Sobre tapeçaria, talento e Moacir

Desde que me entendo por gente quis ser escritor. Dentre outras coisas, claro, mas essa é a que se destacou mais – a síndrome do minigênio: leu aos quatro anos, falava corretamente, corrigia os professores, era o mais inteligente da família e blá, blá, blá, essas coisas cansativas que dão um orgulho desgraçado aos pais, mas que para uma criança são apenas fonte de angústia, ansiedade e isolamento.

O caminho da escrita foi – é! – tortuoso, e pelo caminho vão surgindo amigos e mestres. Hoje falo de alguém que é os dois. Mas antes, um pouquinho de história.

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Comecei a escrever aos doze anos, poeminhas, inspirado pelo meu pai – que escrevia poemas muito bacanas, diga-se. Por sinal, até ganhando prêmios. Seu Mano (ou Felício) – meu pai – lê muito, apesar das limitações educacionais que a vida lhe impôs após a prematura morte de meu avô, que lhe impôs, aos dez anos, trabalhar para ajudar em casa. Abandonou a escola na quinta série.

Mamãe lia muitos romances de banca. Se tem uma coisa que me lembra a infância é vê-la sentada na área de casa, cigarro na mão e uma Julia ou Bianca no colo. Lia e lia, e era quase impossível que nessa casa as crianças não lhes seguissem o exemplo.

Hoje, eu, Milena e Felipe somos leitores vorazes, gratos pelos exemplos de nossos pais. Sim, crianças, a leitura estimula leitura, e os filhos copiam os pais.

Fica a dica.

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Aos dezoito eu achava que sabia escrever, e enchia cadernos e cadernos com palavras cercadas de advérbios, adjetivos e superlativos. Eram textos cheios de boas intenções, mas paupérrimos em estilo. E em conteúdo.

Eu era péssimo. Sabia muitas palavras, tinha noção correta de coerência, estilo, organização… mas não sabia escrever. “Ah, mas eu era o melhor em redação na escola!”, “Ah, mas a redação é legal e tal e tu tiravas dez, mas…”…

Mas.

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Aos vinte e três, ingressando na faculdade, um salto qualitativo: a clareza e a lucidez da Filosofia instilam sementes. Um estilo mais seco e preciso, o texto cortado pela navalha de Ockham e cinzelado pelo martelo de Nietzsche.

Ficou bonita a frase, hein? Mas é verdade. Comecei a entender o que era um bom texto lendo os clássicos, e comecei a ter contato menos com Stephen King e mais com Guimarães Rosa. Não que nunca tivesse lido um José de Alencar ou um Machadão, mas a biblioteca do CH da UECE trouxe uma variedade que antes não tinha. E eu agradeço.

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2015: por intermédio de um amigo – Rafael Cavalcante -, conheci o Wilson Júnior (de quem falarei em breve). Na primeira reunião de algo que viria a ser o Escambau, apareceu uma das pessoas mais inteligentes e talentosas que conheço: Moacir de Souza Filho.

E quem é o Moa? Um olhar firme, mas não duro, embora possa ser impiedoso, quando necessário. Uma voz mansa, mas que pode chicotear até abrir a carne.

E um talento único.

Esse cara tem o dom de despetalar as palavras de um jeito que eu jamais serei capaz, por mais que tente. Sua poesia é matemática e orgânica, despida de pretensão e – também por isso – grande. Não conto nem os prêmios que ele já ganhou, é só que o cara é poeta no sentido lato e no sentido estrito, e talvez poeta antes de tudo.

Ao lado disso, é músico. E que músico. Domina o violão e a arte, tem profundos sentimento e sensibilidade. E ainda canta, ora vejam só.

Ele sabe entrar na mente e na alma dos personagens de um jeito que eu nunca conseguirei. Lê-lo é, ao mesmo tempo, um prazer e várias aulas de cada vez. O cara usa toda a bagagem literária a seu favor como um cirurgião usa os instrumentos. E a elegância que aparece no final, acreditem, não é por acaso.

Quem vê o cara sério de terno não enxerga o puta músico-poeta-cronista, que costura as lembranças com anedotas de uma maneira tão suave que a tapeçaria fica parecendo pele.

Se tem alguém em quem me espelho para crescer, esse é o Moacir. Ele nem sabe a gratidão que tenho por ser seu amigo, pois, se soubesse, talvez me mandasse parar de frescuras.

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O futuro dirá que tenho razão: em breve, uma das cadeiras de uma dessas Academias de Letras será dele. Mas por pura formalidade, então. Porque o Moa já é um monstro da literatura, só não se deu conta disso ainda (ou, se percebeu, fica fazendo doce, o que não lhe diminui de modo algum).

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Sara dos Anjos

    Me enterneci com a homenagem, achei muito bacana esta história de amizade, companheirismo e respeito, mas terminei numa gargalhada com a última frase. Não conheço suficientemente o Moacir para uma análise tão acurada quanto a sua, mas os escritos dele me fizeram virar fã (principalmente as crônicas de vida real e cotidiana, que adoro). Parabéns por este depoimento, Michel, e que continuem amigos e companheiros fraternos de jornada… até a academia!

    • Michel Euclides

      Até onde der. 😉