Pau, pedra e sapo

Minha voz ameaçava engrossar, alguns pelos já haviam nascido – motivo de orgulho –, e no meio dos adultos eu reivindicava voz em alguns assuntos, exceto aqueles aos quais meus onze anos me impunham fronteiras: política e mulheres. Mas nem mesmo minha vasta cultura futebolística rivalizava com as meninices que ainda me acompanhavam. Bila, peão, arraia, bola, pega-pega, videogame.

Por essa época, eu frequentava uma colônia de férias à beira-mar, um amontoado de casas de veraneio, piscinas públicas, quadras, parquinhos e muito, muito mato. Não era nenhum paraíso, mas aos olhos de um garoto tipicamente urbano, morador de periferia e acostumado ao asfalto e calçada das ruas, aquilo se tornava um ambiente selvagem. Era a glória vagar pelas alamedas de calçamento, às altas horas da noite, observando o matagal tomado de trevas e mistério.

Numa dessas noites, véspera de meu aniversário de doze anos, eu e mais três moleques procurávamos algo pra fazer, imaginando extraterrestres, serial killers e toda sorte de vilões a nos espreitar atocaiados atrás das moitas. Simulávamos a concentração de uma equipe de agentes especiais, sondando o ambiente, alertas, todos de chinela em punho, única defesa contra a escuridão.

Foi assim, desconfiados, prontos para o combate iminente, que o sapo veio nos encontrar. De um salto, despontou por detrás de uma moita e plantou-se bem à nossa frente. A primeira reação foi de susto, alguém gritou, e eu, reconheço agora, fui um tanto afetado: levantei a perna esquerda, recolhi os braços e fiz uma careta de nojo. Pensamos em correr, mas percebemos o ridículo da situação. Éramos quatro contra um.

Começamos a traçar uma estratégia, visto que o sapo, indiferente, continuava quieto. Enquanto os meninos discutiam a melhor maneira de cercá-lo, observei a massa verde-escura, suas quatro patas solenemente fincadas no chão, sua grande boca fechada, uma boca que era o motivo de todo o seu corpo. Tinha uns olhos filosóficos, aquele sapo. Negros,  sobrenaturalmente grandes e redondos, pareciam me perguntar o que eu podia querer ali, onde com certeza ele estava mais à vontade. Comecei a me sentir mal, a me sentir pequeno, eu que via aquele sapo a meus pés. O que falaria se soubesse emitir alguma palavra daquela boca gigante e serena?

Uma chinela passou por mim e acertou o sapo em cheio, jogando-o de costas no chão e revelando sua barriga branca. Depois outra, com ainda mais força, atingiu-o de lado. Começava o ataque.

Recuperado do baque inicial, o sapo começou uma desnorteada fuga, a cambada uivante atrás. A cada salto, uma nova chinelada o derrubava longe. Enquanto corriam, os meninos ora catavam as próprias chinelas para arremessá-las novamente, ora se valiam de pedras que encontravam pelo caminho. Meus companheiros me incitavam a atirar também, mas eu errava de propósito. De alguma forma, sentia-me próximo do bicho.

Algumas chineladas depois, o sapo jazia estatelado junto ao meio-fio, exausto. Os colegas foram checar se ele ainda estava vivo enquanto me dispus a vigiar se vinha alguém pela rua. Foi então que um dos garotos, o mais alto do bando, convocou-me a comparecer junto ao alienígena derrotado. Disse-me que o inimigo ainda vivia e que eu, por não ter acertado sequer um golpe, deveria acabar com seu sofrimento. E me passou uma enorme pedra de calçamento que eu mal podia sustentar. Vali-me ainda de alguns argumentos na tentativa de me desincumbir da tarefa, em vão. Ante a possibilidade de passar o resto das férias sendo chamado de bichinha, resolvi seguir o que me ordenavam.

O sapo me encarou quando levantei a pedra, parecendo ter ciência de seu destino sombrio, mas tranquilo, como quem sabe que a vida é assim mesmo, que se morre tão estupidamente quanto se vive, um menino lhe jogando uma pedra na cabeça. A morte se avizinhava para encerrar sua existência anfíbia, seus pulos, suas moscas, suas lagoas enlameadas; todos os prazeres de sapo que não mais desfrutaria e ele ali, fitando-me tranquilamente à espera do golpe final. O sapo já sabia o que esperar, e quanto a mim? Eu, que ainda respiraria depois de largar a pedra? Como poderia algum dia ter paz, sabendo que mais cedo ou mais tarde uma grande pedra de calçamento também cairia sobre a minha cabeça humana?

Os meninos gritavam, exigiam que a sentença fosse consumada. Joguei a pedra com toda a força que meus músculos permitiram. Um baque surdo e o serviço terminado. Meus companheiros silenciaram, os grilos silenciaram, o mundo parou. Tudo me parecia estranho agora, minhas mãos, os rostos dos colegas, o mato. As coisas se tornaram diferentes.

Um dos garotos sugeriu um enterro com honras de chefe de Estado, no que foi prontamente correspondido pelos outros. Fui instado a participar – quem sabe eu não poderia ser o padre a encaminhar a alma do morto ao céu dos sapos? Eles riam, esperando uma resposta. Enxuguei os olhos e me despedi, deixando-os mudos na sua incompreensão de meninos que ainda eram.

Saí caminhando de cabeça baixa pela via estreita. Sabia que já não pertencia a meu antigo universo de travessuras e brincadeiras, mas me assustava ao perceber que continuava sem entender nada de política e mulheres. E compreendendo enfim o porquê de serem os sapos os príncipes ocultos dos contos de fadas, tive a mais tenebrosa conclusão da minha tenra existência: eu havia matado uma criança.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Ótima crônica, Moacir. Excelente a reflexão sobre a vida e bem como o seu desfecho.

    Parabéns!

    Um abraço.

  • Sara dos Anjos

    Uau! Primeiro fiquei com raiva de você (onde já se viu ceder à pressão dos amigos e chegar ao ponto de matar um bicho?). Depois me deu uma tristeza infinita pelo sentimento do menino que você era e que te atordoou. E então, uma puta alegria pela consciência que já demonstrava tão jovem. Quem é assim Moacir, aos onze anos, leva esta consciência para o resto da vida. Você é um cara bom e isto não tem preço. O sapo acabou mostrando a que veio.