10ª carta

16 de novembro de 1969

Dona Dinda,

                      A senhora sabe jogar paciência? Não, não é uma metáfora. Há uma semana ganhei um baralho do cabo Ioiô, o mesmo militar que em outra oportunidade me presenteou com uma revista. Agrado de seu pai, disse-me estendendo o maço de cartas com uma mulher nua estampada nos versos. Ele sempre está ali fora, o cabo, guardando minha cela. Talvez eu tenha me tornado precioso demais para morrer pelas mãos de um soldado ou de um companheiro de luta. Não sei. Engraçado como nos últimos dias venho criando simpatia por esse homem que pouco fala, mas que não me olha como se eu fosse repulsivo. Ele não me despreza. Às vezes, sem perceber, sorri para mim ao me trazer comida. Sinto como se o amasse. Talvez o ame. Aqui dentro, o amor alimenta-se de coisinhas belas e insignificantes e, como qualquer encarcerado, sobrevive com o pouco que tem.

Então, dona Dinda. Falávamos sobre o baralho que ganhei. A mãe sempre dizia que o carteado era o passatempo do diabo, lembra? Ah, como o capeta vem me fazendo contente! Quando consigo mover todas as cartas, sinto uma felicidade fenomenal. E, mesmo quando não atinjo o objetivo, espalho o baralho invertido sobre o chão e imagino muitos outros rostos para a mesma mulher retratada. Trata-se de uma distração sobre a qual a mãe não precisa saber dos detalhes.

No hospício deve haver uma sala de terapia ocupacional. Experimente uma partida de paciência. O jogo funciona da seguinte forma: com um baralho completo, fazemos um montinho com 7 cartas viradas pra baixo, depois outro com apenas seis cartas colocado à esquerda do primeiro monte, e assim sucessivamente até restar uma única carta virada. O que sobrar do baralho deve ser utilizado como monte de compra. A partir daí, devemos organizar blocos, em ordem crescente, de Às a Rei, alternando as cartas pretas e vermelhas. Se conseguirmos formar quatro pilhas de cartas sequenciadas, uma para cada naipe, ganhamos o jogo. Entendeu? Não! Sei que não entendeu nada. Quase posso vê-la com a mão sob o queixo, balançando a cabeça de um lado para o outro. É uma visão divertida.

Mãe, de ontem para hoje, durante a madrugada, o cabo Ioiô trouxe um de meus amigos até minha cela. Eu deveria ter ficado feliz ao ver um rosto conhecido, mas meu instinto de sobrevivência fez com que eu me acuasse em um canto de parede quando a porta da cela foi novamente trancada.

Ouvi dizer que você tem jogado muito, disse-me o Tadeu com uma expressão intraduzível desenhada em seu rosto. Sem dizer palavra, retirei as cartas de meu bolso e, ao vê-las, ele sentou-se de pernas cruzadas como se me convidasse para jogar. Mesmo desconfiado, não resisti ao seu chamado. Acomodei-me embaralhando as cartas demoradamente a fim de não encará-lo. De repente, estávamos jogando 21. Eu mal conseguia me concentrar, pensava o tempo inteiro que Tadeu estava ali para vingar a morte do Luquinha. Senti-me traído pelo cabo Ioiô e sua condescendência. Um falso, pensei.

Mãe, no meio do jogo o Tadeu garantiu-me que muito em breve ele, o Clodoaldo, o Paulo Rabeca e eu iremos sair daqui. Disse isso em voz alta, sem se importar com a sentinela do outro lado da grade. Falou que eu deverei admitir muitas coisas das quais serei acusado dentro de algumas semanas. Também me instruiu para que eu retire as falsas acusações feitas por meu pai contra o Lira, o Peçanha e o Beberibe. É o único modo, é o único modo, sabemos que você nunca nos traiu, repetia enquanto dava as cartas.

Antes de ir embora, Tadeu me abraçou com força e pediu que eu confiasse nele, garantindo-me uma explicação para quando estivermos livres. Ao passar pela grade da cela, ele e Ioiô trocaram olhares que somente correligionários dirigem um ao outro. O que há, mãe? Por que me pedem coragem para virar a próxima carta sem que eu conheça as regras do jogo? Tudo em que eu quero acreditar é que meus amigos acreditam na minha lealdade e que, juntos, sairemos deste inferno. Espero ter a oportunidade de atirar contra a cabeça do major Paulo Campos antes de eu atravessar estes muros. Não chore. Eu ficarei bem. Não há como eu me tornar órfão pela morte de um pai que nunca tive.

Eu vou te buscar aí, mãe. Por favor, esteja sã.

De seu menino torto,

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

  • Sara dos Anjos

    Ai, Emerson! Que tristeza! Estou esperando uma traição dos companheiros dele agora (esse Tadeu… não sei…)… Vai ficar sozinho,,, Será que é isso? Eu quero muito ler uma reviravolta, uma esperança… mas sei que naquela época reviravoltas eram impossíveis… Pena que as cartas demoram tanto…

    • Emerson Braga

      A história de Carlos José Fernandes está apenas começando… Muito bom ver você sempre por aqui, viu? Abraços!