhei em todos os… — ele coçou a cabeça. — Na latrina?

— Sim. Estavam lá todos eles. E o homem apodrecendo? Um caso severo de câncer, espalhado por todo o corpo. Ele já fedia daquele jeito antes de morrer. Ninguém mais chegava perto dele.

— A segurança…

— Falta de energia e falha no gerador, tudo uma grande coincidência. Você vai voltar lá, vai achar tudo o que eu falei e encerrará o caso. Vai ser bom para todos: a Instituição, o diretor, você, eu…

— Eu ainda preciso falar com o diretor?

— Não, Rodrigo, não. Eu resolvo tudo para você. Volte para a cela do João, colete as provas, encerre o caso e vá para casa.

O elevador começou a subir e parou no primeiro andar.

— Desça aqui — disse ela, quando a porta abriu — e pegue o elevador na volta. Resolva tudo. Você é um excelente policial. Eu posso precisar de você no futuro. Vamos, desça.

— Eu…

Ele resistia. A mente daquele rapaz… ele tinha potencial. Mas nada para agora.

— Vamos, Rodrigo. Resolva o caso, deixe o resto comigo.

— Sim senhora.

Ele se curvou, beijou a mão dela e saiu. As portas do elevador fecharam.

*

O diretor fora muito cooperativo. Em menos de uma hora o corpo de João fora levado para a funerária, onde seria produzido para o velório. O outro fora cremado num forno industrial no porão do sanatório, que não era utilizado desde a Ditadura Militar. É claro que as fórmulas corretas de banimento foram utilizadas.

Angélica deixou o prédio com o sentimento agridoce de dever cumprido e perda. Mas a manhã ainda seria muito longa.

A Hilux preta encostou quase sem barulho, e o motorista desceu para abrir a porta para ela.

Ah, João… como ela queria que as coisas tivessem sido diferentes…

Fortaleza… tanta gente, o calor e a luz daquela cidade escondendo tantos segredos, tanta escuridão…

— Samuel, siga para a casa de Miguel.

— A antiga casa do João, senhora?

— Sim, sim. Aquela mesma.

O homem deu partida no carro e, tão sem barulho quanto chegara, partiu.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Emerson Braga

    Meu irmão, vou te contar viu… Tuas capacidade de transformar nossa mente em tela é fenomenal! Como diria a personagem Claudia, em Entrevista com o Vampiro: “I want some more”!

    • Michel Euclides

      Ah, meu querido… o que devo fazer quando uma divindade me faz uma gentileza? Agradecer e tentar fazer melhor! Obrigado pela leitura e pelos carinhos! Grande abraço!

  • Catia Guimarães

    Mente imantada