Tio, primo e olho mágico

Todo mundo tem um tio que é metido a arrumar tudo, de sapateira a máquina de lavar, de automóvel a carrinho de rolimã. Assim como o Tio do Pavê, o Tio Pode-Deixar-Que-Dou-Um-Jeito é uma instituição da tradicional família brasileira. Você lá, distraidamente tentando dar partida no carro, girando a chave uma, duas, três vezes, o carro afogando, você já resignado, preparando-se para apelar ao Carlão da Oficina, quando, não mais que de repente, brota do chão o Tio:

—Rapaz, isso aí é a junta do cabeçote do distribuidor do sistema de arrefecimento do motor de arranque — dizia abrindo o capô. — Pode deixar que dou um jeito.

E aí era torcer que ele entendesse do assunto. Sim, porque nada garantia que o Tio Pode-Deixar-Que-Dou-Um-Jeito tivesse a menor ideia do que estava fazendo. Na maioria das vezes, não tinha.

No meu caso, o Tio Pode-Deixar-Que-Dou-Um-Jeito da família é meu pai. E, diga-se de passagem, meu pai sempre dava um jeito. Eletricista de fato, desses que sabem a diferença entre fase, neutro e terra sem nem olhar, também se metia a arrumar encanamento, consertar geladeira, tirar carro do prego e instalar antena de TV. Eu odiava, porque quase sempre era arrolado como seu ajudante.

Nasci com uma incapacidade patológica para serviços manuais, é bom que se diga. Sou desengonçado e distraído, duas características que não combinam com nenhum dos serviços de quebra-galho aos quais meu pai se dispunha. Certo dia, papai consertando um ventilador de teto, pediu-me uma liga para prender não sei o quê. A liga estava bem ao meu lado, no chão, mas, pensando na morte da bezerra como estava, entendi que era para ligar o ventilador. Meti o dedo no interruptor. Papai só não morreu eletrocutado porque tomou uma traulitada da pá do ventilador na testa e despencou no chão.

Mesmo com um ajudante desse calibre, papai não negava pedido e, pior!, oferecia os seus préstimos tão logo sabia de alguma necessidade. Vovó, sua sogra, alugou uma casa velha e grande onde brotava toda sorte de aborrecimento: cupins, piso solto, curtos-circuitos, o diabo. Meus domingos todos perdidos entregando chave de fenda, buscando a broca correta para a bucha, vendo se a TV sintonizava direito, segurando escada etc.

Só comecei a ter algum sossego quando meu primo Otavinho atingiu idade suficiente para disputar o cargo de faz-tudo da família com meu pai. Tamanho ele já tinha desde sempre, um varapau de quase dois metros de altura. O diminutivo era irônico.

Até então, Otavinho ocupava a posição de Exemplo-Oficial, outro clássico em toda família (que nunca é você; sempre é um primo). Otavinho tirava notas melhores. Otavinho era elogiado pelos professores. Otavinho não desobedecia. Otavinho varria a casa. Otavinho arrumava a cama. Otavinho não namorava escondido.

Nós, os reles mortais da família, odiávamos Otavinho. Apesar de nossas mães o usarem para ralhar com os filhos, creio que elas também o odiavam por ser um parâmetro irreal e inatingível (e mães sempre se frustram mais que seus filhos nessas coisas). Acho que nem a mãe de Otavinho gostava de Otavinho, já que nunca tinha oportunidade de dar um carão que fosse no chato.

Talvez percebendo que o posto de senhor perfeito não atraía muita simpatia, Otavinho começou a se esforçar para ser o novo Pode-Deixar-Que-Dou-Um-Jeito na família. Primeiro problema: Otavinho não era tio. Segundo: Otavinho é tão distraído e desajeitado quanto eu.

A primeira vez que ele conseguiu roubar um serviço de meu pai se deu na pintura do apartamento novo de Tia Neném. Garantiu que tinha visto na internet as técnicas mais modernas e que daria conta do trabalho em no máximo um dia. Muniu-se de todo o equipamento e partiu para o trabalho. Não sei se papai ficou chateado por ser preterido, mas lembro-me de seu sorriso de satisfação ao contemplar a obra impressionista que Otavinho imprimiu no chão e no teto. Custou uma semana de esforço para limpar.

Depois de muitas vaciladas, Otavinho acabou deixado de lado. Já velho para continuar sendo o Exemplo-Oficial da família, e vendo sua carreira de faz-tudo mais naufragada que reeleição do Temer, Otavinho ficava pra lá e pra cá nas reuniões familiares, suspirando pelos cantos, puxando conversa, um poste meio curvado segurando o copo de refrigerante.

Quando nos mudamos para o apartamento, meus pais resolveram levar a porta de entrada da antiga casa, muito bonita e de boa qualidade. Acontece que a porta não tinha olho mágico. Papai, homem de coração aberto, resolveu confiar a instalação do olho mágico a Otavinho, até para dar uma força ao sobrinho, que andava muito acabrunhado. Ele, claro, aceitou de pronto, e apareceu lá em casa mais paramentado que brincante de maracatu. Só de furadeiras, levou três.

Tínhamos uma viagem pra fazer naquele final de semana, deixando Otavinho sem supervisão no serviço. Antes de entrar no carro, papai ainda se disse preocupado, mas mamãe o fez afastar as dúvidas. Otavinho era um rapaz inteligente, afinal de contas.

Quando voltamos, de fato lá estava o olho mágico lindamente instalado, a porta como nova, nem parecia que tinha sido mexida. Parecia que finalmente Otavinho fez um trabalho bem feito.

O que tenho a dizer é que, até meu pai arrumar uma porta nova, tivemos que usar um banquinho sempre quando alguém tocava a campainha.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Sara dos Anjos

    Bem engraçada a história do seu tio e do seu primo! Na sua família tem um tio Contador-de-história que conta sempre as mesmas histórias em todas as festas (e todo mundo tem que fazer cara de quem está ouvindo pela primeira vez!)? Na minha tem.