Meu saco de batatas

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu os mais velhos dizerem “O que é seu está guardado”!

Dizem isto depois que seu namorado se mandou, depois que você perdeu o concurso literário, depois que foi preterido na promoção, depois que foi descartado na entrevista…

Perdi a conta de quantas vezes já ouvi isso!

Estou esperando, mas o que é meu parece estar guardado a sete chaves. Será que jogaram as benditas fora ou a fechadura enferrujou, emperrou e não abre mais nem com marretada?

Ou será que com esta onda de assaltos que anda por aí jogaram uma bomba na porta do lugar onde estava guardado o que é meu, entraram e roubaram tudo?

Ai meu Deus! Será que não há mais nada reservado para mim?

É melhor não pensar muito nisto e continuar insistindo na busca de sucesso nas empreitadas que enfrento da vida. Teimosia é o que não me falta.

Perdedora ou não, é melhor continuar esperando pela tal coisa que é minha. Afinal, sou batalhadora, deixo sangue e suor no que faço e faço tudo com paixão. Mereço o que me está destinado!

A leitura de um certo livro de segredos só fez alimentar esta minha busca esperançosa porque ali diz que existe muito de tudo e para todos… no Universo. Que eu posso esperar pelo que tenho direito e desejar o que quiser, sem culpa.

Neste tal de Universo não há limites, não há carestia de recursos, não existe a mínima possibilidade de, querendo o que é meu, acabar tirando algo de alguém. Tem coisa guardada para todo mundo.

E assim sigo no caminho da insistência, da teimosia e da esperança.

Oxalá ninguém — que não seja eu — consiga encontrar o lugar onde está armazenado o que é meu, mas se alguma outra pessoa porventura descobrir onde fica este misterioso espaço, queira Deus que ela não consiga levar o conteúdo, seja ele qual for.

Se morrer esta última esperança, penduro as chuteiras, jogo a toalha e vou plantar batatas.

Quem pode me garantir que o que é meu e está guardado não seja, afinal, um modesto e singelo saco de batatas?

 

Escritora por vocação, analista de sistemas por profissão, romântica de coração, crítica até no dedão, engraçada em qualquer situação, cabeça minada de preocupação, pés no chão, digna de respeito e consideração, honesta de plantão, quase um animal em extinção e nunca fez lipoaspiração.

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Sara dos Anjos

Escritora por vocação, analista de sistemas por profissão, romântica de coração, crítica até no dedão, engraçada em qualquer situação, cabeça minada de preocupação, pés no chão, digna de respeito e consideração, honesta de plantão, quase um animal em extinção e nunca fez lipoaspiração.

  • Claudia Jeveaux Fim

    Boa perspectiva! O que mais gosto é desta sensação de estar conversando com você, sentadas na cozinha, descascando batatas! Muito bom, Sara!

  • Sara dos Anjos

    hahaha Amaria isso de conversar na cozinha!!! Obrigada, CLaudinha!

  • José Carlos Brandão

    Afinal, já dizia o grande Machado: “Ao vencedor, as batatas!” Todos temos como prêmio as nossas batatas reservadas, o que quer que sejam elas.
    Sempre um prazer conversar com você, Sara. Um abraço.

    • Sara dos Anjos

      Certo! Então a nós, as batatas!! hahaha Obrigada, poeta! Pela leitura e comentário!

  • Iolandinha Pinheiro

    Se parar para esperar não faz nada. Enquanto não se acha o que é certo para cada um de nós, vamos vivendo com o errado. A vida é como a medicina, tentativas e erros até acertar o diagnóstico. Valeu, grande Sara. Beijos.

    • Sara dos Anjos

      É isso, Iolandinha! Que não sejam batatas o que nos está reservado! Obrigada!!!

  • Fabiano Sorbara

    Ótima crônica Sara, ela brinca com méritos, expectativas e realidade, gostei bastante!

    • Sara dos Anjos

      Obrigada por ler e comentar, querido Fabiano!!

  • Cris Dakinis

    Ótimo, Sara! Que digam estarem assando as batatas (rsrs), você se garante e muito..Gostei 🙂

    • Sara dos Anjos

      hahaha Que beom Cris!!! Obrigada, querida amiga!

  • Angela Cristina

    O que é seu está guardado?
    Caraca, então,tem mais talento vindo por aí?
    E que venha!
    Parabéns, seu textos são ótimos.

    • Sara dos Anjos

      hahaha Angela!!! Oxalá sejam mais crônicas que agradem!! Muito, muito obrigada por ler e deixar este recado ótimo!!!!!

  • Sérgio Bernardo

    A sarice de hoje é uma boa reflexão sobre o sol ser para todos. Ótimo texto. Parabéns.

    • Sara dos Anjos

      Oi Sérgio!!! Que bom que você leu e gostou!!! Agradeço muito, muito!!

  • Moacir Marcos

    Sara, adoro textos que jogam com as expectativas do leitor. O trecho final é perfeito: sim, e se o que nos espera, ao invés do futuro glorioso que costumam nos pintar, é apenas um saco de batatas?

    Ter que lidar com a decepção é o maior desafio para nós, humanos e ambiciosos, sobretudo numa era em que se vende felicidade e satisfação imediatas.

    • Sara dos Anjos

      Você “pegou” tudo na hora!!!! Sensacional! Obrigada, Moacir, pelo tempo de leitura e crítica!!!

  • Marcia Brack

    Legal Sara! Com certeza não devemos desistir, jogar a toalha e esperar apenas como recompensa por nossa luta, um singelo saco de batatas. Nem pensar, nós guerreiras esperamos que pelo menos, venha acompanhado por uma faca bem afiada para descascar as batatas e faze-las bem fritinhas! Hummm….adoro batata frita!

    • Sara dos Anjos

      hahaha Amamos batata frita, né Marcia? E pure, salada… hahaha Com certeza não fico esperando que o que é meu venha a mim, vou à luta, mas que às vezes parece que algo me escapa, ah! isto parece!

      • Marcia Brack

        Cooom certeza Sara! Que parece, parece. Mas enquanto não chega, vamos comendo batatas mesmo! Rsss

  • Bom, “ao vencedor, as batatas!” – como bem lembrou o José.
    E com toda a profundidade metafórica que há na sentença, e seja à força da tal Lei da Atração ou seja por mérito, – e é o que esperamos -, aos lutadores as benditas batatas! Desde que não venham num saco de Ruffles, claro… ^^

    Abraço.

    • Sara dos Anjos

      (na onda do tudo fácil recorto e colo aqui a resposta ao teu comentário no Escambanautas) Hahaha Cá entre nós adoro uma Ruffles mas não são estas que espero! Com certeza minhas batatas virão (se vierem) por mérito, o de batalhar incansavelmente por tudo… Mas amaria se viessem pelo simples ato de pensar nelas com fervor, pelo menos uma vez na vida! Muito obrigada, Fred, pela leitura deste singelo texto!

  • Aline Teodosio

    Às vezes esperamos por algo tão grandioso, quando a alegria poderia brotar de coisas tão simples… Até que não seria má ideia transformar esse saco de batatas em batata frita. Hahaha Aí é que está o poder de transformação.
    Parabéns pelo texto, Sara. Você é excelente! Beijos.

    • Sara dos Anjos

      Obrigada, amiga Aline! De acordo com o José e o Fred, de repente sou uma vencedora se o que estiver guardado para mim for realmente batatas!! hahaha