A sábia menina e a peixa

Ela canta alto pela casa, sua voz preenche espaços, ouvidos, vida. Ela canta apesar dos barulhos, de eu estar concentrada nas revisões, dos silêncios. Sophia se apropria de todos os lugares porque ela é pura luz.

Há uma semana eu lhe presenteei com uma peixa que ela nomeou Dory por motivos óbvios. Acho que nunca vi minha filha tão feliz em toda a sua breve existência. Sophia era só sorrisos e olhinhos brilhantes. Assisti extasiada ao seu encantamento pelo primeiro animalzinho, a peixa rosa e miúda. E contrariando a obviedade que é se achar sem graça ter um ser nadante em um aquário, Sophia tornou tudo especial, conversando e lendo histórias pra Dory, além de abraçar suavemente o aquário todos os dias ao acordar e, claro, cantar pra ela. Era notório o entendimento de ambas. Ao ouvir a voz de Sophia, Dory nadava rapidamente, dando voltas e cambalhotas pelo aquário. Eu ficava sentindo aquele calorzinho no coração ao assistir cada cena de afeto… Impossível não se emocionar com a sensibilidade da pequena!

Hoje a Dory morreu. Eu notei antes da Sophia, e antes que ela saísse pra tomar banho de piscina, algo que ela adora. Deixei-a ir sem que soubesse do ocorrido e segurei as lágrimas até que ela tivesse entrado no carro. Só aí eu chorei. Eu chorei porque eu sabia que a minha filha linda, sensível, de coração puro e afeto transbordante ia sofrer a primeira perda de sua vida, a morte de um ser que ela já amava e que preenchia seu dia, sua visão, sua voz.

Sophia chegou pouco depois das 14h e eu a esperava na porta. Levei-a pro meu quarto, perguntei-lhe sobre o passeio, deixei que me contasse tudo com sua típica alegria e esperei um pouco. Contei-lhe lenta e calmamente que quando fui colocar comida, sua peixinha não estava se movendo. E que ela estava morta. Ela me olhou atônita e disse “mamãe, você tá brincando, né?”. Eu disse que infelizmente não. Ela começou a chorar copiosamente, me perguntando porque isso havia acontecido justamente com a peixa dela. Entre lágrimas que insistiam em cair do meu rosto, disse-lhe que eu não sabia, que a morte acontecia por razões misteriosas, em momentos que não podemos prever ou entender, mas que ela podia contar comigo. Ela me abraçou apertado e eu pude sentir toda a sua dor, uma tão conhecida dor… Outras perguntas vieram e eu tentei responder da melhor maneira, até ter que lhe confessar que não, eu não tinha todas as respostas, mesmo sendo uma mãe (pra ela, as mães sabem de tudo).

Ela chorou mais de meia hora sem parar, e em mim um desespero de não saber exatamente o que fazer ou o que dizer, então a abracei bastante, pra ela jamais se sentir sozinha nesse mundo, apesar das dores, das perdas, da vida. Ela olhou bem dentro dos meus olhos e disse: “mamãe, meu coração está quebrado em milhões de pedacinhos que se espalham dentro de mim, por isso todo o meu corpo está triste”. Nessa hora, compreendi que meu abraço, infelizmente, não cura tudo, não cura o que dói por dentro, mas permanecemos nesse grande enlace até ela dormir.

Amanhã eu enterrarei a peixa enquanto ela estiver na escola, mas ela disse que quando voltar pra casa vai colocar uma plaquinha no local dizendo: “Dory, eu sempre vou te amar”. E pouco antes de adormecer, me disse “agora meu irmão vai cuidar dela, e eu sei que vai cuidar bem, porque ele me ama. Vou pedir pra ele pintar a cauda dela de vermelho, acho que ela vai ficar ainda mais linda”.

Quanto a mim, pintarei seus dias com cores ainda mais vibrantes pra que sua dor não se demore.

Natural de Limoeiro do Norte – CE, nascida em 1982. Aos 15 anos, em 1998, fez e publicou informalmente o livreto Ocasos durante uma feira cultural em sua escola. Aos 18, em 2000, ganhou o primeiro lugar numa seleção de poesia em sua cidade natal, resultando na obra Limoeiro em Verso. Formada em Letras Português/Inglês pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), é revisora de textos, tendo revisado livros de autores como Ana Miranda, Mauricio de Sousa, Jorge Pieiro, Sânzio de Azevedo, Fernanda Coutinho, Raymundo Netto, Carlos Vazconcelos, dentre outros. Lançou seu primeiro livro, “Mil borboletas no estômago” (poesia), no final de 2014. Reside há 5 anos em Fortaleza – CE, e atualmente está organizando seu segundo livro, uma parceria com Sophia, sua filha de 9 anos.

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Milena Bandeira

Natural de Limoeiro do Norte - CE, nascida em 1982. Aos 15 anos, em 1998, fez e publicou informalmente o livreto Ocasos durante uma feira cultural em sua escola. Aos 18, em 2000, ganhou o primeiro lugar numa seleção de poesia em sua cidade natal, resultando na obra Limoeiro em Verso. Formada em Letras Português/Inglês pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), é revisora de textos, tendo revisado livros de autores como Ana Miranda, Mauricio de Sousa, Jorge Pieiro, Sânzio de Azevedo, Fernanda Coutinho, Raymundo Netto, Carlos Vazconcelos, dentre outros. Lançou seu primeiro livro, "Mil borboletas no estômago" (poesia), no final de 2014. Reside há 5 anos em Fortaleza - CE, e atualmente está organizando seu segundo livro, uma parceria com Sophia, sua filha de 9 anos.

  • Sara dos Anjos

    Sensibilidade a mil meste texto tocante e emocionante! Eu também fiquei com lágrimas nos olhos, pela Dory, pela garotinha, seu irmão e pelas perdas que todos nós temos que administrar na vida. Fiquei encantada em como o texto é envolvente e transborda amor. Parabéns, Milena!

  • Gina Eugênia Girão

    Lindo, Milena!!!!

  • Emerson Braga

    Ah, Milena!!!!!!!!