A Porta Giratória

No meio de uma floresta fechada, há uma clareira iluminada pelos raios de sol. Nela, encontra-se uma grande porta giratória, de abas estreitas. Ela é feita de vidro e tem suas bordas em ouro cromado. Em abas opostas, pode-se ver um casal que anda num passo contínuo e lento. Essa porta não pode ser fechada: ou você entra ou você sai. Ela é apenas uma passagem.

Aquele casal não saiu. Parecem executar uma dança íntima. Ambos colocam um pé na frente do outro enquanto empurram de forma delicada a barra de ouro que se encontra na altura da cintura. É um movimento já conhecido por ambos. A rotina sempre nos passa desapercebida, mesmo que seja bizarra aos olhos de outros.

Às vezes, um tenta alcançar o outro colocando a mão sob o vidro espesso, mas o resultado nunca é diferente: a sensação fria que os lembra que o encontro da pele não se daria ali. Eles nem se lembram quando decidiram passar por aquela porta, e agora se questionam por que estavam em pontos diferentes, ao invés de estarem no mesmo local juntos.

O vidro não permite que ambos se ouçam. Às vezes alguém trava uma conversa imaginária, achando que o outro é capaz e ouvir. Quando percebem que sua luta é em vão, as bochechas inflam, o peito arfa e o outro só percebe que algo está errado quando sente as vibrações dos murros dados com raiva no vidro. Quando um chora, o outro tenta confortar, mas é inútil um abraço tendo em vista a distância que ambos estabeleceram quando entraram pela porta.

Se um para de andar, uma ordem de fatos é estabelecida: aquele que para será arrastado pelo outro que continua a andar, até que a força impressa pelos dois cesse, e ambos parem. Porém, não existe uma ordem para a saída dos dois.

Se eles saírem, irão para lugares diferentes, por estarem em cantos opostos. A incerteza dessa escolha é insuportável. Não existem mais possibilidades.

Por mais que estejam distantes, o casal se une na inércia do seu movimento. Unidos na ilusão daquilo que poderia ter sido, mas que nunca será.

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  • Claudia Jeveaux Fim

    Gostei demais da mensagem impressa, da fluidez do texto, da forma como conduz o leitor à uma reflexão. Parabéns!

    • Juliana Ferraz

      Obrigada, Claudia! Que bom que gostou. 😉