Caça e caçador (A Última Noite – Parte III)

Continuando minha novela de fantasia urbana! 

Confira a Parte 1 – A Essência

Confira a parte 2 – O Velho e os Olhos


O táxi demorou apenas alguns minutos para chegar em seu destino. Pelo menos na madrugada não havia trânsito em Fortaleza.

Ele nos deixou em frente à Praça do Carmo, recebeu o dinheiro e partiu apressado. Ainda perguntou, antes de sair, se ficaríamos naquele lugar, naquela hora. Respondi com um aceno de cabeça e um meio sorriso.

A Igreja do Carmo estava muito bonita depois da revitalização. Aquela praça me trazia boas memórias de infância, de um tempo em que a vida era mais simples e o mundo inteiro era só o que existia diante dos meus olhos.

De dia, aquele era um lugar de devotos – gente simples que acredita em uma divindade de misericórdia e amor. De noite, ela é uma porta, a fronteira para um mundo mais complexo onde  homens são deuses e deuses são mortais barganhando e disputando por seus lugares.

Maria estava séria. Todo o trajeto transcorreu em silêncio, apesar de a única mudança aparente ser nos olhos. Por alguma razão, senti que aquela não era mais a minha amiga.

Ao colocar o pé no primeiro degrau da escadaria da igreja, senti um calafrio. Se no mundo dos adormecidos isso é um mau agouro, no meu é ainda pior.

Caminhamos até a porta. O Porteiro, corcunda e de cabeça baixa, estava sentado em um banquinho de madeira. Levantou o pequeno copo metálico e nós colocamos moedas dentro dele. Não importa quem seja, ou você paga o pedágio ou não cruza o Véu.

Ao atravessar a porta, já não estávamos dentro da igreja, mas fora. É uma sensação bizarra, e é o que acontece quando cruzamos a fronteira. Para lá do Véu parece com o nosso mundo, mas é… diferente. Quase tudo que existe no nosso plano tem uma contraparte nesse lugar. A bela igreja branca de arquitetura secular se transformou em um templo negro de arquitetura gótica.

Chega a ser cômico como eles gostam de arquitetura gótica aqui.

A iluminação é diferente, pois não existem politicas públicas de segurança. As altas e frondosas árvores bloqueiem a pouca luz das raras luminárias.

Cruzar o Véu era como mergulhar num mundo de sonho, tudo parecia etéreo, nublado.

Mesmo na escuridão pude notar aquela forma parada no degrau da praça. E meu calafrio fez todo sentido.

— O que você quer? perguntei para o homem que me esperava.

— Fui incumbido de encontrá-lo e levá-lo a seu pai. – disse ele, a voz rouca.

— Isso é desnecessário, já estamos indo até lá.

— Então temos um impasse. Se você chegar sozinho eu não recebo meu pagamento.

Maria mantinha sua cabeça abaixada.

— Olha, Samuel, minha noite está péssima. Meus amigos morreram, Rafael foi capturado… Só quero encontrar o Velho e arrancar umas respostas dele. Se você não sair do nosso caminho, não vou me conter.

— Tudo bem rapaz, você pode ir. Mas a moça fica. Ordens do seu pai.

— Olha aqui, seu cego de merda…

— Tudo bem! — disse Maria. — Thiago, ele é forte, posso sentir daqui. Não sei se podemos enfrentá-lo nesse momento.

— Agora você vai dar uma de controladora para cima de mim, Maria? Pra puta que pariu com isso! Quem está de saco cheio sou eu! A merda da vida toda todo mundo me dizendo o que fazer! A partir de agora, vou fazer do meu jeito! Eu e você vamos para porra do escritório, e o Velho vai responder minhas perguntas, nem que seja debaixo de murro na boca!

— Ele sumiu. — disse Maria, sem levantar os olhos.

Olhei o lugar, e onde antes estava o sujeito não havia mais ninguém.

— Vamos ver se ele pode se esconder dos meus olhos.

Quando levantei meu olhar senti um poderoso soco em meu rosto e fui jogado contra a parede da igreja. Senti o gosto metálico do sangue encher minha boca. Um grupo de vampiros se aproximou para ver a briga.

— Assunto do Coronel, não se metam. — disse Samuel.

Maria estava parada e ignorava a briga, alheia. Levantei e procurei meu oponente, mas ele já havia sumido. Dessa vez o golpe veio de cima, uma cotovelada em minha cabeça que quase me fez desmaiar. Notei que as pernas dele estavam viradas de um jeito estranho.

Samuel misturava características animais em seu corpo para caçar suas vítimas.

Saquei minha espada. Dessa vez antevi sua aproximação. Aparei com a espada um golpe de suas garras que teria me matado.

— Vai ficar parada aí, Maria?

— Ficou tudo pior agora! Depois que eu atravessei o Véu… as memórias… os sentimentos das pessoas e criaturas são… mais palpáveis!

Percebi que o inimigo usava as árvores e o prédio para fazer as investidas furtivas. Se eu corresse para avenida ele teria que vir de frente. Além disso entraríamos na zona neutra.

— Maria, podemos correr e atravessar a rua! Depois da avenida é território do Velho, ele não pode nos caçar lá.

— Você devia me deixar aqui e ir embora…

— Você devia calar sua boca e me seguir!

Corremos. Estávamos quase do outro lado quando Maria foi puxada para trás. Ao me virar, pude vê-los no meio rua. Samuel a prendia com garras em seu pescoço. Ele tinha uma aparência animalesca, seus joelhos estavam virados ao contrário e havia pelos em seu rosto, suas garras eram grandes como a de uma onça, facilmente abririam talhos na pele.

— Seus olhos são bons garoto, mas você não pode confiar cem por cento no que vê. Eu posso cheirá-los, ouvi-los e senti-los em qualquer lugar. Vocês são minha presa e até a caçada ser finalizada não tem como fugir de mim.

Maria estava calada, sem esboçar reação.

— Samuel, se soltá-la agora, pouparemos sua vida.

— Fique quieto garoto. Vou cortar a garganta dessa fedelha e absorver a essência dela. Depois vou te levar para ele, mas vou quebrar suas pernas antes.

— Ninguém pode consumir essências humanas.

— Discuta isso com seu pai. – A língua de besta raspou os lábios, como quem antecipa o banquete.

— Então vai ser do jeito difícil.

Apertei a empunhadura da espada. O mundo brilhava amarelo e o Caçador mantinha os olhos em mim. Concentrei a energia, recitei as palavras. Minha arma absorvia a energia dos ventos, fazendo um som de sucção.

— Vai me golpear e arriscar ferir sua namoradinha.

Eu o ignorei. Olhava a rua pois o tempo tinha que ser perfeito. O momento se aproximava com as rodas de um carro. Samuel gritava para mim, lançava ameaças.

— Agora! — anunciei.

Maria levantou a cabeça e olhou para Samuel com os olhos do Vazio. A energia foi drenada de sua cabeça, furtando a habilidade que aguçava seus sentidos.

— Estou cego! – gritou o caçador, e o medo em sua voz era genuíno. Maria aproveitou a deixa para se soltar do abraço, golpeando as costelas do inimigo. — O que você fez comigo, sua bruxa?

Sem a sua energia, Samuel era menos que um cego comum. Aproveitei a janela e golpeei. O movimento de minha espada fez um pequeno furacão, que viajou na direção de Samuel. Por um segundo temi que Maria fosse tragada pelo golpe, mas ela se jogou para o lado.

O homem-fera recuperou os sentidos tarde demais para se evadir. O vento tragou-o para dentro e retalhou seu corpo, arremessando-o longe. Maria não perdeu tempo e correu em minha direção. Atravessamos a Duque de Caxias e entramos, oficialmente, na Zona Neutra.

Pude ver vários carros pretos parando e demônios de vários tipos descendo e andando até a porta da igreja. Pedi que Maria esperasse um minuto. Vi o fogo nos olhos dos Daemons ao notarem que havíamos saído de seu alcance.

***

Aquele era meu lugar favorito no mundo. O Centro de além-Véu, era um caos organizado. Bares e clubes de todos os gêneros juntavam os mais estranhos e bizarros seres. Ali, sob a lei do Coronel, as diferenças tinham que ser colocadas de lado, o que acabava gerando estranhas alianças. Havia paz, mas alguém podia perder sua vida por um olhar maldado.

Se um não-desperto passar pelo Centro a noite, ele verá ruas vazias, lojas fechadas, mendigos e prostitutas, mas no fim transpira uma certa tranquilidade, quase uma paz. O além-Véu é o oposto disso: fadas multicoloridas voando por todo lugar; mercadores de artefatos chamando sua atenção querendo vender “a arma perfeita para matar orcs, ou mapas para lugares secretos onde tesouros de antigos reis foram esquecidos”; duelos arcanos acontecendo em vários lugares, enchendo as ruas com a pirotecnia dos conjuradores…. E sempre havia alguém precisando de ajuda para se livrar de algum agouro, vampiros, lobisomens ou qualquer outra entidade que ameace sua casa ou sua terra.

Para mim, o Centro era uma grande balada.

Subimos a Major Facundo em direção ao coração daquele lugar, a Praça do Ferreira. Ah, a diversidade imensa da arquitetura daquele lugar… desde pequenos casebres sertanejos, a arranha-céus que sequer existiam na Fortaleza além do véu…

Ao passar pelas ruas, pude sentir vários olhares hostis em nossa direção. A notícia do nosso trabalho de mais cedo parecia ter se espalhado. Andar ali sem meus amigos, alimentou ainda mais meu ódio contra o Velho. Agora tinha certeza, ele não só estava envolvido, como era de alguma forma responsável pelo que aconteceu. Pelo menos ali não seríamos incomodados, sabiam quem eu era.

Andamos em passos largos até a praça, ao chegar nela tomei um grande choque. Estava vazia. Aquele lugar era o ponto principal de reunião da cidade, nunca estava vazia. A captura de Rafael de fato teve um peso.

O que ele representava sempre esteve envolto em mistério, mesmo para nós que estivemos perto. No Centro da praça somente o Obelisco Preto e Branco que mudava de cor com o passar das horas e ocupava o lugar que pertencia ao clássico relógio. Ele estava preto quase até a ponta, ao nascer do Sol ele voltava a clarear e o branco tomava o lugar do preto gradativamente.

O escritório do Velho ficava no topo do prédio do Cinema São Luiz. Aqui dentro do Véu era chamado de Casa Grande. E era exatamente essa aparência que tinha, uma imensa casa de interior, com um alpendre que se estendia de uma ponta a outra do quarteirão. O lugar fazia um contraste imenso com os prédios modernos ao redor.

Os Jagunços Cangaceiros, espíritos oníricos típicos do Nordeste, sequer me deram um segundo olhar quando entrei. Um deles fez menção de impedir Maria, mas mudou de ideia ao ver seus olhos. Entramos na casa cuja a decoração era típica do fim do século dezenove, com mobília de madeira de cedro, muitas janelas e quartos sem porta, as telhas eternamente empoeiradas. Aquele lugar era uma materialização da vontade de meu pai em rememorar seu passado no sertão. Subimos até o segundo andar para o escritório do Velho.

— Bem-vindo de volta Tiago! Está na hora de termos aquela conversa de pai para filho. — disse com um sorriso largo, cheio de malícia.

A ironia do homem fez meu sangue ferver.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.