O Pacto das Trevas: Fortaleza – Parte 3

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Quem?

Miguel abriu a porta e viu uma mulher de cabelos grisalhos acariciando a cabeça de Brun. Ela usava um vestido branco rendado e cheirava – de maneira muito intensa – a algo doce e cítrico.

— Bom garoto, bom garoto — dizia ela, o branco imaculado dos cabelos contrastando com a pele escura. Deveria ter sido muito bonita quando mais nova, pois, apesar da idade, ainda era muito atraente. Mas… porque estava pensando daquele jeito? O Brun era territorial demais, e nunca deixava ninguém tocá-lo sem muito tempo de familiaridade!

— Ei! O que você…

Um arrepio correu todo seu corpo quando ela olhou. O coração bateu descompassado, e ele começou a suar. Uma parte de seu cérebro dizia

fuja fuja fuja

mas ele não conseguiu se mover. Alguma coisa o prendia ali.

— Você parece muito com seu pai — ela disse. — Deite, Brun.

E o cachorro deitou.

— Mas que… Quem é você?

— Uma amiga. Não vai me convidar para entrar?

— Como você… o Brum…?

— Não importa. Convide-me para entrar.

Uma vontade irresistível de aceitar o comando. Era como abrir mão de todas as limitações e impedimentos, esquecer da culpa e abraçar um vício há muito renegado.

Convide-me.

A voz dela… Havia algo ali que Miguel não compreendia.

— Eu não te conheço — respondeu, fazendo força para lutar contra a necessidade de deixá-la entrar, um gosto amargo no fundo da boca.

— Mas eu te conheço, criança. De fato, sua resistência não era esperada. Mesmo assim, deixe-me entrar.

O comando veio mais forte, imperativo. Irresistível. Miguel dividiu-se em dois: uma parte grande, que abria as portas da casa para a senhora de cheiro doce e cítrico em seu vestido branco; e a outra, pequena, impotente, gritando encolhida na escuridão de sua mente, esmurrando as paredes tentando fugir dali.

— Obrigada — disse ela, passando por ele com um sorriso.

Ao chegar na sala, ela pôs as mãos na cintura e balançou a cabeça em negação. Havia sangue em toda parte, e uma garrafa de bebida em cima da mesa de centro.

— Sua mãe jamais deixaria a casa ficar assim.

— Minha mãe está morta, e a casa é minha — disse Miguel, lutando contra a vontade de vomitar. Percebeu, então, que os sintomas da ressaca desapareceram. Estava alerta como há muito tempo não acontecia. Adrenalina.

A velha pegou a garrafa de vodca que estava sobre a mesa e foi até a cozinha. Miguel, imóvel, ouviu o barulho do líquido batendo na pia de alumínio e rangeu os dentes. O que estava acontecendo? Por que não conseguia se mover?

— Um feitiço de amarrar, é como se chama, se você está se perguntando — disse a velha, sentando no sofá e acendendo um cigarro. — Coisa simples, mas para um não iniciado pode ser bem difícil. O fato de você resistir, porém, diz muito.

— Resistir?

— Você não deveria estar falando — disse ela, e sorriu. Dentes brancos, perfeitos, mas não pareciam ser de uma dentadura.

O perfume dela tomava conta da sala. A sensação era a de que o aroma entrava pelos poros, cabelos, unhas. Cítrico, doce, insuportável, mas…

— Flor de Limão, é como se chama. Eu mesma faço. Muitas pessoas acham forte… eu, pessoalmente, gosto muito.

Ela lia mentes? Feitiços? O que estava acontecendo?

— Ora, você está em casa. Sente-se.

Miguel caiu sobre o sofá, mas duro, sem controle sobre o corpo.

— Se prometer que não vai enlouquecer, libero você do encantamento.

— Tudo bem — disse, e sentiu-se relaxar. Uma marionete sem fios, agora, um “menino de verdade”.

No meio de toda a loucura, começou a rir. Moveu as mãos diante dos olhos, piscou, respirou fundo e prendeu a respiração. Era ele mesmo mais uma vez. Ela o observava, um meio sorriso branco no rosto escuro e enrugado.

Controlou-se para não pular em cima da velha, respirou fundo três vezes. Não era fácil.

— Um autocontrole admirável — ela disse. — Parabéns.

— Quem é você, e o que quer?

— Eu sou uma amiga, João Miguel. Amiga sua, de seu pai e de sua mãe, de um passado distante.

— Não me chame assim.

— E como prefere que eu o chame?

— Eu queria que não chamasse e fosse embora, já que invadiu minha casa.

— Miguel… pode ser? — ele fez que sim, a boca virada para baixo. — Você me deixou entrar.

Ele tentou argumentar, mas era em vão. Abrira as portas para ela, dera-lhe passagem.

— Mas você disse…

— E você acreditou? Pensei que fosse um cético, um niilista, adepto do Vazio, “vivendo uma vida sem sentido entre dois nadas infinitos”…

— É, mas…

— Aí vem se apoiando nesse papinho de que “a senhora me enfeitiçou”. Tenha paciência. Seja coerente, meu rapaz.

A raiva que Miguel sentia desfez-se em uma risada descontrolada. A velha arregalou os olhos e depois sorriu, fazendo o mapa de rugas de seu rosto se espalhar como raízes.

— Você parece com seu pai, mas tem o temperamento de sua mãe. Ah, eles eram formidáveis juntos…

Miguel parou de rir.

— Meu pai matou minha mãe, senhora. Não costumo falar muito nesse assunto.

— Você deveria ter orgulho de seu pai.

— Um louco homicida? Não, muito obrigado.

— Você não teve tempo de conhecê-lo direito. E não sabe o que aconteceu.

— Nunca tive vontade de visitá-lo e ouvir sua versão da história, senhora. Estava muito ocupado tentando fugir da genética.

Ela tragou o cigarro e soltou a fumaça na cara dele.

— Um bebezinho mimado pela avó, isso é o que você é — disse ela, e o tom de desapontamento em sua voz era cristalino.

— Não fale de minha avó!

Miguel sentiu uma pressão enorme no peito. Não conseguia respirar. Sentiu a vista escurecer e ficou tonto, a pressão tornando-se dor, a dor tomando conta de sua mente.

— Um bebezinho reclamão, que não sabe de nada e tira conclusões baseadas fatos vagos! Você é um fracasso, Miguel! Juro que se você não fosse nossa última opção, eu o mataria agora, sem remorso algum, e livraria a Terra de mais um idiota desprezível!

Ele tentou falar, mas agora a dor o dominava. Mas ele via tudo, sentia tudo: os cheiros, as texturas, as cores, os sons… uma clareza que nunca antes experimentara. Com uma lucidez intensa, entendeu tudo.

Eu vou morrer.

— Não, não vai, seu desperdício, covarde! Eu não deixarei!

A pressão sumiu. Miguel respirou, e parecia a primeira vez. A expiração foi um grito de dor e prazer.

Ele não sabia explicar o que estava acontecendo. Sempre vira a si mesmo como uma criatura racional, vivendo num mundo de regras claras e precisas. Tudo o mais era superstição, religião, inteligência de menos e imaginação de mais. Porém, só hoje de manhã, tivera três momentos inexplicáveis.

— Quem é você? — perguntou, esfregando a mão no peito.

— Sou uma amiga, já disse.

— Amigos não forçam a entrada na casa dos outros.

— Porque são convidados a entrar.

— O que você fez comigo?

— Eu? Nada demais. Apenas fiz com que ficasse um pouco desconfortável.

Ela sorria com aqueles dentes brancos perfeitos. Como alguém chegava àquela idade com dentes assim?

Miguel pensou em levantar, ficou com medo de não conseguir e permaneceu sentado. Suas pernas tremiam.

Ela levantou e foi até a cozinha. Voltou com um copo de água.

— Obrigado — disse ele, aceitando-o.

— Paz, Miguel, paz. Não vim para brigar, mas para fazer um convite.

— Que convite?

Ela pegou o copo de suas mãos e colocou-o sobre a mesa de centro, depois sentou a seu lado. Ele estava quase se acostumando com o cheiro dela.

— Antes de começar, é preciso que você saiba e aceite algumas coisas. A primeira delas é que seu pai não era quem você pensa. A segunda é que ele está morto.

Miguel baixou os olhos. Seus ombros cederam. Era demais para ele.

— Como posso saber se meu pai está mesmo morto?

— Atenda a ligação — disse ela.

— Que lig…

O telefone celular que estava sobre a mesa começou a vibrar. Era a avó.

— Oi, vó — disse ele, olhando para a velha. — O que houve?

Ele se calou, escutando. Ficou pálido, a respiração acelerada, os olhos desfocados. Parecia prestes a desmaiar.

— Hoje de manhã? O que eles disseram? — ele ouviu por mais uns instantes. — Certo, vó. Vou assim que puder, viu? Até logo.

Miguel desligou o telefone. Suas mãos tremiam.

— Certo, ele morreu. E agora?

— Aceite que ele não era quem você pensava.

— Ele matou minha mãe ou não?

— Matou. Mas não foi culpa dele.

— É o que consta nos autos — disse Miguel, dando de ombros. — Insanidade temporária.

— Seu pai não era louco — disse ela, sacudindo a cabeça. — Era o homem mais lúcido que eu conhecia.

— Essa é outra afirmação que terei de aceitar?

A velha riu.

— Você é duro, preciso reconhecer. A mente afiada, mesmo no meio de uma crise…

— Não há crise. Ele não representava nada para mim.

— Mentira.

A voz dela doeu como um tapa. Ardeu.

Miguel começou a chorar.

— Agora estamos começando a conversar — disse ela, acendendo outro cigarro. Esperou que ele se acalmasse e, quando ele se centrou, continuou. — Negar é fácil, Miguel. Principalmente quando não se conhece a história.

— E qual é a história? Por que ninguém me diz o que realmente aconteceu naquela noite?

— Essa é uma porta que abre para os dois lados, filho. Se eu te contar, não vai ter volta. É assim que o conhecimento funciona. Não dá para desaprender algo, ou esquecer. Há um preço a se pagar pela verdade.

— Mas eu quero saber!

— Custe o que custar?

Ele fez que sim.

— Vá tomar um banho, barbeie-se e fique apresentável. Vou levá-lo ao enterro de seu pai.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Sara dos Anjos

    Está cada vez mais interessante… gostaria que fosse um livro, para que não fosse obrigada a pausar…