O Pacto das Trevas: Fortaleza – Parte 4

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The times, they are a-changing

Ele a reconheceu pelo cheiro. Mesmo depois de todo esse tempo, ainda usava o mesmo perfume.

— Você sempre descuidado — disse ela, surgindo das sombras de uma das ruas. A pele branca e acetinada brilhava com suavidade sob a luz rala da lua minguante. — Mas eu gostei do terno.

Ele abriu os braços, deu uma volta exibindo o traje branco e disse:

— Você também está muito bonita. Mas essa mania de parecer demais com eles me irrita.

Ela fez uma meia reverência, um meio sorriso no rosto pálido.

— E como você tem passado, meu rapaz? — ela perguntou.

Tibério passou a mão nos finos e bem cuidados cabelos brancos. Um gesto típico dele.

— A caçada tem sido difícil. Toda essa tecnologia ainda me incomoda…. mas eu gosto da emoção. E você?

Ela jogou a longa trança de cabelos escuros para trás. Tinha um rosto cheio, quase infantil. A aparência adolescente já lhe concedera muitas vítimas fáceis.

Ela gostava de caçar homens fortes e protetores, e fazê-los implorar por sua vida.

— Nada demais — ela disse — Eles ainda não acreditam em nós. Isso torna tudo mais fácil.

Tibério recostou-se na parede de concreto do mausoléu. Aquela era uma parte bonita do cemitério, bem cuidada pelas famílias ricas da cidade. Porém, sob a aparente beleza do lugar, o cheiro de putrefação era velho e claro.

— Como foi o enterro, Letícia?

Ela sorriu. Uma a uma, as luzes amareladas dos postes começaram a acender. Deveria estar bem alimentada, pois as presas eram quase imperceptíveis. Como gostava de parecer humana!

— Tedioso. Poucas pessoas compareceram. Ninguém gosta de ser associado a um louco.

— João Miguel não era louco — disse Tibério. — Sempre foi um adversário digno. Um dos mortais mais inteligentes que conheci.

— Mortal —ela disse. — Um mortal bobo que entrou por acidente em um mundo que não compreendia. Não, não me interrompa com sua admiração tola, Tibério.

— Um valoroso aliado — disse ele. — Até você mesma já o usou.

Ele sorriu, as presas afiadas mostrando a sede crescente. Tibério era assim: caçava no limite entre a selvageria e a razão, a Fome quase a ponto de torna-lo num monstro descontrolado. O ataque era calculado, mas o desfecho não: suas vítimas sempre eram encontradas estraçalhadas. Aquilo o excitava, dizia.

— Cinco pessoas — disse ela. — Os sogros, dois amigos do morto, o filho e a Bruxa.

— Angélica…

— Sim. Ela teceu um feitiço protetivo sobre eles. Não demonstrou surpresa ao me ver.

O homem grisalho fez que sim.

— E o garoto, como ele é?

Letícia lambeu os lábios. Ela se aproximou de Tibério e disse:

— Poderoso, mas não como o pai. Tem algo de caótico nele, de selvagem. Se eu fosse mais jovem, e ele tivesse mais treinamento, talvez – talvez! – eu o temesse.

— A mãe dele era assim. A morte a rondava.

— Aquela inútil mereceu morrer — disse ela, sorrindo. — E não vamos exagerar, o garoto é um covarde indisciplinado.

— Muita gente se arrependeu de tê-la subestimado, Letícia. A inteligência…

— Você é engraçado, Tibério. Critica minha aparência, mas admira os mortais…

Tibério apanhou uma pedra do chão e examinou-a contra a luz de um poste.

— Sou um homem complexo.

Letícia deu um passo à frente, aproximando-se mais de Tibério. Ele soltou a pedra e ficou alerta. Havia perigo ali?

— O que dizem as Moiras? — perguntou ele.

— Que se ele começar a aprender, pode trazer a ruína para muitos de nós.

Tibério sentiu a Fome misturar-se com ansiedade. Aquilo era estranho. Inesperado, mas eram apenas predições de um grupo de velhos. Eles já haviam errado antes? Não. O erro sempre era de quem interpretava. Precisava ser cauteloso. Paciente. Observar.

— Ele é velho demais para aprender — disse Tibério.

— Sim. Mas isso não deve ser um empecilho. A Bruxa está apostando muito nele. Mas… eu soube que resistiu aos comandos dela.

— O quê? Impossível! — disse Tibério. — Será que a idade…

— Informação enviada pela Colônia — falou ela. — Você pode confirmar depois. Além do mais, eu não consegui me aproximar mais de cem metros deles. Ela não está enfraquecendo, apesar de querer passar essa imagem com aquela cara acabada.

Ele sentou numa das bordas da cripta. Eram informações preocupantes. E excitantes! Será que o jovem Miguel precisaria ser eliminado? Ou protegido? Ah, como era bom um pouco de emoção depois de tanto tempo cinza!

— Você já comeu hoje, Tibério? Não parece muito bem.

— Não se preocupe comigo. O que você acha que devemos fazer?

— Matá-lo — disse ela, a boca aberta, as presas brancas e pontudas auxiliando os olhos a passar a ideia de seu desejo assassino. — Hoje. Agora. Assim que a Bruxa partir de sua casa.

Tibério deu as costas. Era alto e forte, mas muito jovem se comparado a ela. Ainda assim, um aliado para se ter por perto em horas difíceis. Era constante e confiável, um soldado com código de honra. Um típico seguidor de César. Como seria matá-lo e beber seu sangue? O que ela ganharia com isso?

Por que ele hesitava?

— Ele ainda é puro?

— Infelizmente sim — disse ela. — Mas você deveria deixar de lado essa bobagem.

— A Colônia deu ordens para eliminá-lo?

— Não, Tibério, mas…

— Sem ordens, sem mortes desnecessárias. Ainda mais de um jogador tão interessante, que ainda não fez nenhum movimento.

— Esse rapaz vai nos trazer muitos problemas, Tibério…

— Não há como saber ainda — disse ele, e seu tom era de encerramento.

Letícia suspirou.

— Não desobedeça uma ordem direta, Letícia.

— Nunca pensei que chegaria o dia em que uma formiga daria ordens a uma deusa —ela disse, e sorriu.

Tibério foi rápido. Ela percebeu a mão fria ao redor do seu pescoço antes de vê-lo se mexer.

— Não sou uma formiga — disse ele, o hálito frio e sem cheiro mexendo com os cabelos que caiam sobre a orelha dela. — e não acredito em deuses. Só creio naquilo que posso matar.

— Não vou mais subestimá-lo, Tibério — disse ela, e ele a soltou. — E não vou esquecer disso.

Os olhos dela eram dois poços de escuridão. O ódio era denso e antigo. Ressentimento. Mágoa. Medo.

— Não esqueça.

Ela fez uma nova reverência, mas dessa vez com o corpo rígido.

— Observe o rapaz, mas não interaja. Deixe-me informado sobre tudo.

— Sim, senhor — A voz dela não trazia nenhuma emoção. Ele a admirou pelo autocontrole.

— Tenho fome — disse ele, e sumiu.

A lua nascia gigante e amarela a leste. Letícia sentiu o cheiro de um mortal que passava ali, no corredor ao lado. Fazia anos que não matava em um cemitério. Era clichê, mas aquela não era uma noite comum.

— “And the first one now/ will later be last” — cantarolou, caminhando devagar em direção à presa. — “For the times/ They are a-changing…”

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Sara dos Anjos

    Cada vez gosto mais (eu sei disso porque quero saber o que acontece depois!)… Esperando pacientemente (mentira)!

    • Sara dos Anjos

      o “pacientemente” é que é mentira, viu, Michel?

      • Michel Euclides

        Logo logo tem mais!

  • Nay Chan

    Curiosa, eu achei que a parte 4 ja era a parte final por algum motivo mas vejo que há muito mais pano pra manga do que isso.

    • Michel Euclides

      A história segue! 😉