Sobre generais, criatividade e Wilson

Se eu fosse a Hogwarts, com certeza o Chapéu Seletor me mandaria para a Sonserina. Sou frio, manipulador, calculista e, às vezes – mais do que eu gostaria – insensível e indiferente. No meu núcleo, porém, sou um doce, mas isso não vem ao caso agora. O que vocês precisam entender é que minha energia de criação é fria, e meu totem seria um lagarto ou uma serpente, se eu fosse enveredar por estas bandas.

Isso se reflete em minha criação de maneira interessante: não tenho apego a detalhes. Minha literatura carece de descrições imensas, que ajudariam na concepção de um mundo visto com muita acuidade pelo leitor. Muitas vezes, pergunto-me se meus personagens não são frios, tristes e secos demais, e se isso não afeta a empatia dos – poucos – que me leem.

*

Mas enfim.

O que eu quero dizer aqui é que o coração do Escambau tem nome e endereço, e é uma força vulcânico-solar da natureza.

Seu nome é Wilson Júnior.

Ele fala como se metralhasse, as palavras em rápida sucessão. Quando se empolga, o grito é inevitável, sua voz grave audível a alguns quarteirões. O cara é um romântico, apaixonado e sanguíneo em tudo o que se propõe a fazer. E é uma das pessoas mais agradáveis que conheço.

Sabe aquele ser humano receptivo, com habilidades sociais inatas? É ele. Anda por entre os grupos mais diversos e todo mundo fala com ele, a característica rara de um grande general. Instiga, estimula, provoca, e de repente as coisas nascem, por suas mãos ou de outrem. Não importa. Ele tem o dom da criação, uma imaginação irrestrita, fértil e selvagem.

Tenho a honra de, aqui e acolá, editar alguns de seus textos. A sensação é: como alguém consegue tirar tanta coisa de dentro da cabeça? Referências mil cruzadas, um cenário improvável de fantasia em Fortaleza, um steampunk no sertão… caralho, quem jamais pensou isso?

O Wilson pensou. Desculpa.

*

E a energia e a criatividade, de onde vêm? Só ouso especular. Fico imaginando as borbulhas de magma dentro de uma mente assim, hiperativa, fazendo conexões em velocidades e possibilidades absurdas, as mãos sangrando palavras sobre o papel, construindo mundos, um Tolkien moderno, provocador e agressivo, escrevendo com aço na pedra.

Não duvido, logo logo estaremos lutando e ceando juntos no Fólkvangr da literatura nacional.

*

Minha admiração pelo Wilson só cresce a cada dia. Como bom soldado que sou, só me resta seguir os passos do General.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Sara dos Anjos

    Michel! Em primeiro lugar, gosto de sua concisão e até da sua frieza no escrever. Meu lado “informático” se identifica com isso. Claro que o “chão” que sou na maioria das vezes não alcança tua altitude lá no infinito das palavras. Fico então com o que diz meu coração e ele sempre diz que gostou demais! Em segundo lugar, que fantástica descrição do Wilson! Embora não consiga imaginá-lo gritando na defesa de suas convicções, confio no que você diz e te agradeço por nos apresentar melhor este cara a quem também respeito e admiro. Daqui deste lado onde estou, vocês me parecem muito semelhantes, abstendo-se de usar desvios ou atalhos na comunicação com seus leitores. Gosto disso. Que o general vença as batalhas nesta luta pela literatura! Bons soldados ele tem para ajudá-lo na empreitada! Um abraço.

    • Michel Euclides

      Ixe, tenho nem palavras… brigadão, Sara!