O Escolhido (A Última Noite – Parte V)

Continuando minha novela de fantasia urbana! 

Confira a Parte 1 – A Essência

Confira a parte 2 – O Velho e os Olhos

Confira a parte 3 – Caça e caçador

Confira a parte 4 – O início e o fim


Abri meus olhos num sobressalto, suado como quem desperta de um pesadelo. Estava sentado a uma mesa, que se estendia a minha direita por mais de dez assentos. Era bela e luxuosa, feita em madeira nobre. Os assentos eram pequenos tronos e fechavam o par para aquela ostentação.

– Você acordou. Finalmente. – disse uma voz familiar perto de mim.

Rafael estava sentado à minha esquerda, na ponta da mesa. À minha frente estava Maria, seus olhos do Vazio mirando, perdidos, algum lugar atrás de mim. Estávamos no que parecia ser a sala de um amplo apartamento, e as velas na mesa eram a única iluminação – o que me atrapalhava na leitura dos detalhes. Lá fora o céu ganhava o tom rosado do amanhecer. Dali eu podia ver a ondas quebrando na praia logo a abaixo de nós.

– Como está, meu amigo? Espero que a pancada na cabeça não tenha sido grave. – Rafael estava tranquilo, falava suave como se nada tivesse acontecido aquela noite. Era pertubador.

– Que caralhos está acontecendo? Como você escapou? Como vim parar aqui?

– Calma, meu amigo. Entendo seu desespero, mas tudo será esclarecido em breve. – disse Rafael, mantendo a suavidade. Maria sequer esboçava reação.

– Coma alguma coisa. Você deve estar faminto. – continuou ele.

Só então eu notei a mesa farta posta à minha frente: sucos, frutas, pães, até tapioca.

– Rafael, sinceramente, não quero perder tempo com essas frivolidades. Vá direto ao ponto, fale para mim o que está acontecendo, onde está meu pai? Onde estamos?

– Estamos no meu novo lar. Seu pai está morto. – disse, dando-me a notícia no mesmo tom com o qual me ofereceu comida.

– Como assim, morto? O que aconteceu com ele?

– Ele não resistiu a sessão de tortura e morreu dos ferimentos. – Aquelas palavras me fizeram perceber o óbvio. Aquele não era mais Rafael.

– Sou eu sim, meu amigo! – disse, lembrando-me de seu poder. – Apenas diferente. Você entenderá.

Perguntei-me se havia sido ele quem havia torturado meu pai, mas já sabia a resposta.

– Sim, fui eu mesmo. Devo ressaltar que ele não falou nada. Era um homem de pouco caráter, mas no que diz respeito a manter segredos foi de uma honra impressionante. E eu não peguei leve. Veja! – ele fez um gesto e velas na outra extremidade da mesa se ascenderam.

A luz iluminou o rosto velho de meu pai. Ele estava contorcido em uma máscara de dor e desespero, que nem mesmo a morte conseguiu anuviar. A pele do rosto estava metade queimada; um de seus olhos estava estourado e vazava um líquido branco; seus dentes haviam sido arrancados, e a boca arreganhada estava empapada de sangue coagulado. Um de seus braços exibia a musculatura e parte dos ossos completamente expostos; o outro era um pedaço de carne carbonizada.

Nunca houve afeto entre nós, mas não pude de deixar de sentir pena pelo homem, e fúria por esse falso que se passa por meu amigo.

– Entendo sua raiva, Tiago. Ele era um porco, mas era seu pai. Peço desculpas, não quis lhe causar dor. – sua voz voltou a ter a ternura característica do meu amigo.

– Então comece a falar. – eu disse, com toda a calma que consegui encontrar.

– Não consigo mais ler sua mente, Maria, gostaria que você fizesse algum sinal para eu saber que está aí. – Ela assentiu suave.

– Pois bem. Estou ciente que vocês descobriram a verdade sobre os Selos e sobre os mundos. – ele indicou o Velho com a cabeça mostrando de onde vinha a informação. – Mas eu descobri outras informações que vocês desconhecem. Eu sou o selo do Infernum. Descobri isso quando absorvi a Essência. – fez uma pausa para medir minha reação. Maria parecia ignorar tudo.

– Mas sozinho não posso quebrar o selo, preciso saber onde está a chave, por isso tive esse diálogo… agressivo… com seu pai. – mais uma vez minha atenção se voltou para o corpo disforme.

– E por que você faria isso? – perguntei.

– Por que é necessário! Nosso mundo está tomado por seres dos outros planos, eles influenciam diretamente em tudo, controlam a politica, religião, cultura… É questão de tempo até todos os selos sejam encontrados e quebrados e a existência seja novamente jogada em caos e guerra. Sem falar em Oníria. Tudo o que deve existir por lá depois de todos esses séculos em que a humanidade alimenta aquele lugar… Não seria mais um simples conflito entre Halos e Daemons, os Oníricos tem poder para desequilibrar essa balança de uma forma impossível de se calcular.

– E como abrir nosso mundo para os Daemons pode ajudar nisso?

– Eu vou usá-los para limpar nosso mundo.

– E por que acha que pode controlá-los? – questionei.

– Por que eu sou o Escolhido!

Pude ver o brilho da loucura nos olhos de Rafael.

– Eu não sou louco! – gritou, batendo o punho na mesa e derrubando tudo, lançando lascas de madeira em todas as direções.

– Você sabe que essa história de escolhido é uma mentira. – respondi.

– Não é! – insistiu, com os olhos vidrados. – Eu sou o escolhido e tive certeza ao absorver a Essência! Não era uma essência comum, era a essência de Baalus, um dos grandes Lordes, demorou séculos para tomar forma no nosso mundo! Só eu seria capaz de absorvê-la! Eu estava destinado!

– Então você vai liderar milhões de demônios no mundo e destruir todas as criaturas sem distinção? Um Expurgo?

– Sim!

– Você não é mais o Rafael!

– Não! Eu sou algo melhor!

Sua aparência começou a mudar. A pele virou uma armadura escamosa da cor de sangue, chifres brotaram em sua cabeça, ele tinha garras e presas. Seus olhos viraram órbitas vazias de uma escuridão profunda.

– Para que precisa de mim então, Senhor dos Demônios?

– Você conserva a essência de seu pai, poderá abrir os segredos que ele guarda, na Casa Grande. Me mostrar o caminho até a Chave.

– Eu não faria isso. Seu plano não faz sentido – eu disse, mas a réplica veio de onde não esperava.

– Faz sentido sim! – disse Maria, quebrando seu silêncio.

***

 

– Como assim, Maria? Como pode concordar com essa loucura? – perguntou Tiago.

– Nosso mundo já está entregue ao caos. – respondi.

– Você concorda com a morte de milhões?

– Milhões já morrem todos os anos. – falei.

– Você sempre foi a mais leal, Maria – disse-me Rafael, levando sua mão ao meu queixo, e virando meu rosto para um beijo.

Senti seus lábios quentes tocando os meus. O odor de enxofre invadiu minhas narinas, suas presas feriram minha língua. Quando finalmente me soltou a magia estava pronta.

– O que é isso? – gritou ele, num frenesi medonho. – Não posso me mover! O que fez comigo, bruxa maldita!

Tiago estava assustado, não entendia o estava acontecendo.

Segurei o rosto dele com as duas mãos e concentrei todo meu poder nos olhos. Senti a energia ser puxada para dentro de meu corpo, e vi a forma demoníaca se dissipando em pequenos fragmentos que eram absorvidos pelos redemoinhos em meu rosto.

– Pare sua bruxa, deixe minha essência em paz! – gritava Rafael.

– O que está fazendo Maria? Vai matá-lo com isso! – gritou Tiago.

Lentamente toda a energia dos daemons foi sugada por meus olhos, e Rafael perdeu a consciência.

– Me desculpe Tiago. – supliquei. – Tive que me concentrar para manter a consciência e conjurar a magia de aprisionamento. Era demais para mim.

– Tudo bem! Vai tudo ficar bem! – ele respondeu cheio de esperança, o que fez doer ainda mais.

– Não, não vai!

Senti minha pele mudando, pequenas escamas rasgando a fina pele, sentia meus dentes crescerem se tornando presas pontiagudas, sentia raiva, ódio por tudo e nada, um fogo queimando em meu coração.

– Já começou Tiago! Você tem que me matar!

– O que?

– Me mate, por favor!

Ele me olhava, ouvia as palavras, mas parecia incapaz de entender.

– Não conseguirei manter essa Essência em mim, ela quer voltar para Rafael! Você precisa me matar para que seja dissipada!

– Não! – ele gritou. – Não me peça isso!

– Não há o que fazer Tiago, eu já estava condenada, estava me tornando um Vazio! Pelo menos assim eu posso salvar você e Rafael. – quis chorar para mostrar minha dor, mas não havia lágrimas em olhos secos.

Tudo que ele fazia era gritar e balançar a cabeça.

– Não há tempo Tiago, não vou segurar! – gritei para ele enquanto pequenos fragmentos da essência demoníaca se desprendiam de mim e voltavam para Rafael.

Abriu a boca para argumentar, parou, baixou a cabeça. Levantou e andou até onde eu estava, os passos em falso guiando seus pés. Empunhou sua espada apontada para mim. Pude ver naqueles olhos que ele não conseguiria.

Juntei toda a força que restava em mim e me lancei na lâmina.

Senti o fio lacerar a minha carne e a essência demoníaca despertou o poder da arma, tornando o corte mais fácil.

O grito de dor foi dele. Tiago me aparou em seus braços.

– Eu te amo. – ele me disse, mais uma vez, entre lágrimas. Senti a magia da lâmina queimando meu corpo, mas não demonstrei dor. Só o faria sofrer mais, então eu suportei.

– Eu também. – eu disse. Não havia escolhido, não havia mais missão, finalmente pude admitir…

***

Eu a segurava, as lágrimas borrando minha visão. Consegui sentir sua vida se esvaindo, seguida pela essência que surgiu enquanto o corpo dela se desfez em cinzas. Um turbilhão vermelho e prata que disputava em caos. Era um gigantesco poder e por um segundo fiquei tentado a absorvê-lo e ficar com pouco de Maria para mim. Resisti a tentação e uma explosão iluminou a sala. As essências se dissiparam.

O sol tinha rasgado o céu quando eu senti o toque em meu ombro. Queria sentir raiva e ódio, mas era o meu melhor amigo, tão vítima disso quanto eu.

– Vamos.

–  Onde? – perguntei.

–  Buscá-la.

– Como assim?

– Nós vamos ao Hades. – Não havia dúvida, medo ou qualquer ironia naquelas palavras.

Fim (?)

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Wilson Júnior

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

  • Sara dos Anjos

    Eu gostei! Foi uma experiência nova para mim, ler uma novela de fantasia urbana, com seus outros mundos, demônios, poderes sobrenaturais, sobressaltos… Gostei do final também, mas (pasme!) apesar de ser um gênero que normalmente não me atrairia tanto, fiquei querendo ler mais dessa história! Parabéns, Wilson, texto muito bem costurado!