O Pacto das Trevas: Fortaleza – Parte 2

Leia aqui a Parte I


A Caixa

Um caso cada vez mais comum de ressaca amanhecia no número 117 da rua Adrianisia, no Jacarecanga. Era uma sexta-feira como qualquer outra em Fortaleza, mas para Miguel a sinfonia de barulhos da cidade era como uma eternidade no inferno.

A luz da manhã parecia como pequenas adagas afiadas. A cabeça girava e pesava, e a boca tinha gosto de necrotério.

Sentou-se na cama e desejou morrer.

Após cinco minutos de puro desespero lutando contra o vômito que lhe subia a garganta, levantou. Com passos pesados, seguiu até o banheiro. Somente lá, ajoelhado diante da privada, vomitou o vazio do estômago.

Sentiu-se melhor – embora não muito – e voltou para a cama.

Estava quase dormindo de novo quando ouviu os latidos de Brum e, em seguida, o tão conhecido grito do carteiro.

— Que maravilha — ele disse. Levantou e sentiu o mundo pesar  inteiro na cabeça. — Já vou!

Abriu a porta da sala abriu e aprendeu pelos olhos que havia vários níveis de dor, e que o vômito era uma substância com potencial infinito.

— Você está bem, cara? — perguntou Adriano, a farda amarela e azul brilhando fosforescentes sob o sol da manhã.

— Ressaca — disse Miguel, limpando o canto da boca. — Tem alguma coisa aí para mim?

— Tenho. Ei, o monstro tá maior, cara!  — disse o carteiro, apontando para Brum. — O que tem dado pra ele?

O cachorro latiu, mostrando os dentes para Adriano.

— Carne de carteiro. Ei, Brum, já para casa!

O rotweiller latiu mais uma vez e seguiu para a casinha de madeira, deitando com as patas dianteiras cruzadas e a língua de fora.

— Credo, isso é um urso — disse o carteiro, abrindo as portas da camioneta amarela. — Ei, o que tenho aqui é uma caixa, cara. Comprou o que esses dias? Mais livros?

— Não — disse Miguel, apanhando o embrulho. — Não comprei nada. Isso é surpresa. E eu odeio surpresas.

Miguel colocou a caixa de papelão sobre o muro baixo e fez uma careta. Era de seu pai.

— Coisa ruim ou coisa boa?

— Coisa ruim, com certeza. Mas obrigado mesmo assim — disse, e estendeu a mão para o carteiro, que a apertou.

— Vamos bater uma bolinha amanhã, na quadra?

Miguel olhava para Adriano como se não houvesse ninguém ali. O que o pai queria, depois de tanto tempo? Estava tudo tão em paz sem ele. Ou sem a lembrança dele.

— Ei, Miguel, cara, futebol, amanhã à noite… vamos ou não?

— Ah, não sei, cara. Qualquer coisa apareço. Desculpa, tenho que ver isso logo. A gente se fala, certo?

— Beleza, cara. Fica bem aí, e cuidado com essas bebedeiras.

Adriano deu partida na camioneta e saiu. Brum veio parar a seu lado, a língua de fora, silencioso e em guarda.

— Vindo de meu pai, Brum, nunca é coisa boa. Vai para casa, vou entrar. Preciso de café antes de mexer nisso aqui.

*

A casa rosa na rua Adrianisia obedecia ao estilo de casas antigas de Fortaleza, com o muro baixo e fachada poligonal, linhas suaves correndo alguns centímetros sob as bordas. Dava a sensação boa de um passado bem vivido, que resistia à passagem do tempo e aos prédios que desfiguravam a cidade. Duas janelas pequenas e brancas ladeavam uma porta estreita, que se abria em duas, cheia de persianas.

Lá dentro, na sala de estar, a caixa repousava na mesa de centro de cana-da-índia, diante de um sofá do mesmo material. No geral, a decoração da casa era simples, típica de um solteiro indiferente e vazio. Um balcão americano separava a sala da cozinha, que contava com um fogão, uma geladeira e um forno de micro-ondas, todos brancos.

Havia dois quartos: aquele em que Miguel dormia, e o outro que ele usava como escritório. Três estantes de madeira tomavam conta do aposento, cheias de livros, revistas e alguns discos antigos, herança de seu pai.

Miguel absorvia o cheiro de livros antigos e novos, fortalecendo-se. Tinha o pressentimento que, se abrisse aquela caixa, daria passagem em sua vida a um mundo que não queria conhecer. Sofrera demais para deixar o pai no passado, num quase ensaio de perdão ou esquecimento. Não queria abrir aquela passagem de novo, encarar o sofrimento que rondava sua mente toda noite antes de dormir, e que às vezes nem a bebida ajudava a adormecer. Resolveu adiar mais um pouco aquele embate. Precisava clarear a cabeça.

*

O relógio marcava dez da manhã quando saiu do banheiro, os cabelos e a barba úmidos. Olhou-se, só de toalha, no grande espelho do quarto, e não gostou do que viu. Trinta e quatro anos, flácido, pálido, fora de forma. Parecia ter mais de quarenta.

— Mãe, pai, olhem em que me tornei — disse para seu reflexo, e sorriu, mas o que lhe retribuiu foi uma carranca pálida, com olheiras, rugas e entradas pronunciadas na testa.

Vestiu-se e foi para a cozinha. Em pouco tempo tomava café com tapioca, lembrando da avó, que lhe ensinara a fazer.

— Comida rápida e saudável — dizia ela. — Nada melhor para alguém preguiçoso como você.

Sorriu. Será que sua mãe seria parecida com ela, se estivesse viva?

Sentiu o vazio crescer em seu peito, e subir como um redemoinho em direção à sua cabeça. Nesses momentos, a escuridão era sua única companhia.

E o álcool.

Pegou a vodca que estava sobre a geladeira e bebeu direto da garrafa. O gosto de café misturou-se ao da bebida.

Talvez o inferno tenha este gosto.

Sentiu-se relaxar após o terceiro gole. Colocou a garrafa sobre a geladeira e, enfim, voltou para a sala.

Para a caixa.

*

Papelão comum, com fita adesiva dos Correios nas aberturas. Na etiqueta de postagem, o nome do pai e o endereço da agência na Duque de Caxias. Mas havia algo estranho ali.

“Postado em: 09/07/1990”.

Mas como? A caixa estava como nova! E aquela data…

Tentou rasgar a caixa, mas não conseguiu. Pegou uma faca na cozinha e cortou a fita com alguma dificuldade. Um último pedaço, porém, não queria ceder, e Miguel teve de usar mais força. Quando conseguiu cortá-la, perdeu o controle sobre a faca e abriu um talho em sua mão esquerda.

— Mas que p…

A caixa e a mesa ficaram pintadas de sangue. Foi praguejando até o banheiro, colocou a mão sob a torneira ligada e lavou o ferimento. Depois disso, usou uma toalha para estancar o sangramento.

Quando viu que o sangramento havia quase parado, fez a limpeza e colocou um curativo improvisado com gaze e esparadrapo. Depois, engoliu um comprimido para dor com um generoso gole de vodca.

Voltou para a sala e encontrou a caixa aberta.

— Mas como? Estava fechada quando eu saí!

Devia ser a bebida, já adormecendo seus pensamentos. Sentou-se, a mão latejando, e começou a examinar o conteúdo. Por via das dúvidas, trouxe a vodca para a mesa.

Uma maleta preta de couro, um envelope de papel madeira e um relógio de pulso prateado que pesava em sua mão, parecendo valioso. Colocou-o sobre a mesa.

A maleta de couro, apesar de antiga, estava muito bem conservada. Aproximou-a do rosto e sentiu os cheiros de couro e do perfume que seu pai usava. Tristeza, raiva e saudade se misturaram em seu peito, e por pouco não chorou.

Pousou a maleta a seu lado no sofá, e pegou o envelope de dentro da caixa, abrindo-o.

Um álbum de fotografias e uma carta.

As fotos eram, apesar de antigas, nítidas. Miguel ainda bebê, tomando banho em uma banheira de alumínio; sua mãe dando-lhe de mamar, ou estendendo fraldas no varal. Supondo que fora seu pai quem tirara as fotos, não podia deixar de reconhecer que ele tinha algum talento.

Numa das fotos mais recentes, estavam ele, seu pai e sua mãe sentados no muro da casa rosa: eles dois fumando, Miguel, com uns cinco anos de idade, com um copo de refrigerante na mão.

Ela estava linda, a pele clara e os olhos verdes brilhando; o pai, barbado e sombrio, sorria com a boca, mas não com os olhos. Miguel parecia estar em qualquer outro lugar, menos ali, absorvido com algo que passava.

A última foto fora tirada à distância, com o zoom da máquina borrando a imagem. Miguel tinha quinze ou dezesseis anos, e estava numa parada de ônibus usando a farda do Liceu do Ceará, magro, escuro e ossudo – como o pai. Parecia infeliz.

Nessa época, ele estava infeliz todos os dias.

Jogou o álbum sobre a mesa e pegou a carta. Escrita à mão, letra caprichada e equilibrada. Nem parecia que havia sido escrita de dentro de um hospício.

Fortaleza, 09 de Julho de 1990.

“Miguel, se você está lendo isto, eu já estou morto.

Ele sabia capturar a atenção. Dramático, meio exagerado, mas…

E sei que você não vai lamentar, pois somos muito parecidos. Eu já não fazia mais parte de sua vida, e sei que não era parte de suas preocupações, nem de suas orações. Sei também que você não precisa do meu perdão, mas talvez eu precise do seu.

Não sei que idade tem agora, pois não posso prever quanto tempo ainda vou conseguir ficar vivo antes que eles venham a mim… mas espero sinceramente que já seja maduro o suficiente para encarar o que escrevo não como delírios de um louco, mas como fatos vistos e vividos.

 É algo que um louco diria. Havia coerência na irracionalidade, também.

 Talvez sua primeira reação seja duvidar do vou dizer, mas tenho algumas provas que vão me ajudar a fazer com que acredites em mim. A primeira: pergunte a sua avó pelas cartas que lhe escrevi durante todos estes anos, Ela as têm, mas não lhe entregará se você não pedir. Acredito que ela não tenha me perdoado pelo que houve com sua mãe, mas paciência. Nem eu me perdoei ainda.

 Cartas? A avó nunca dissera nada sobre isso.

 A segunda prova são as fotos. Nós já fomos uma família feliz. E eu sinto muito por tudo.

 O vazio no peito de Miguel dizia que ele falhara. Não houve comoção.

 “Sei que até agora não consegui te impressionar, mas a terceira prova vai aguçar sua curiosidade. Ela vai acontecer assim que você terminar de ler. Tenha paciência comigo.

Não tomei remédios durante uma semana para escrever o mais lúcido que conseguisse. Acho que estão desconfiando de mim, pois ouvi o doutor dizendo que toda a minha medicação deveria ser, a partir da noite de hoje, injetável.

Filho, eu tive culpa no que aconteceu com sua mãe, mas não do jeito que você pensa. Não como te disseram. Você vai entender melhor no futuro, quando começar a explorar o que deixei na pasta. Quando começar a ver que o que aconteceu – que acontece! – não é loucura. Acredite-me, eu preferia mil vezes estar louco.

Sinto muito por não estar presente quando você precisou, mas eu te amo. Sempre te amei. Espero que possa me perdoar algum dia, quando começar a ver e a compreender. Eu não quis que as coisas fossem assim, mas elas aconteceram e eu tive de reagir. Nunca fui de ficar esperando se pudesse evitar.

Sei que sua mãe, esteja onde estiver, ama e protege você. Espero poder encontra-la um dia e pedir perdão por tudo.

Com amor,

João Miguel Antunes.

P.S.: Atenda a porta.”

Foi então que houve  três batidas secas na porta.

“As coisas ruins vêm em três”, o pai costumava dizer.

— Droga — disse ele, e levantou para atender.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Sara dos Anjos

    Que texto maravilhosamente bem escrito!! Ficou um gosto muito forte de “quero mais”!!! Quando, quando????

    • Michel Euclides

      Sara, sua gentileza me encanta! Semana que vem tem mais!

  • Claudia Jeveaux Fim

    Texto muito envolvente e inteligente! Adorei! Parabéns, Michel!

    • Michel Euclides

      Obrigado pela gentileza, Cláudia! E grato pela leitura!

  • Ju Ferraz

    tô gostando muito. Estimulante. Parabéns!

    • Michel Euclides

      Opa! Obrigado pela leitura! É um prazer escrever e ser lido por gente boa!

  • Nay Chan

    Gente eu demorei pra ler esse mas muito bom!