Planeta Perdido

Tudo estava era silencioso demais.

Já haviam se passado três horas-padrão do combinado para o contato quando liguei o COMlink. Estava pronto para quebrar o silêncio do rádio quando, através da estática, ouvi o sinal de abertura de comunicação da Arca.

— … Davi? Repito, você está na escuta?

— Pensei que tinha perdido vocês, Clarice.

— Está tudo bem agora. Uma formação de nuvens e descargas eletromagnéticas desabilitaram o sistema por alguns minutos. Relatório?

Eu estava numa floresta de árvores altas de troncos muito finos e aerados. As folhas tinham uma tonalidade cinza-azulada. As raízes espalhavam-se pelo chão. Uma grama azul rala crescia sobre o solo de areia negra.

— A floresta parece ser constituída por apenas uma espécie de árvore — eu disse. — Elas crescem em diferentes tamanhos. Há grama. Ainda não detectei vida animal.

— Nossos escâneres também não detectam nada sobre a superfície. Talvez você encontre alguma coisa sob a água. Confirma a análise atmosférica?

— Sim. Atmosfera similar à da Terra. Estou sem o capacete.

— Vou ter que reportar isso como quebra de segurança.

— Eu sei! Mas meu visor estava trincado e vazando! Não fazia diferença ficar ou não.

— Reportarei mesmo assim.

Maldito robô. Por que tinha que ser assim? Eu sabia que era possível ao modelo CLR-C simular emoções, mas ela não se esforçava.

— Faça o que tem que fazer, Clarice. Olha, vou encerrar a comunicação. Retomo a ligação em menos trinta horas-p, quando chegar à Planície Galileia. Desligando.

Dessa vez o silêncio foi bem vindo. No céu, Hyperion, a estrela vermelha cinco vezes maior que o Sol, estava próxima de seu fim. Se este planeta fosse considerado viável – e tinha tudo para ser, apesar da aparente ausência de vida animal -, teria a capacidade de abrigar o que restara da humanidade por quinhentos mil anos, antes que explodisse junto com sua estrela numa supernova que engoliria todos os seis planetas interiores.

Havia tempo demais.

*

O dia em Hyperion IV tinha 42 horas-p, e eu ainda tinha muito tempo de luz natural. Precisava montar meu abrigo.

O display holográfico expandiu-se sobre meu braço esquerdo e analisei as imagens enviadas pela Arca: eu era um ponto verde sobre uma superfície escura. A floresta era uma massa marrom e, a uns três quilômetros rumo a oeste, havia uma grande extensão de água.

Era para lá que eu iria.

*

Hyperion IV tinha uma vez e meia o tamanho da Terra, e a diferença gravitacional era quase imperceptível. Mesmo assim, por conta das árvores-raquete e do terreno acidentado, minha caminhada foi mais lenta do que eu gostaria. Após duas horas, cheguei exausto às margens do que parecia ser um grande lago. Não consegui ver a outra margem.

Coloquei a bolsa no chão e retirei dela uma esfera transparente do tamanho de uma laranja. Ao apertar um botão, ela acendeu num complexo padrão de luzes verdes e flutuou sobre minha palma. Quando recolhi a mão, ela caiu meio metro e voltou a subir, até ficar da altura do meu rosto.

Ativei o projetor e digitei alguns comandos. A esfera planou por mais alguns segundos, dirigiu-se em direção ao lago e submergiu.

Dados começaram a acender no display. Formas de vida microscópica: bactérias, vírus e fungos. Não sobreviveriam ao processo de ionização e filtragem. O pH estava em 8,2, aceitável para o consumo. Não havia traços de radioatividade nem de metais pesados.

Chega de água destilada de urina!

Orientei a sonda a fazer uma busca mais extensa: dez quilômetros a partir do ponto onde eu estava, em qualquer direção. A varredura revelaria o relevo do fundo do lago e a possível presença de seres vivos macroscópicos, alarmando assim que encontrasse algo considerado ameaçador ou promissor.

Tínhamos água e ar respirável. Análises preliminares do solo mostravam que, pelo menos no trecho em que eu andara desde que descera do módulo há quatro dias-padrão, a terra negra seria capaz de suportar vida vegetal nativa da Terra.

Parece que havíamos achado uma nova casa.

*

Faltavam três horas-padrão para a noite quando terminei de montar o acampamento. Eu já não vestia mais o Traje de Exploração Superficial (TES), o que me deixava bem mais à vontade. A temperatura era amena, mas acendi uma fogueira. O fogo era uma lembrança reconfortante.

O céu lilás começava a adquirir tons de um azul quase branco no poente. As estrelas, que brilhavam o dia todo, estavam mais nítidas e claras agora que ardiam no céu escuro.

Peguei uma barra alimentícia (sabor bacon, ovos e fritas), um copo de água recém-tratada (viva!) e comi meu jantar. Após mais alguns instantes admirando a beleza de Hyperion IV, apaguei a fogueira e entrei na barraca. Deitei e, sem muita demora, dormi.

*

Ainda estava escuro quando recomecei a caminhar. Estava descansado e de bom humor, e esses talvez tenham sido os motivos que me levaram a relaxar demais.

Após uma longa caminhada, atingi o ponto “C”. Pelos meus cálculos, tinha duas horas e vinte minutos antes de restabelecer contato com a Arca. Resolvi explorar.

Eu já estava pensando que a vida animal como conhecemos na Terra não existia ali quando ouvi um barulho vindo da floresta. Ao projetar o facho de luz de minha lanterna naquela direção, vi algo se movendo sobre o tronco de uma árvore-raquete morta.

Aproximei-me até ficar a uns dois metros da criatura e iniciei um escaneamento termovisual em multifrequências. Sim, era um animal. Definitivamente. Tinha o corpo longo e liso e possuía quatro patas, pequenas e finas: duas perto da cabeça triangular e duas perto da cauda.

Lembrava uma serpente.

Os olhos eram círculos amarelados com faixas horizontais negras e estreitas. Possuía pequeninos dentes finos e transparentes, e havia duas línguas escuras e bifurcadas saindo de sua boca.

Ajustei o raio na frequência “atordoar” e atirei.

*

O animal media três metros da ponta do focinho até a cauda. O corpo era coberto por microescamas translúcidas, provavelmente queratinosas. Possuía controle de temperatura interna, diferente das serpentes da Terra.

Lindo. Simétrico e perfeito. Eu nunca havia visto um animal como aquele.

Enquanto eu rodava um escaneamento mais profundo para tentar conhecer e compreender sua fisiologia, ele despertou e picou minha mão.

Não senti dor, mas o susto fez com que eu o soltasse no chão. Ele correu e entrou na floresta, sumindo entre as folhas secas e a grama. Meu coração batia descontrolado.

Eu tinha que me acalmar. Ativei uma das sondas flutuadoras e rodei um escaneamento bioquímico. Nenhuma toxina fora injetada, e o ferimento – três furos de tamanho médio e dezenas de perfurações pequenas formando dois semicírculos – não estava contaminado.

E então, de repente, o rádio voltou a funcionar.

*

— 3VA Clarice, Transporte e Comunicação. Oficial Explorador Davi Souza, na escuta?

— Na escuta, Clarice. Retomando contato.

— O Capitão leu os relatórios e, após análise dos dados, decidiu que não há problemas em permanecer sem o traje. Ainda sem sinais de vida animal?

Se eu dissesse que sim, deveria relatar o ataque. Se dissesse que não, deveria fraudar os arquivos antes da sincronização com os computadores da Arca em… doze minutos.

— Sem contatos com vida animal, Clarice. Mas continuo atento.

— Confirmo – respondeu ela. – Permaneça no ponto C por mais quinze minutos, até o encerramento da sincronização. O Capitão acredita já ter dados suficientes para mandar até o Comando.

Um bolo azedo formara-se em minha garganta. Eu deveria informar o ataque e solicitar quarentena e exames médicos, mas…

— Davi?

— Ok, Clarice. Permanecerei no ponto até a sincronização.

— O Módulo será ligado em quatro horas. Esteja nas coordenadas programadas. Clarice desliga.

*

Apaguei os arquivos referentes ao encontro com a “serpente” e ao meu escaneamento. Foi fácil, na verdade. Após a sincronização, caminhei em direção ao ponto de interceptação – que era bem próximo, uma hora e meia de caminhada – e, quando cheguei, preparei-me para esperar.

Encostei-me em uma pedra. O ferimento estava seco e havia criado uma casca. Talvez eu estivesse me preocupando à toa.

O céu começou a clarear à leste. Logo Hyperion nasceria, vermelho e imponente.

Mais uma vez dormi sem perceber.

*

Acordei com um barulho próximo. Abri os olhos e percebi que não estava só.

Um homem nu, alto e de cabelos escuros, mexia na bolsa. Retirava o que estava lá dentro, cheirava e colocava no chão.

Estaria eu alucinando? Seria efeito de uma toxina não identificável?

Por precaução procurei a arma no coldre, mas não estava mais lá.

— Está comigo – disse o homem, apanhando o dispositivo do chão e, ainda de costas, sacudindo-o para que eu pudesse ver. Sua voz era estranha. Familiar. – Achei melhor tirar daí enquanto você dormia. A serra laser também.

Uma rápida busca me fez perceber que ele, fosse quem fosse, tinha razão.

— Quem é você? — perguntei, e a voz saiu aguda e trêmula.

O homem se virou e pude reconhecer os traços. A boca estreita, o nariz largo, a testa alta…

— Sua língua foi fácil de aprender — disse. — E suas memórias.

Os olhos eram completamente negros. Tentei levantar, mas as pernas não se mexiam.

— Desabilitei suas pernas. A arma de raios pode ser bem precisa, sabia? Não me olhe assim, você poderia querer fugir.

Senti uma forte queimação na base das costas. Ele sorriu e sacudiu a arma laser mais uma vez.

— Quem é você? — perguntei.

— Alguém que vai embora no seu lugar. Estou preso aqui há muito tempo, e estou cansado. O Exílio acabou, criança.

— Do que você está falando?

Ele riu, a boca aberta e obscena. A língua era negra e bifurcada. Os dentes estavam perdendo sua característica cristalina, à medida que embranqueciam.

— Sabe as histórias que te contavam quando você era jovem? De como eu seduzi os Primeiros e conduzi-os à Queda? Bem, era tudo verdade. Não daquele jeito tedioso que escreveram, mas… a essência da mitologia pode ser bem fiel.

A voz dele era e não era a minha. Havia algo indefinível nela. Uma escuridão.

— É o vazio que se aproxima — disse. — Essa angústia que você sente agora. Mesmo com todo o esforço que fiz para que você não se desespere ou sinta dor, sei que está com medo. Sabe, este é o meu Reino. Não essa casca… a superfície. Lá dentro, lá embaixo: túneis e imensas abóbodas ardentes, lagos de fogo, os rios de lava… tudo verdade. É para cá que vocês vêm quando são maus. Só que em outra… fase, ou frequência. Como posso dizer? A “alma” de vocês, após a morte, é convertida em informação e, depois, materializada aqui.

— Isso é loucura! Eu com certeza estou sofrendo as consequências de ter sido picado por aquela cobra…

Ele riu, e seus dentes estavam brancos e opacos. A língua era uma única peça rosada.

— Chame como quiser: Tártaro, Helgardh, tanto faz. Mas vocês me surpreenderam! — Ele ficou de pé e bateu palmas, sorrindo como uma criança. Tinha a barriga completamente lisa, sem vestígios de umbigo. — Nunca imaginei que chegariam aqui vivos! E que me trariam uma nave! E um corpo novo!

— Este planeta é a última esperança da humanidade…

— Eu sei da história, criança, não se aflija. E não se preocupe com isso, há outros melhores. Eu os conduzirei até lá. Não é de meu interesse que a humanidade sucumba. Até hoje eu nunca matei nenhum de vocês. E de certa forma, vocês são meus filhos também. Posso não os ter criado, mas acho que me saí bem como pai adotivo. Não é? Não é a serpente que ilustra o dom da sabedoria? Não podemos rastrear toda a tecnologia e o progresso até mim?

Havia um umbigo agora. As cicatrizes – minhas cicatrizes! – apareciam em sua pele como se brotassem. A transformação estava completa.

Ele era eu.

— Preciso de suas roupas. E do Traje. Para parecer real, sabe? Cada detalhe deve ser impecável, ou aquela máquina que simula vida vai perceber.

— Não… — eu disse, mas não adiantava.

Ele pôs os dedos sobre os lábios e sorriu. Era assustador me ver daquela maneira.

— Não lute. Escute… parece que o Módulo se aproxima. — Ele dançou e cantarolou uma algo em uma língua que eu desconhecia. — Ah, vai ser bom retornar à Terra… tantas lembranças…

Luzes piscavam no céu, ficando cada vez mais próximas. O zumbido do motor indicava a aproximação do Módulo de Escape.

Ele apontou a arma de raios para minha cabeça e disse:

— Feche os olhos, criança de barro. Será mais fácil assim.

Eu estava cansado demais para resistir. Obedeci.

— Você tem sido um bom menino, Davi — disse ele. Ouvi o zumbido da arma carregando. – Provavelmente você irá para o Lugar. Para a Luz. Diga-me, você me faria um favor?

Abri os olhos e fiz que sim. Ele se ajoelhou, encostou a arma em minha testa, aproximou a boca de meu ouvido e sussurrou:

— Diga ao Papai que mandei um alô.

 

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Sara dos Anjos

    Simplesmente o máximo, Michell!!! Conto absolutamente fantástico (e nem tão ficção assim – quem nos garante?). Amei de paixão, a leitura me envolveu demais, demais
    !!!

    • Michel Euclides

      Sara, você sempre muito gentil! Obrigado pela leitura!

  • Gostei do conto, Michel. Uma sci-fi com um certo quê de “Supernatural”, eu diria. ^^
    Boa escrita, narrativa curiosa e intrigante em alguns momentos. Suspensão da realidade com um bom embasamento científico (absolutamente necessário ao gênero).
    Só atente pra um e outro deslize na revisão. Parabéns!
    Abraço.

    • Michel Euclides

      Grato pela leitura, Fred! E obrigado pelo toque!

  • Claudia Jeveaux Fim

    Fiquei querendo mais! Ótimo!

  • Nay Chan

    Nossa muito bom! A mistura de mitologia com o sci-fi futurista é muito interessante e gostei do conceito de inferno! e gente que plot twist.

  • Muito bom, que cenário instigante! Digno daquelas explorações pulp de Perry Rhodan ou John Carter. Parabéns. ^^