As gurias

O pai, um italiano gordo, atarracado, flamenguista doente e caçador de perdizes, engravidou a mulher treze vezes.

A mãe, professora, uma italiana magra e vivaz, aguentou a ultima gravidez quase na menopausa.

A prole, quatro rapazes e nove moças. Dos meninos, dois morreram ainda crianças e um já adulto. O terceiro foi ser sargento do exército, para orgulho do velho e estremecimento das mocinhas.

Das nove meninas, uma nasceu anjo, restaram oito.

Na casa de pé direito alto, as garotas cresceram na balbúrdia de uma autêntica família italiana. Muitos quartos, muitos baús de enxoval, muitos empréstimos de blusas e batons, muitos roubos de colares! E namoros, bailes, brigas, noivados e casamentos!

Sob a ótica dos pais, cada uma traçou seu destino: uma casou com “um brasileiro”, uma desfaçatez! Outra casou grávida, uma desgraça! Uma juntou-se a um homem desquitado, uma tragédia! Outra se separou do marido, uma vergonha! Uma apaixonou-se por um artista, uma loucura! Outra só teve filhos homens, uma pena! Uma fez tudo certinho, uma beleza! E a última era uma boneca, uma gracinha!

Muitos anos, discussões e risadas depois, os netos já crescidos, elas ainda se reúnem para relembrar histórias, comer um belíssimo prato de tortéi e para se manterem unidas, agora que estão sem pai nem mãe.

Olham-se desconfiadas, espelhando-se uma na outra a ver se já tem a mesma quantidade de cabelos brancos, as mesmas rugas, o mesmo brilho no olhar.

Ainda são “as gurias”, mesmo que um bisneto, de repente lhes venha bater à porta.

São todas belas, magníficas mulheres, que herdaram a vivacidade e a altivez da mãe, a tenacidade e o orgulho do pai.

Graças a elas, a família multiplicou-se, manteve-se nos trilhos, propagando o sangue e a alegria, a garra e a coragem.

Reunidas, falam alto, dão gargalhadas, relembram a infância e a mocidade, agitam um ambiente sossegado, enchem de vida uma sala vazia. Às vezes se entristecem, uma que outra chora, mas logo já estão a cantar a tarantela e a saborear um doce feito em casa.

Todas cozinheiras de mão cheia, todas prendadas como convém, todas batalhadoras incansáveis, suas vidas são como uma orquestra: um instrumento desafinado e sete lhe caem em cima. Exigentes, querem a melodia perfeita e o arranjo musical nos trincos. Unidas em harmonia, emocionam e encantam.

Na profusão de rostos, tons de pele e cabelos, uma característica única: uma juventude eterna que transparece na energia dos gestos e no caminhar altaneiro.

Neste mundo particular de personalidades diversas, seus companheiros desaparecem, tragados pela presença marcante de quem tem as rédeas na mão.

São as gurias que decidem, resolvem, escolhem, apontam o caminho e dirigem os passos. São as gurias que traçam os destinos.

Sobretudo, são as gurias que mantém tudo em ordem, tudo a seu tempo e tudo bem.

A mais velha é minha mãe, as outras são minhas tias.

Todas meus modelos.

 

** in memoriam:
Minha mãe Suely, tia Odete e tia Ivetinha (o anjo, com Síndrome de Down)

Escritora por vocação, analista de sistemas por profissão, romântica de coração, crítica até no dedão, engraçada em qualquer situação, cabeça minada de preocupação, pés no chão, digna de respeito e consideração, honesta de plantão, quase um animal em extinção e nunca fez lipoaspiração.

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Sara dos Anjos

Escritora por vocação, analista de sistemas por profissão, romântica de coração, crítica até no dedão, engraçada em qualquer situação, cabeça minada de preocupação, pés no chão, digna de respeito e consideração, honesta de plantão, quase um animal em extinção e nunca fez lipoaspiração.

  • Fred Rocha

    Bela crônica, Sara! ^^
    Abraço.

    • Sara dos Anjos

      Muito, muito obrigada, Fred!!

  • Francisco Petrônio

    Sara dos Anjos, que crônica fantástica, enxuta e bem escrita. Não sou crítico literário, nem sei muito de teoria, eu leio mais com o coração do que com a mente, e, seu texto tocou meu coração. Parabéns! Abraços.

    • Sara dos Anjos

      É assim que eu leio também, Chico (e praticamente só sei ler assim)!!! Obrigada demais por ler e comentar!! Um grande abraço, amigo!!

  • Elias Araujo

    Que beleza de crônica, Sara! A força das mulheres! E os homens pensando que eles decidem os destinos do mundo! Não, eles só destroem o mundo e depois vão embora!

    • Sara dos Anjos

      Muito obrigada, Elias! Era assim na minha família italiana!! 🙂 Um abraço carinhoso, amigo!

  • Thiago Noronha

    Adorei 🙂

    • Sara dos Anjos

      Obrigada demais, Thiago!!

  • Iolandinha Pinheiro

    Olá, pequena Sara, você criou um conto ao mesmo tempo envolvente e rápido. Em poucas linhas conseguiu transmitir ao leitor as histórias grandes e pequenas de toda uma geração de mulheres. Na minha família existe também um matriarcado, todas as mulheres têm personalidade fortíssima, tanto pelo lado do meu pai como pelo da minha mãe. Senti uma imediata identificação com seu texto, apesar de vivermos em dois extremos de um mesmo país, as histórias têm pontos em comum. Em resumo, parabéns! Sucesso.

    • Sara dos Anjos

      Amada amiga!!! Adorei que você leu, gostou e ainda por cima comentou!!! Obrigada de montão!!! É muito bom crescer numa família de mulheres fortes, nos dá um orgulho danado, né? Um grande beijo!

      • Iolandinha Pinheiro

        Sim, querida. Um texto excelente e uma história que falou muito ao meu coração.

  • Emerson Braga

    Sara, obrigado pelo presente. Estamos todos gratos. Ao fim da leitura, algo se acendeu aqui dentro de mim.

    • Sara dos Anjos

      Emerson!!! Amigo do coração!!! Obrigada pela leitura e por comentar! Tomara que o que se acendeu tenha sido carinho, ternura, boas lembranças!! Um abraço!