A segunda morte*

Foram três batidas antes que o velho mago chegasse até a porta. Ele podia sentir o tempo em seus ossos agora que o inverno se aproximava. E também pressentia perigo, sofrimento e raiva na pessoa que estava do lado de fora.

Abriu a porta e o luar entrou prateado. A leste o céu estava nublado, e o cheiro de terra molhada era reconfortante. O homem parado diante de sua casa era alto, jovem e estava ferido.

– Entre.

Ele entrou com passos inseguros na cabana do mago e ficou de pé. Sua cabeça quase encostava no teto. Havia sangue no lado direito de seu corpo, vazando através dos dedos que tentavam contê-lo.

– Sente-se, rapaz. Antes que caia.

O homem sentou. A cadeira rangeu sob seu peso.

– Droga – disse o homem ferido. Quase um sussurro.

O mago caminhou no vão que era, ao mesmo tempo, sala, quarto e cozinha, desviando-se de cadeiras e uma mesa grosseira. Penduradas nas vigas do teto, folhas e cogumelos prendiam-se em seus cabelos cinzentos quando ele passava.

Ele trouxe um balde com água da cozinha até perto do homem.

– Como é seu nome? – perguntou o velho.

– Alber – disse o jovem. Seus olhos estavam turvos.

– Lave-se, Alber. Vou ferver um pouco d’água.

Enquanto o mago levava uma panela até a lareira ouviu o gemido de dor de Alber ao tirar primeiro o casaco de pele, depois a camisa. O barulho de rasgar indicava que parte do tecido fino estava pregado nas bordas ferimento.

A água ferveu logo. O mago se aproximou do homem e viu que ele dormia. Estava com uma coloração cinzenta na pele. O velho deu-lhe um tapa no rosto.

– Ei! – gritou Alber.

– Não durma. Você perdeu muito sangue.

O homem fez que sim. Seu olhar estava distante. O velho lavou as mãos na água quente e disse:

– Preciso verificar a profundidade e a gravidade do ferimento. Vai doer.

Nova afirmativa. O mago apanhou um pedaço de madeira e falou:

– Morda com força.

O ferimento era extenso e profundo, errando por pouco os órgãos vitais. Possuía um cheiro rançoso, como se fosse uma ferida antiga, mas não era. O velho estava surpreso que Alber ainda estivesse consciente. Ele gemeu quando o velho começou a mexer na ferida e a sussurrar um encantamento, mas calou-se. Era um sortilégio simples, mas exigia muito do feiticeiro. Antes de terminar, o velho sentiu-se tonto e frio, mas o homem mais jovem parara de sangrar e o ferimento estava fechado.

O mago ficou de pé. Alber dormia, mas já não corria risco de morte. Faltava menos de uma hora para o amanhecer, não adiantava tentar dormir. Esquentou mais água, fez um chá de hortelã e aguardou até que o homem acordasse.

*

– Você é o mago Folha?

A voz do rapaz era forte e profunda. Não era um camponês.

O velho estava de costas para a cadeira comendo uma maçã e havia percebido segundos antes o despertar do homem.

– Não ouço esse nome há anos – respondeu o velho.

– Então como posso chamá-lo?

– As pessoas daqui me chamam de mago, feiticeiro, bruxo, senhor. Escolha um.

– Posso chamá-lo de Folha?

– Faça o que quiser – respondeu o mago. – O que você veio fazer aqui?

– Procurar ajuda para curar meu ferimento – disse Alber.

– Inverdade – falou o mago. – Minta para mim de novo e eu o matarei.

Medo. Dúvida. Escuridão. Havia algo estranho na mente do jovem, pensou o mago. Alber suspirou e continuou:

– Eu vim aprender.

– Não aceito discípulos – respondeu o velho.

– Foi profetizado há muito tempo atrás…

– Não acredito em profecias também! – gritou o mago, virando-se para Alber. Ele ainda estava sentado no mesmo lugar. A barba negra escondia seu rosto, mas os olhos eram vivos. – Mentiras, mentiras e mais mentiras criadas pelo Conselho!

– Eu tenho o Dom, Folha – sussurrou o homem. Estava mais corado e vestira a camisa rasgada e manchada de sangue.

– Não vou ensinar a você, rapaz! Nem a ninguém que venha. Será que eles ainda não perceberam? Olhe para mim e diga o que você vê, use seu “Dom”!

– Um mago sem cajado – disse Alber.

– Isso mesmo! Um velho e quase morto mago aleijado! Sabe o que faço? Chás e infusões, talas para ossos quebrados e pequenos encantamentos de unir e achar!

– Não acredito que o grande mago Folha, o mais poderoso de Ainuë, seja apenas um simples curandeiro de aldeia.

– Mas é o que sou agora: um simples curandeiro de aldeia. Faça-me um favor, então: pegue sua decepção e seu casaco imundo e saia antes que eu mate você.

– Se você é apenas um curandeiro, não preciso temer suas ameaças – disse Alber, ficando de pé. – Ainda há poder em você, eu posso ver! Por que se esconde aqui, no meio do nada, entre esses insetos?

O velho mago apanhou uma bengala que estava encostada na parede e caminhou até a porta.

– Não é da sua conta – disse ele, enquanto saía. – Espero que não esteja mais aqui quando eu voltar.

*

Apesar do sol, o dia estava frio. Folha retornou para casa perto de meio-dia e encontrou a porta fechada. Talvez ele tenha ido embora, pensou ao abrir a porta. Mas o outro ainda estava lá, sentado na cadeira onde o deixara.

O mago colocou uma mão cheia de ervas e um coelho sobre a mesa e disse:

– Vai ser do jeito difícil com você, não é?

– Sim, mago. Ou você me mata, ou me ensina.

Folha fez que sim. Apanhou a faca e começou a esfolar o coelho.

– Eu matei o Rei, Alber. Durante a Guerra do Meio.

– Ele era louco – disse o rapaz. Havia sarcasmo em sua voz.

– Não. Ele era um homem sagaz e lúcido, cheio de honra. Amava o povo. Teria sido o rei mais querido se eu não o tivesse matado.

– Não é o que os magos do Conselho dizem – disse Alber.

– Eles não sabem da história verdadeira.

– E qual é?

– Não importa – respondeu o mago. – Não pode ser desfeito.

Alber levantou e caminhou até a mesa. Olhou nos olhos do velho e disse:

– É verdade que ele fez um pacto com Anon?

– Para que o reino fosse forte e invencível? Sim – disse Folha. – Mas Anon é invejoso e maldoso, e o preço foi alto. Ele invadiu o corpo do Rei e tomou o controle, dizendo que ia “controlar Ainuë e governar seus protegidos”.

– Ele tinha boas intenções e você o matou?

Folha já havia retirado toda a pele do coelho. Estava agora o estripando.

– Sim. Empalei-o com meu cajado enquanto realizava um feitiço de morte e exílio.

O homem de barba negra virou as costas e Folha sentiu a tensão. Sabia o que viria agora. Percebera a semelhança assim que o vira, mas não havia o que fazer. Era sua sina. Alber se virou novamente para o velho e sorriu.

– Você me reconhece, Folha?

– Sim. Reconheço-o agora.

– Bom. Aqueles idiotas do Conselho não conseguem enxergar um palmo diante do nariz.

O mago jogou pela janela as tripas do coelho.

– Você veio para me matar, meu Rei?

– Como eu disse, vim para aprender.

– Por que?

– Este corpo… ele tem a mania de se abrir no ponto onde você enfiou o cajado da última vez que… nos encontramos. Perguntei a Anon o porquê, mas ele não me respondeu. Ele não me responde há três meses. A ferida tem aumentado há cada dia. Cheguei a pensar que não acharia você antes de morrer de novo.

– E você quer dominar isso? Aprender a se curar?

– Claro. Sou muito poderoso agora, Folha. Mais do que jamais fui! Este corpo… eu posso sentir o poder, mas não posso manipulá-lo. Se você me ensinar pouparei sua vida, e deixarei que governe comigo. Juntos não precisaremos de Anon!

– Não posso – disse o mago. – Não posso permitir que Anon penetre no mundo de novo. Muitas vidas foram perdidas na Guerra.

– Venha comigo, Folha, e juntos baniremos Anon!

O velho largou a faca sobre a mesa. Suas mãos estavam vermelhas.

– Não vou ajuda-lo, meu Rei. Está corrompido, e parte disso é minha culpa. Sinto muito, meu amigo.

– Então você deve ser convencido – falou Alber. Seus olhos ficaram amarelos e seu hálito trouxe um mau cheiro de sangue e putrefação.

– Você não pode me controlar, Anon – falou Folha, e sua mão foi um raio.

– Não! – gritou Alber-Anon, mas era tarde demais. Folha cravou a faca em seu próprio peito e recitou um feitiço de bloqueio. Estava caído no chão, uma espuma vermelha nos cantos da boca.

– Maldito seja, Folha! Maldito seja!

– Perdoe-me, meu Rei. Meu amigo – disse ele com um sussurro.

Alber-Anon explodiu em fúria, mas era inútil. O mago estava morto. Teria de achar outro jeito de permanecer neste corpo. Ainda tinha algumas semanas antes da ferida aparecer novamente.

Caminhou até a porta sem olhar para trás. Atravessou o umbral e não tinha dado três passos quando sentiu a dor do ferimento a abrir. O sangue encharcou sua roupa e ele caiu de joelhos, depois de bruços. Sentia a terra e a grama sob o rosto. A dor sumia junto com sua consciência.

– Maldito seja, Folha – sussurrou, antes de morrer pela segunda vez.


*Originalmente publicado em Contos Intocados

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Sara dos Anjos

    Sinceramente, Michel. gostei muuuuito do conto, mas confesso que não entendi como o mago morreu… O que perdi?

    • Michel Euclides

      Sarinha, obrigado pela leitura! Sobre como o Mago morreu, tava meio nublado mesmo. Acrescentei uma palavrinha lá, dá uma lida agora! Valeu pelo toque!

      • Sara dos Anjos

        Ah! Fez toda a diferença! Excelente!!! Queria muito ler mais sobre estes personagens, de quando o rei Anon morreu, por exemplo! Gostei demais deles e da história! Parabéns, Michel!

  • Eugenio Palma

    Muito bom mesmo!

  • Claudia Jeveaux Fim

    Gostei muito! Fiquei querendo a continuação, rsrs. Parabéns!

  • Moacir Marcos

    Meu irmão, que conto! Fui surpreendido pela virada no roteiro. Fiquei: WHAAAAAAT???