Aniversário de casamento

Na sexta feira, conforme combinaram pela semana, saíram para comemorar mais um aniversário de casamento.

Estavam sentados numa mesa daquele restaurante francês há vinte minutos… E há quinze, pelo menos, não diziam nada. Desde que o garçom ouviu os pedidos e serviu o vinho, eles não abriam suas bocas. Mantinham-se parados, com os cotovelos sobre a mesa e com os olhares distantes. Ele olhando para a entrada, ela para o fundo do restaurante… Um diante do outro. Ambos bem vestidos, cheirosos, e muito bem penteados.

Casaram-se há exatos quinze anos, numa linda cerimônia.

Ele começou a traí-la dois anos depois… Com a secretária. Não conteve o impulso de tirar-lhe com força a calcinha, como ela mesma havia sugerido. “Não faria mal algum, pensou. “Uma farra pequena não afetaria a solidez de um casamento”.

Encontrou-se com a menina pelos três meses que se seguiram, após o expediente, ou até ela misturar as coisas, tomar confiança demais e resolver dar palpites em seus negócios. Foi quando partiu para a estagiária, que lhe abriu as pernas sobre a mesa de trabalho. Nada demais… Para quem tinha por trás de si a certeza de um lar.

A garota engravidou dois meses depois e o aborto foi difícil. Aliás, por ela, teriam tido o filho. Para ciúmes da estagiária, começou a namorar a vendedora de móveis, depois a fisioterapeuta e por fim assumiu um romance verdadeiro com a professora de inglês.

Seu casamento não se abalou… Porém passou a chegar mais tarde em casa e, por vezes, viajar nos finais de semana.  Perdeu um pouco do humor e um tanto da paciência essencial aos maridos.

Talvez tenha ficado mais cansado… E por estar com a cabeça nas nuvens, diminuído certamente a frequência com que procurava a esposa na intimidade.

Mas nessa sexta feira compareceu ao restaurante para comemorar.

Ela começou a traí-lo dois anos e meio depois de se casarem. Não resistiu a cantada selvagem de um motorista de táxi e topou a loucura. Afinal o que significaria uma transa por fora na sólida atmosfera de um casamento?

O taxista, entretanto, confundiu-se um pouco. Talvez tenha exagerado quando começou a espancá-la demais durante os encontros. Muitas vezes ela precisou passar na farmácia antes de regressar ao lar. Foi quando começou a sair com o personal de musculação. Com esse manteve um romance ameno durante um bom tempo… Mas ao flagrá-lo beijando uma menina bem mais nova do que ela, percebeu que seu coração batia forte demais.

Ao se abrir com o professor de informática, encontrou nele todo o apoio que queria. E por gratidão ao rapaz, começou a fazer das aulas particulares, excitantes momentos de carinho.

Seu casamento não se abalou… Porém, passou a chegar tarde em casa e, por vezes, viajar nos finais de semana. Perdeu, de certo, um pouco do humor e um tanto da paciência essencial às esposas.

Talvez tenha ficado mais cansada… E por estar com a cabeça nas nuvens, diminuído certamente a frequência com que procurava o marido na intimidade.

Mas nessa sexta feira, compareceu ao encontro para comemorar.

Quinze anos juntos…

Hoje ela curte um tórrido romance com o caseiro da casa em Angra.

Quanto a ele, está tentando se dividir entre três.

Finalmente, depois de vinte minutos, abriram suas bocas: ele para comer um filé de badejo à belle meunière, Ela para saborear um excelente camarão ao queijo brie.

O que foram comemorar? Nenhum dos dois sabia…

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  • Sara dos Anjos

    Sensacional, Zeca!! Adorei o texto leve e gostoso de ler! Parabéns!

  • Iolandinha Pinheiro

    Que conto legal, amigo! Conheço uma pessoa muito parecida com este teu personagem. Mas acho que todo mundo conhece alguém assim. Adorei. Abraço.

  • Claudia Jeveaux Fim

    Maravilhoso texto! Recheado de sentimentos contraditórios. Muito bem escrito e de fácil entendimento. Parabéns!