Cruz, carma e casamento

Semana passada estive conversando com o Osmar, porteiro da firma. Homem espiritualizado e falante, passou uma tarde me expondo teorias a respeito de carma, vidas passadas, essas coisas. No geral, pude apreender de seu discurso desconjuntando que a gente carrega cruzes de outras reencarnações, umas dívidas que, não encontrando tempo para serem quitadas na vida em que foram contraídas, acabam penduradas para a próxima.

Ele discursando e eu lá, mais cético que bodegueiro cobrando fiado.

O estranho é que nos últimos dias as palavras do Osmar parecem fazer mais e mais sentido. Minha vida tem sido uma comédia de erros bizarra. Só eu tendo jogado pedra em todas as cruzes do Vaticano pra justificar. É um tropeço atrás do outro, o que tem me deixado quase pronto a aceitar essa história de reencarnação. Porém, quanto mais penso a respeito, mais chego à conclusão de que, se carregamos mesmo essas dívidas, não temos lá tantas opções de pagamento. A gente sabe nem o que diabo está pagando.

E, pra mim, se é pra pagar, tem que ser direto na fonte. Como contam na história do anel de noivado.

A história é a seguinte. Os dois namoravam há uns meses. Ele, rapaz sério, queixo quadrado, vinte e poucos, trabalhador, pouco inteligente. Ela, mais inquieta, saindo dos dezoito, começando faculdade de música, família bem de vida. Um estranho casal, como o são todos.

Daí que ele propõe noivado. Sem muito alarde, sem cerimônia, numa lanchonete daquelas que só não podem ser chamadas de boteco de quinta por falta de sinuca. Mesmo assim, tanto por paixão quanto por impulso, ela cuspiu um “sim” junto com o frango da coxinha.

Trocaram alianças três dias depois.

Na semana seguinte, ela aparece na casa dele, cara amarrada.

— Onde você comprou o anel? — perguntou logo de cara.

— Anel? Tá falando da aliança?

Ela fez que sim com a cabeça, gravemente.

— Pertencia à minha avó. Deixou pra mim.

— Você não tinha me dito isso.

— Bem…

— Já colocou no dedo alguma vez?

— Claro que não.

— E por que não comprou logo uma aliança nova?

Ele esfregou a nuca, embaraçado. Andava com pouco dinheiro.

— Até pesquisei — mentiu. —Não achei nenhuma realmente bonita. E essa tem valor sentimental, é de ouro vinte e quatro quilates e..

— Esse anel é mágico.

Ele piscou.

— É… é mágico, mesmo.

— Você não entendeu — ela o agarrou pelos ombros. — O anel me permite acessar memórias de vidas passadas.

— Tá inspirada hoje, hein?

— Estou falando sério — e estava mesmo. — Desde que comecei a usar o anel, passei a ter lampejos de memórias de minhas outras encarnações. No começo eram só flashes, sonhos. Depois a coisa foi ficando mais real.

E essa agora! Ela não era espírita, não que ele soubesse. Aliás, não era nada religiosa, recusava-se até a acompanhá-lo às missas. Sempre a achara mais descrente que telespectador de propaganda eleitoral. Por isso mesmo, sentiu-se um tanto perdido com a situação.

— Me deixa adivinhar: você foi a Cleópatra.

Ela negou com a cabeça, sem parecer ofendida com a pilhéria.

— Minhas memórias mais antigas são do Medievo Europeu.

— Medievo?

— Fui queimada na fogueira.

Com essa, o impacto inicial passou, e ele começou a ficar preocupado. Enlaçou-a suavemente e a encaminhou para o sofá.

— Vou pegar um copo d’água pra você esfriar a cabeça.

Ela olhou fixamente para o anel no dedo.

— Não quero.

— Benzinho — abaixou-se à frente dela, ar compreensivo. — Você está nervosa. Eu sei que é muita pressão…

— Estou mais calma que nunca. Agora tenho um entendimento mais completo de nossa experiência terrena.

— Certo, certo. E que tal descansar um pouco?

— Olha aqui, esse anel é mágico e pronto. Lembro de coisas que vivi em outras eras, em outros anos, de sentimentos e tudo mais. E sei muita coisa. Muita mesmo.

Disse isso e contou um segredo da família paterna dele que era tabu absoluto. Nenhum parente jamais falara daquilo com mais ninguém. Ele tampouco. Muito menos com ela.

— Como você…? Quem…?

— Eu fui o homem por quem seu avô se apaixonou.

O pai de seu pai largou vovó Esmeraldina tão logo a engravidara. Dizem que se enamorou de um marinheiro e deu no pé. Mas não demorou para a rejeitada Esmeraldina saber dele: numa viagem de carro, o feliz casal atropelou um cavalo e morreu na hora. Deu até manchete no matutino: marinheiro e “amigo” (aspas propositais) se aventuram em terra firme e acabam vítimas em fatal colisão com animal.

— E é por isso que não dá pra gente continuar com isso.

— Com isso o quê? — ele estava desnorteado.

— Com isso: o noivado, a gente.

Ele, que já estava quase acreditando naquela loucura, tomou as mãos dela entre as suas.

— Não tem problema, meu amor. Eu não ligo se você foi homem em outra vida, nem que você tenha roubado o marido de vovó. Não me sinto mal com isso.

— Você não entende — ela respondeu, emburrada.

— Então qual é o problema?

— É que você era o filho da puta do cavalo!


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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  • Sara dos Anjos

    hahahaha Amei a história (adoraria ter um anel destes)!!! Desfecho perfeito!!! Grande Moacir!! Parabéns!!

  • Angela Cristina

    Maravilha!
    Parabéns!