A Carta de Amor de Mirtes

(Querida Mirtes, através desta carta quero demonstrar todo o amor que sinto por você), leu com a voz normal, depois pigarreou e seguiu tentando engrossar a voz. (Então, já começo falhando, pois sei que essa é uma tarefa impossível. Para isso, eu deveria escrever um romance, ou mesmo uma Bíblia) “nossa” (E acho que ninguém haveria de me crucificar por essa comparação com o livro sagrado porque isso não seria uma leviandade, justamente pelo conteúdo tão puro da carta), arregalou os olhos e quando leu a última frase. (Falha não é uma palavra adequada para se dizer numa carta de amor, mas acho que o amor vence tudo e qualquer palavra sortuda quando envolta nele pode mudar de natureza), recuperou o fôlego e continuou. (Então, quando a falha é por amor ela é automaticamente redimida e ao mesmo tempo nem precisa de remissão. Admito que falhei sim, e irei enumerar algumas dessas falhas aqui. Não se preocupe, ainda é uma carta de amor), “já tinha esquecido”.

(Primeiro, a falha menor: todo homem falha quando se apaixona. Perde os sentidos e a razão. Mas como falei acima, quando o amor está no meio tudo muda, e não me arrependo dessa falha. A segunda se trata do tempo. Saiba que não é de agora que eu nutro esse sentimento por você, mas demorei a entender o que sentia. A última, neste caso mais importante, se trata do motivo que faria qualquer homem rejeitar uma moça, o fato dela ter perdido a característica que a qualifica como tal. Qualquer um que lesse essa carta até agora que não fosse você não entenderia porque atribuo essa falha a mim, mas você deve estar entendendo. Não teria nada a ver com isso se eu mesmo não fosse o causador. Se você fosse filha do meu pai, com certeza já estaria casada com o seu sedutor, mesmo que obrigada, mas o destino não quis assim. Aliás, a trama perfeita do destino escreveu que eu não só teria a possibilidade de reparar o meu erro como me permitiu rever meus sentimentos e agora declarar o meu amor por você através dessa carta, que é a melhor serventia que um pedaço de papel poderia ter…

Você deve saber que essa não é uma coisa que acontece sempre, qualquer um que soubesse da sua condição me daria razão em rejeitá-la, mas dentre qualquer moça na cidade que eu poderia querer eu escolhi você, minha querida Mirtes. Já falei da capacidade redentora do amor, e percebe? Nós somos os sortudos.

Teu para sempre,

Estêvão)

Terminou de ler e parou para poder ajustar suas ponderações sobre a carta. Mal haviam passado do meio da reserva de modo que não dava para ver o seu fim. Apenas do lado esquerdo podia-se ver algo como uma área aberta, mas era a parte do rio.

“Meu? Do cão, só se for!”, disse Mirtes ao terminar de ler. A carta por fim conseguiu mudar o seu humor.

“Você não gostou?”, perguntou Camila.

Mirtes olhou para a amiga com um ar de quem não acreditou na pergunta. Esta seria em si a resposta, mas sabia que ela não entenderia.

“Claro que não! Que mau gosto. Mas ele conseguiu!”

“Conseguiu?”

“Sim! Conseguiu me provar o quanto idiota ele é! Não sei como um dia pude achar ele interessante. Mesmo com aquela cara de galã, eu nunca mais vou olhar pra ele sem me lembrar dessa cagada.”

“Mas Mirtes, qualquer menina da cidade iria querer se casar com ele.”

“Então ele pode escolher a que quiser.”

“Mas ele quer você, Mirtes. Você tem sorte de ele ainda te querer.”

“Eu não consigo entender essa sua burrice, sinceramente, Camila. Do que adianta ele me querer? O raio que o parta! E essa mata não termina? Parece que aumentou. Minha barriga tá começando a doer.”

“Eu também não entendo você, Mirtes. Se fosse comigo eu não pensaria duas vezes, me casava quando ele quisesse. Todas as meninas teriam inveja de mim.”

“Claro, qualquer um que aparecesse pedindo sua mão você daria. E, pensando bem, conhecendo vocês dois, vocês dariam um belo casal.”

“Você acha mesmo, Mirtes, ou é só brincadeira sua?”

“Falo sério, vocês combinam em vários sentidos e em um aspecto vocês foram feitos um para o outro. Ai minha barriga!”

“É mesmo? Qual?”

“A inteligência.”

Camila sorria satisfeita enquanto Mirtes balançava a cabeça em negação para logo mudar para uma careta de dor.

“Ai! Acho que não vou conseguir esperar até chegar casa!”

“Ah não diga isso, Mirtes. Estamos quase saindo daqui.”

Depois de caminharem por alguns minutos, Mirtes percebeu que não conseguiria chegar em casa a tempo.

“Olhe, já deve ser meio dia e eu deveria estar em casa às onze. Não posso esperar você, tenho de ir”, disse Camila.

“Vá embora, infeliz. Sempre some quando mais preciso!”

“Não é assim, Mirtes, você sabe como a minha mãe é, se ela desconfia que a gente estava na praia , ela não me deixa mais sair de casa”, disse Camila se afastando.

“Só não queria voltar sozinha, porque para cagar eu não preciso da ajuda de ninguém”, disse Mirtes aumentando a intensidade da voz a medida que a outra se afastava. “Mas onde?”

No momento seguinte, não conseguindo se controlar, um emaranhado de raízes de uma árvore pareceu-lhe o lugar perfeito para acomodá-la durante a satisfação da necessidade impulsiva. Em segundos já estava acocorada. Um misto de relaxamento e preocupação se via em seu rosto. “Não há nada de estranho em se cagar no mato. Nem sempre existiu privada, então as pessoas faziam assim. Os animais fazem toda hora”, dizia a si mesma. A imagem de Estêvão aparecia em sua mente frequentemente, enquanto tentava se manter concentrada em seu pequeno prazer. Muitas pessoas podem não admitir, mas Mirtes não negava a si mesma que sentia prazer naquilo. Se pudesse escolher, não desejaria que não tivesse acontecido. Decidiu que iria aproveitar ao máximo a situação, mas também que deveria acabar. A declaração de amor de Estêvão massageava seu ego. Sim.

Quando estava acabando, lembrou-se de que ainda não sabia como iria se limpar. Havia apenas mato e folhas secas ao seu alcance e ela não achou nada agradável usar aquelas coisas. Estava pensando em como era que as pessoas que viveram antes do papel higiênico ser inventado faziam para se limpar, porque os animais não precisam disso. “Eles são livres, fazem o que querem e não ligam para o que vão achar. Eu poderia ser…”, não tinha terminado a observação quando a solução piscou em sua mente de súbito.

Segurou a carta na altura do rosto e olhou-a de cima a baixo com o olhar mais apaixonado. O olhar que todo admirador desejaria ver em sua admirada ao ler sua carta de amor. Sentiu a textura do papel. Era resistente e ornamentado, próprio para algo especial.

As palavras doces e envoltas em amor devem ter amaciado o papel, pois o toque em sua pele foi suave e confortável. E logo não restaram muitas das palavras escritas por Estêvão para serem lidas. Mas a moça estava limpa e um ar de completa satisfação havia em seu rosto.

De Maceió. Professor de inglês e estudante das letras, passou a escrever para se livrar dos fantasmas em sua mente, o que se tornam seus personagens quando ignorados.

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De Maceió. Professor de inglês e estudante das letras, passou a escrever para se livrar dos fantasmas em sua mente, o que se tornam seus personagens quando ignorados.

  • Elias Alves da Silva

    Excelente. É só o que eu tenho a dizer.