Abduções, repetições e golfinhos

O “Menino do Acre” é notícia velha, eu sei. Não custa lembrar, porém, o quanto esse rapaz é representativo de como as coisas funcionam no Brasil, de como nada por aqui acontece a sério. Quer dizer, até acontece, só não a sério-sério, entendem?

Um parêntese: esse nosso hábito de repetir palavras para convencer alguém de que aquilo que falamos é de verdade, inclusive, já mostra bem o quanto vivemos em um ambiente de constante descrença. Como sempre parece que a gente está ocultando algo, usando eufemismos, é necessário garantir, dar ênfase.

Bruno Borges, que não é menino-menino, é um adulto, também não sumiu-sumiu: foi buscar conhecimento enquanto seus pais publicavam sua obra. Diz ele que não teve intenção de capitalizar sobre o próprio desaparecimento. Tudo bem que ter deixado um quarto milimetricamente arrumado para fomentar teorias da conspiração ajudou, mas foi sem querer. Ele tem gosto exótico para decoração.

Por mais que o Brasil resista firmemente a todo esforço de lógica, também decepciona quem tem uma queda pelo fantástico. Nossos absurdos costumam ser bastante comezinhos. Bruno Borges poderia mesmo ter encontrado a cidade perdida de El Dourado, ou quem sabe ter sido abduzido, mas não: foi apenas um golpe barato de marketing. Nossas fantasias são tão reais quanto cotidianas. Peguemos o exemplo de Renan.

Renan é uma força da natureza. O homem tem uns sessenta anos e está na política desde as margens do Ipiranga, quando por certo conspirava pela queda de Dom Pedro I. Contra ele pesam mais suspeitas que contra gato em peixaria. Já fizeram abaixo-assinado, protesto, ameaças. Renan está lá, firme e forte. Nada o derruba.

— Mãe, o Renanzinho subiu na árvore de novo!

— Deixe de implicância.

— Mas mãe, porque ele pode subir e eu não?

— Você sabe que Renanzinho não cai.

Depois que virou a maré do golpe, Renan tratou de abandonar o “governo” (vocês sabem, não é um governo-governo) e já está aparecendo até ao lado do camarada Lula. Best Friends Forever. Para usar a palavra da moda nos estúdios de tatuagem, isso que é resiliência.

A qualquer espectador de fora, pareceria que Renan tem algum superpoder. Quem dera a explicação não estivesse em conchavos políticos, trocas de favores, chantagem. Renan poderia ter sido, ele sim, abduzido, aprendido umas coisas com os alienígenas. Seria muito mais interessante.

— Devolve esse aí, Zairon, que se ele chega ao nosso Planeta Voltron estamos fritos!

Bruno Borges deveria ter tomado umas aulas com Renan antes de pôr seu plano em prática. Fosse Renan que tivesse produzido esse espetáculo, podem ter certeza que estaríamos todos levando a sério até hoje. Acreditaríamos na história da abdução, por exemplo. Quem não acreditasse, teria que aceitar.

Outra figura que deveria ter tido umas aulas com Renan é o biólogo Richard Rasmussen. Alguém se lembra dele? O cara se dizia amante da natureza e apresentava esses programas de “aventura”, metendo-se no mato para agarrar animais e mostrá-los às câmeras.

Daí que certo dia Richard resolveu forjar uma denúncia de massacre de botos na Amazônia para vender a reportagem ao Fantástico, da Globo. Como ele fez isso? Contratando pescadores para que matassem um… boto! Um documentarista gringo (tinha que ser!) descobriu, alardeou, e logo pipocaram diversas autuações do Ibama no passado de Richard, dezoito no total.

Fiquei aliviado, pois finalmente os programas dele teriam fim. Nas poucas vezes em que o assisti na TV, ficava angustiadíssimo quando o via se atracando com algum jacaré, com alguma tartaruga. Imaginem o terror que os coitados passavam.

Aliás, sempre odiei esses programas em que alguém vai lá bulir com os bichos. Lembro-me de ter ficado particularmente indignado com um, acho que da National Geographic, em que certo idiota puxava um golfinho de dentro do mar, jogava no barco e passava horas cutucando o pobrezinho, mostrando esse ou aquele detalhe anatômico. Eu já estava roxo quando devolveram o golfinho pra água.

— Ananias, onde é que você se meteu? A gente já estava preocupado.

— A-a-acho que fui abduzido.

— Corta essa, você tava com a Marileuda. Te vi dando pirueta pra ela.

— É sério. Fui abduzido.

— Isso tem a ver com aqueles livros que você anda escrevendo lá nos corais, né?

— Não, estava nadando sozinho e…

Chega um golfinho todo pomposo interrompendo a conversa, estranhamente parecido com um tubarão. Os outros logo dão espaço.

— Que reuniãozinha é essa?

— Doutor Renan, eu… eu estava contando que fui abduzido por alienígenas. Criaturas estranhas, sem nadadeiras, numa nave sem água, sobre a água…

— Você está inventando ou delirando. Não é assim que os alienígenas abduzem. Eu sei como é, afinal fui abduzido-abduzido.

Os golfinhos balançam a cabeça e não se fala mais no assunto.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Sara dos Anjos

    Sabe… era para achar engraçado, mas não é pra rir… nem um pouco! Pobre Brasil!

  • Claudia Jeveaux Fim

    Muito, muito bom! Parabéns!

  • Juliana

    Apreciei muito o seu trabalho. Sinceramente gosto muito da sua forma original e clara de usar a lógica das palavras. Amei aparte da coluna que fala dos botos.