Os rios sob a minha pele

Neste meu banheiro minúsculo não cabe toda a minha ansiedade da manhã. A minha cara assustada no espelho não ajuda e eu fico aqui pensando, me analisando, me criticando. O que são estas olheiras e estas rugas e estes cabelos sem brilho e estes poros abertos e estes pelos de bigode — maldita descendência portuguesa! — e estes rios sob a minha pele?

Hein?! O que?!

Olho mais de perto todas as veias azuis esturricadas sob a pele branquinha do pescoço, do colo. Das mãos também! E das pernas, percebo quando me curvo à procura de provas! Mas o que é isto?! Me tornei transparente de repente?! Meu Deus, estou ficando invisível?!

Também pudera, você queria o quê? Passou dos cinquenta, minha filha, vai te acostumando! Estes rios sempre estiveram aí, desde a tua infância. Talvez fossem só riachinhos, sim senhora, e você deixou que eles fossem se enchendo, se enchendo. Quem mandou não ter paciência e ficar aí se irritando por coisas bobas?

O mapa repleto de caminhos azuis está me assombrando, socorro!

Está demorando muito para sair do banheiro, está fazendo o número dois?

A pergunta que sai da minha cabeça me faz resmungar e achar graça.

Está falando sozinha, coitada, se vê que está velha!

Sim, estou velha, mas não sou velha.

Que diferença faz?

Estes rios que pensam em transbordar estão aí mesmo. O que é que eu faço, meu Deus?

Toma um remédio para a circulação, minha filha!

Que remédio! O negócio é conviver com mais isto. Saio do banheiro deprimida, chateada, triste.

O que? Nem pensar! Trata de sacudir a poeira dar a volta por cima! Já!

Evito o espelho do quarto porque já vi de tudo por ali. Me visto com pressa, quero cobrir com urgência todos os rios, antes que se transformem em oceano e me afoguem em sal. Calças compridas, mangas compridas, gola alta.

Calorão!

Acaba se afogando em sol, minha filha! Tira tudo, fica nua, vai!

Mas de que foram feitos estes rios? Das minhas lágrimas?

Deixa de ser boba, você nem chorou tanto assim!

É, teve aquela vez que… e aquela outra vez… E no funeral da mãe?

Ok, ok, todos estes momentos foram sofridos, mas… e daí? Tem gente que perde filho, isto sim é que é dor!

Deixo os rios seguirem seu curso sob a minha pele e saio de casa pensando na dor de uma mãe que perdeu o filho.

Coitada!

Escritora por vocação, analista de sistemas por profissão, romântica de coração, crítica até no dedão, engraçada em qualquer situação, cabeça minada de preocupação, pés no chão, digna de respeito e consideração, honesta de plantão, quase um animal em extinção e nunca fez lipoaspiração.

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Sara dos Anjos

Escritora por vocação, analista de sistemas por profissão, romântica de coração, crítica até no dedão, engraçada em qualquer situação, cabeça minada de preocupação, pés no chão, digna de respeito e consideração, honesta de plantão, quase um animal em extinção e nunca fez lipoaspiração.

  • Fernando Dias Cyrino

    que legal sua crônica, Sara. Achei-a bonita e intensa a falar do seu corpo enquanto mapa delineando as fronteiras de azul. abraços.

    • Sara dos Anjos

      Fernando! Muito obrigada, amigo! Fico feliz com suas palavras! Um grande abraço!

  • Moacir Marcos

    Que relato vivo, pulsante e emocional, Sara! Repleto de lirismo e sensibilidade, o seu texto me levou também ao banheiro minúsculo, olhando a pele à procura de rios azuis que podem, a qualquer momento, desaguar num oceano de sal.

    • Sara dos Anjos

      Você ainda está longe de ver estes rios, Moacir! hahaha Mas cuide para que não se formem!! Um grande abraço e muito, muito obrigada!

  • Delma Maria Lucchin

    Adorei seu texto. Ele me fez viajar e refletir sobre meus rios também. Parabéns!

    • Sara dos Anjos

      Obrigada, Delma!!! A gente fica assim se analisando, não sei pra quê, né? Mania de mulher! 🙂

  • Emerson Braga

    Sara, suas crônicas são sensacionais!

    • Sara dos Anjos

      Emerson, meu querido amigo! Muito obrigada!!! Mas seus contos é que são sensacionais! Um grande abraço!

  • Thiago Noronha

    Reflexões no banheiro 🙂

    • Sara dos Anjos

      🙂 É o que me resta…