O início e o fim (A Última Noite – Parte IV)

Continuando minha novela de fantasia urbana! 

Confira a Parte 1 – A Essência

Confira a parte 2 – O Velho e os Olhos

Confira a parte 3 – Caça e caçador


O início e o fim

— Como você ousa lançar esse sorriso cínico para mim? — disse Tiago, furioso. A postura condescendente do homem me enojava.

— Não venha agir feito criança aqui! — disse o Velho, o sorriso transformado numa máscara de ódio. — Você não sabe metade da história. Do peso que carrego para manter essa droga de lugar sob controle.

Foi a primeira vez que notei a semelhança entre pai e filho.

Era difícil me concentrar naquela sala, a mente tragada para um turbilhão de memórias alheias. Eu sentia vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Havia algo de muito errado comigo. E eu sabia o que era, mas me recusava a aceitar.

— Que porra foi aquela que aconteceu no posto dos Daemons? Como um milhão de diabretes surgiram do nada? Eles sabiam que a gente estava indo para lá?

— Sim. — disse o Velho.

— Você avisou que nosso objetivo era roubar a essência?

— Sim.

— A ideia era que todos morrêssemos lá, não é? – continuou Tiago, como quem mexesse numa ferida.

— Sim. — O velho respondia às perguntas de Tiago com a serenidade de quem informava as horas.

— Seu próprio filho? — perguntou Tiago, a tristeza agora mais aparente que o ódio.

— Um sacrifício necessário, por mais que me custe.

Não havia emoção nas respostas dele.

— Por que?

O ancião parou, e por alguns segundos refletiu. Ponderou como quem mede as próximas palavras que vai dizer.

— Sempre me considerei um homem justo. Você ganhou direito de conhecer a verdade por sobreviver ao inferno no qual te coloquei. Mas saiba, que o contarei a você agora é um segredo, um conhecimento sagrado que pertence a poucos e assim deve permanecer. Não hesitarei em tomar suas vidas, caso violem esse segredo.

Assentimos em silêncio, tomados pela curiosidade.

O Velho mudou de postura, assumiu um ar contemplativo, quase ritualístico. Depois, começou.

“Além da terra e seu véu existem cinco mundos: O Hades, a terra dos mortos, para onde viaja um fragmento da essência de todos os seres que morrem; Oníria, que é criado através imaginação e dos sonhos de todos que vivem; o Infernum, lar dos Daemons, um lugar de dor, sofrimento e ódio criado exatamente por esses mesmos elementos; Angelicae, o lar dos Halus, seres de justiça e bondade; e, por fim, o Arcanum, o inacessível mundo primordial. Acredita-se que todas as essências surgem nesse lugar.

“Ora, durante muito tempo, o trânsito entre os mundos era livre. Porém, de algum lugar em Arcanum surgiu uma essência nova e diferente, que deu origem a nós, humanos, seres complexos de potencialidade infinita.

“Em apenas alguns milhares de anos desenvolvemos nossa cognição, coisa que outras entidades demoraram eras para conseguir. Foi então o desequilíbrio começou. Os Halus foram os primeiros a intervir, acreditando que sua elevação espiritual e seus conceitos seriam fundamentais para nós. Foram recebidos como deuses e adorados. Porém, na essência do homem está o erro, e os filhos dos Angelicae abominavam isso, punindo com violência os fracassos. Todo o sofrimento resultante, a dor e ódio instigaram o interesse e abriram as portas para os Daemons.

“Foi então que houve guerra.

“Por séculos a luta durou. Os homens foram tragados para o conflito, alimentando os dois lados com sua essência. Era uma guerra fadada a eternidade, e que por uma se estendeu, moldando o caráter e a essência dos homens, impulsionando sua potencialidade ao limite.

“E então, algo interferiu, selando as as passagens entre os mundos e o acesso aos homens.

“Este conhecimento foi dado aos sábios da humanidade. Cinco selos, para cinco sábios, e cinco chaves para rompê-los quando a humanidade estivesse pronta.

Por eras esse conhecimento permaneceu em círculos restritos, seitas e grupos secretos. Quando um dos selos morria, a essência reencarnava. Mas a curiosidade do homem é implacável, e pactos começaram a ser feitos. Seres de outros mundos eram trazidas ao nosso. E no fim o mundo dos homens virou um ponto de confluência. Não demorou que seres de outros mundos descobrissem sobre os Selos e passassem a caçá-los a fim de romper as barreiras criadas.

“Um Pacto foi feito: onde quer que um Selo nasça, o líder faria de tudo para protegê-lo. Por fim, o Véu foi criado para dificultar o acesso ao mundo dos homens e proteger aqueles que desconhecem os mistérios dos mundos”.

Ficamos ali parados, digerindo toda aquela informação. Durante toda a história, as palavras eram gatilhos de memória, como se de alguma forma tivesse eu vivido algumas daquelas coisas. Quis acreditar que era pelo modo do Velho de contar, mas eu sentia que havia outras pessoas dentro de mim. O que esse Vazio havia sugado?

— Como nós nunca ouvimos essa história? Parece mais uma grande mentira elaborada.

— Quanto mais pessoas conhecerem a narrativa, em maior risco estão os Selos. Vocês zombam dos Adormecidos, mas sabem pouco sobre a realidade. São míopes em um mundo de cegos.

— Então ele não era o escolhido, destinado a salvar o mundo, ou algo do tipo?

— Não. Aquela era apenas uma mentira necessária, para ajudar a criar ascetismo daqueles que tem que protegê-lo. Funcionou em você e seus amigos.

— Se sua obrigação era proteger Rafael, por que o entregou? — perguntou Tiago, engolindo a raiva como podia.

— Para fugir da obrigação. — Eu disse, antecipando-me ao Velho.

— Aquele rapaz era incontrolável, moça. Os selos devem levar uma vida ascética, longe do mundo. Ele nunca aceitou isso, era ousado e perigoso. Se ele morresse a essência reencarnaria em outro e eu estaria livre dessa obrigação terrível. Não queria ele capturado. Eu o queria morto.

— Pensei muitas coisas sobre você, Velho, mas nunca que fosse um covarde.

— Quem és tu para falar de coragem, menino? Você sabe o que construí nesse lugar? Procure saber quantos Xamãs, Jarls, Príncipes ou Presidentes colocaram Halos, Daemons e Oníricos sentados numa mesma mesa. Eu, Coronel Francisco Tibúrcio, fiz isso. Fortaleza é um exemplo para todos! Aqui temos Equilíbrio, e é tudo por minha causa!

— E por isso você sacrificaria todos nós.

— Sim. E só não ofereci mais porque não tinha! Aquele garoto atraiu coisas estranhas para cá, inclusive Caçadores do Selo, malditos sejam! Fiz o que fiz pelo Equilíbrio, e não me arrependo.

— Você é patético, Velho. – disse Tiago.

— Nem para morrer aquele rapaz serve! — disse o Velho, com uma risada descontrolada.

— Então Rafael vive? — perguntei.

— Sim. Algum traidor vendeu a informação de que um de vocês era um dos Selos perdidos. Agora todo o equilíbrio que lutei para conquistar acabou. Os Daemons tem o maior produto de barganha que poderia existir.

Toda aquela discussão fortalecia o que quer que estivesse dentro de mim querendo sair. Eu sentia dor e prazer, frio e calor.

— Precisamos resgatá-lo! — eu disse.

— Eu quero mais é que aquele bosta se exploda.

— Quando os outros Líderes descobrirem o seu erro, não importa o que construiu aqui. Você será punido! — disse Tiago.

— Deixem tentarem.

— E se usarem Rafael para quebrar o Selo e abrir nosso mundo para os Daemons? – Perguntei ao Velho, que agora parecia um louco, os cabelos assanhados, os cantos da boca cheios de cuspe.

— É impossível sem a Chave. E como ninguém sabem qual selo abre qual mundo, eles não se arriscariam a libertar os Halus. O pior que pode acontecer fazerem experiências com o garoto. E eu espero que ele sofra bastante, por todo o estresse que passei nesses anos todos. – Respondeu o Velho, rindo ensandecido.

Tiago silenciou a gargalhada com um direto na boca.

— Como ousa me bater, garoto? Já entreguei sua vida antes, não pense que não posso tomá-la novamente!

Algo cresceu dentro de mim, uma força que não pude controlar. Vi mortes, ouvi gritos, eu adorava. Uma criança, a sua alma é deliciosa, elas são puras. Quero roubar vidas, roubar todas as vidas. Um velho e um jovem, pai e filho… Quanto ódio entre eles! Preciso disso em mim!

Tudo escureceu.

***

Maria atacou meu pai num salto, as mãos envolvendo seu pescoço.

— Socorro, Guardas! — gritou o velho, mas suas forças se esvaíram quando ela o olhou nos olhos.

Eu não sabia o que fazer.

— Pare Maria — eu disse, pondo a mão em seu ombro. — Precisamos dele para encontrar Rafael!

Ela soltou meu pai e agarrou meu pescoço. Se ela colocasse um pouco mais de força ali, quebraria minha traqueia. Eu via a vida sendo sugada do Velho, e soube que eu era o próximo.

— Maria… olhe para mim…. — puxei seu rosto em minha direção e quando aqueles olhos encontraram os meus, senti meu corpo desfalecer.

— Você está me matando, Maria…

Não sei se essas palavras saiam da minha boca ou mente, tudo estava nublado, a escuridão se misturando a uma cacofonia de dor e grito.

Me vi num mundo vazio, não era capaz distinguir muita coisa. Quando consegui enxergar, vi Maria cercada, dentro de turbilhão de seres bizarras, figuras disformes flutuavam ao seu redor, sussurravam em seu ouvido, tocavam em sua pele. Estava no chão, tapava os ouvidos e gritava. Andei em sua direção, cruzando as figuras malditas, me abaixei e abracei-a.

— Vai ficar tudo bem! Olhe para mim!

— Eu não quero te olhar com esses olhos malditos!

— Olhe para mim, eu garanto que está tudo bem!

Ela levantou a cabeça, o rosto úmido. Lentamente, abriu os olhos. E lá estavam seus lindos olhos castanhos.
Sentia minha vida se esvaindo, como se escapasse pelos poros como suor, mas precisava ajudá-la.

— Viu, está tudo bem — eu disse. — eu queria dizer uma coisa, antes do fim: Eu te amo!

Pude ouvir um grito ao longe, isso me despertou. Quando dei por mim, Maria estava de joelhos, enquanto os homens de meu pai tentavam contê-la. O Velho também estava no chão, e seu corpo se contorcia.

— Tirem suas mãos dela! — Gritei, me recompondo e sacando minha espada.

— Matem agora essa criatura maldita! Eu vi a mente dela, ela não é mais humana! — gritou o Velho para os homens.

Eu vi os homens sacarem suas armas e cercarem Maria, que estava indefesa, preparando-se para o golpe derradeiro. Corri na direção dela, disposto a protegê-la com meu corpo. Quando estava me aproximando, fui lançado para trás por uma poderosa rajada de vento e bati minha cabeça na parede.

Minha visão ficou turva. Através da névoa da quase inconsciência, eu o vi.

Um enorme demônio alado surgiu no meio da sala, as asas como lâminas decepando os guardas. Ele pousou e pegou Maria nos braços. Ele me olhou deitado no chão e disse com um sorriso:

— Vamos amigo, precisamos conversar.

Então tudo escureceu numa sensação familiar.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Wilson Júnior

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

  • Sara dos Anjos

    WOW!!! Está ficando cada vez mais interessante!!! Agora tô louca para saber quem é este demônio!!! Não demora muito pra nos contar!! Estou gostando demais deste gênero completamente novo para mim!! Parabéns!!