Trabalho, morte e trabalho

― Ninguém trabalha mais que você! ― gritou-lhe a esposa aos soluços antes de trancar a porta do banheiro. A Morte ainda pensou dizer algumas palavras, respirou fundo.

― Volto logo.

Encontrou os filhos arrumando a mesa para o jantar.

― Já vai sair? ― perguntou o menino.

A Morte acenou com a cabeça, encolheu os ombros. O menino emburrou-se, largou o garfo no chão e correu para o quarto. A menina agarrou-se às suas pernas.

― Hoje é domingo, papai.

A Morte se desvencilhou dos bracinhos e deu-lhe um beijo na testa.

― Trago um chocolate para você.

Na calçada, os vizinhos jogavam baralho distraidamente.

― Vai uma cerveja?

― Estou indo trabalhar.

― De novo?

― O mercado anda aquecido.

Os vizinhos se entreolharam, cochicharam algo, e logo a rodinha explodiu numa risada.

― Bom trabalho, a gente se vê.

A Morte sorriu amarelo e abaixou a cabeça.

Esperou quarenta minutos no ponto e mais quarenta dentro do ônibus. O motorista guiava devagar, com excessivo zelo. A Morte observava o assento vazio ao seu lado. Uma pichação dizia “trabalhe para viver”.

Desceu em frente a uma Igreja. Os fiéis entoavam um cântico desafinado, abraçavam-se, pulavam. A Morte se arrepiou: assustava-se com Igrejas. Atravessou a rua correndo e quase deu de cara com um caminhão.

― Tá querendo morrer, porra?

Entrou numa ruela estreita de casas velhas. Andou mais um quarteirão antes de chegar ao endereço. Um cachorro gania na calçada, a pele coberta de feridas. A Morte bateu o pé para assustá-lo, ele só ergueu os olhos e tentou latir. Deu a volta com cuidado para evitar pulga ou doença.

Estranhou o portão trancado, tocou a campainha.

― Diga ― disse um rapaz.

― O Aldenor está?

― Não mora nenhum Aldenor aqui, não.

Impossível. Puxou o papel do bolso, conferiu. Era ali mesmo.

― Certeza? O Aldenor é mais ou menos desse tamanho, magrinho, faz três dias que tosse sem parar…

― Não conheço ― o rapaz cortou. ― Boa noite.

Talvez tivesse anotado errado. Isso nunca tinha acontecido em tanto tempo de profissão, mas sabia não ser à prova de falhas. Podia ser que o rapaz estivesse mentindo, também. Por qual motivo, se ela nem mesmo estava com sua foice? O diabo é que esqueceu o celular em casa, não podia ligar para a firma. Resolveu tocar a campainha novamente.

― Já disse que não conheço nenhum Aldenor.

― Seu pai está?

― Moro só com minha mãe.

― Pode chamá-la?

O rapaz chamou. A mulher reforçou que ali não morava Aldenor, que não conhecia nenhum na vizinhança, que nunca falou com um Aldenor na vida.

― Mas o Vladimir ali na esquina tá com uma tosse braba tem um tempo, já.

A Morte despediu-se e foi ter com o Vladimir da esquina. De fato, o homem não parava de tossir, mas uma rápida conferida na folhinha de registros mostrou que não era a sua hora. A Morte resolveu chamar em todas as casas do quarteirão na esperança de encontrar Aldenor. Nisso, começou a chover, e ela sem nem um jornal pra cobrir a cabeça.

Tocou incontáveis campainhas, descreveu diversas vezes Aldenor. Nada. A Morte levava seu trabalho a sério, mas daquele jeito não dava mais. Estava molhada até os ossos.

Voltou à avenida para pegar o ônibus de volta pra casa. O cachorro sarnento estava abrigado sobre a marquise, tremendo. Por via das dúvidas, a Morte manteve distância, preferindo ficar sob a chuva.

Demorou quase duas horas para chegar. Entrou devagar, as luzes apagadas, os filhos dormindo, o quarto escuro. Tirou a roupa e deitou-se com cuidado para não acordar a esposa. O celular tocou. A Morte se apressou para atendê-lo, mas a esposa já acordara. Era da firma.

― Vocês me passaram o endereço errado.

Confirmaram o endereço. Estava correto.

― Pois eu cheguei lá e o portão estava trancado. E outra: não tinha Aldenor. Ninguém conhecia nenhum Aldenor na rua.

― Um momento.

Ouviu vozes discutindo do outro lado da linha.

― Pronto ― disse o funcionário da firma. ― Achei o erro. O Aldenor morreu de pneumonia faz uns oito anos. O endereço que passamos está correto, só que ele reencarnou num cachorro. A Vida deve ter se esquecido de atualizar o cadastro. Olha, se você correr, ainda dá tempo de encontrá-lo por lá.

A Morte desligou o celular.

― O que foi? ― perguntou a esposa.

― A Vida ― suspirou a Morte. ― A Vida nunca trabalha direito.


Confira os outros textos da coluna clicando aqui.

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

LEIA TAMBÉM:

Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Michel Euclides

    Putamerda, Mestre, que texto foda. Mais um pra coleção dos Clássicos Moa!

    • Moacir Marcos

      Eita, já tem até essa coleção? 🙂

  • Sara dos Anjos

    Muito dez seu texto, Moacir, me lembrou As intermitências da Morte do Saramago que amo. Ri muito e adorei a Morte colocar a “culpa” na Vida!

    • Moacir Marcos

      Fico honradíssimo com a lembrança, Sarinha.

  • Claudia Jeveaux Fim

    Fabuloso! Você deu “vida” à morte, com direito a família! E um final surpreendente! Adorei!

  • Delma Maria Lucchin

    Adorei o texto…. você “deu vida” à morte e eu até fiquei com peninha dela… rsrs… Parabéns!

  • Angela Cristina

    Coitado do Aldenor!
    Morreu de pneumonia e agora é um cachorro sarnento sem lar?
    A Vida também é injusta.
    Ótimo texto!

  • Muito bom, Moacir. Boa escrita (como sempre tenho visto), bom humor. Um bom… “texto”, digamos. Não criemos mais polêmicas entre você, o Marcelo e o Andrade. ^^
    Abraço.

  • Ademar Ribeiro

    Excelente texto. Parabéns!
    Compartilhando em 3…2…