Apenas Saudades

Outro dia, estávamos em uma pizzaria, e, para entreter as crianças, ensinei-as a desenhar naqueles papéis que forram a mesa. Nana começa a desenhar e contar histórias, até que, num dado momento, ela desenhou túmulos. A nossa amiguinha falou na hora em que viu “Nossa! Ela está desenhando um cemitério!”, ao que respondi “O que tem? Todos morrem”.

Pois é, Nana tem esse hábito de chocar algumas pessoas com o assunto morte, já que gosta do tema, e a gente não se importa de responder suas perguntas, além de entrar em contato com obras que falam disso.

Na verdade, creio que toda criança se interessa por isso, mas somos nós, os adultos, que mistificamos toda a temática e, pior, nos mantemos longe dela. E engraçado como isso é atual e vem aumentando tanto com o decorrer dos tempos.

Digo isso porque, até a década de 1980, ainda era muito comum as pessoas morrerem e serem veladas em casa. Depois, fomos mantendo a morte longe de nós. Claro, por diversos motivos que incluem até o bem estar do doente e cuidado com a saúde dos saudáveis. Mas, ao manter longe, também mantemo-na longe da vida. E me questiono, hoje, se isso é bom.

Eu não gostava de velórios. Creio até que tivesse ojeriza deles. Até o dia em que um grande amigo faleceu. E como o amávamos… E, por esse amor, a morte tomou um outro significado: eu quis abraçar o meu amigo; eu desejei que ele se levantasse, sorrisse e dissesse “pegadinha!”; eu quis vê-lo até o último momento, pois sabia que era o último.

E, notável, foi ver a ternura de minha amiga-irmã, hoje a mãe da mesma menininha da mesa da pizzaria: foi ela quem me ensinou que havia um olhar de ternura para com a morte, que havia o toque, que havia o carinho, muito mais do que a dor. No olhar da minha amiga, que compartilhava o mesmo momento conosco, eu vi que morte era muito mais do que perda. Morte é uma parte da vida. E morte era a continuidade do amor.

Sim, do amor. Significa que a pessoa segue, não iremos mais encontrá-la, mas ela não se vai, pois faz parte de nós. Já dizia Camões ao dizer “transforma-se o amador na coisa amada”. Quem amamos sempre estará conosco.

São Francisco de Assis já a chamava de Irmã Morte, já que também era uma criação de Deus, como todos nós somos.

Sim, ela é uma irmã. A ovelha negra? A chata? A inconveniente? A incompreendida.

Ela é uma irmã que, no final das contas, não nos tira nada: apenas nos dá a certeza de nosso amor. Por causa disso, não dá para ter ódio dela. É triste. Mas é sensato. Faz parte de nós.

Não, ninguém morreu hoje. Mas é que às vezes bate uma saudade danada…

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    Lindo texto! Me emocionou…

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    Especial de bom! Fiquei emocionada!

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    Tocante, leve e lindo texto! Parabéns!

  • Elisabeth Lorena Alves

    Lindo texto. Sou apaixonada pelo tema. Escrevo muito sobre a morte e fui ensinará a respeitar a morte como o que é eterno, já que a parte da existência que temos uma forma corpórea é transitória. Entendi que somos eternos ainda nova, antes de entender que a morte era uma cisão definitiva. Aprendi sobre o separar definitivo com minha mãe-avó, que foi quem me ensinou tudo o que sei sobre vida, ética, moral, respeito e cultura. E acredito que se uma criança inicia sua vida conhecendo sobre o assunto, respeita a vida, entende-se e aproveita muito o tempo que passa aqui, vestido de seu corpo terreno.
    Também vivi o tempo em que a pessoa que amávamos, ficava exposta aos abraços e louvores de quem partilhou a vida com ela. Ali cantavam-se suas canções preferidas, choravam a saudade iniciada, contavam as alegrias e vitórias, sempre nas salas das casas. Despedida de minha avó assim, aos 9 anos de idade…