Arte, banco e estupidez

Arte é coisa indefinível.

Fosse possível fechá-la em um conceito redondinho a caber em dicionários, arte não seria. Definição é para chatices como macroeconomia, direito empresarial e crossfit. Arte precisa correr descalça sob o sol numa manhã de terça-feira. Se quiser calçar sapatos engraxados, que calce; se quiser furar os pés numa touceira de espinhos, que fure.

Quando a metem num quarto da mansão, sob os cuidados e instruções de um tutor, a arte esmorece e definha. E não adianta vista para o jardim, brinquedos caros, canais a cabo, videogame. Arte precisa de espaço, de possibilidades; precisa pular o muro do vizinho pra roubar manga; precisa nadar sem roupa no rio; precisa pegar mormaço e ficar de febre.

Às vezes, aparece de banho tomado, limpinha, cheirosa, e a gente até tem a ilusão de que ela viva daquele jeito. Dia seguinte topamos com ela coberta de lama da cabeça aos pés. Pior que é nessas horas que ela insiste em nos abraçar.

Ocasionalmente, a arte choca as visitas. Sabe aquele avô que perdeu as papas na língua e fala baixaria na hora de cantar os parabéns? Pois que a arte, apesar dessa carinha, é velha que só ela. Quando aparece sem roupa na sala de estar, não deveríamos ficar horrorizados. “Papai, de novo?”. Todo mundo ri e alguém elogia a pipa do vovô, que ainda sobe muito bem, obrigado.

A arte não faz apologia a coisa alguma. Não faria nem se quisesse. Porque logo depois de discursar com muita firmeza, a arte se esquece, perde o fio da meada e parte pra outra. Tem cabeça de vento, diferente de cabeça oca.

Arte rima com liberdade. Sem isso, cresce e vira advogado, coach, instrutor de crossfit. Ou bancário.

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No mundo das apostas, diz-se que a maior sabedoria do apostador é saber quando parar. No mundo dos bancos, a maior sabedoria é cobrir o total de possibilidades.

O banco é o apostador que joga em todos os números da Megasena. Todo santo dia.

Nenhuma instituição no Brasil é tão moderna e tão tradicional quanto um banco. A mesma funcionária que ensina como liberar o acesso à conta com um simples toque da digital, também deve trabalhar sempre impecavelmente maquiada e bem vestida. Certamente não se vê um bancário atravessando a agência de patinete, se é que vocês me entendem.

Todo grande banco do país tem o seu segmento “cultural”, patrocinando exposições, espetáculos, mostras etc. Em alguns casos, têm suas próprias casas e espaços para disseminação artística. Para conduzi-los, arrumam gente descolada, gente do meio, gente que não precisa usar gravata nem blazer.

Assim como investir nas campanhas dos dois candidatos no segundo turno, manter uma postura de mecenas faz parte da política de apostas: aqui e ali, um flerte com temas mais progressistas pra mostrar a responsabilidade social da organização.

Óbvio que isso não é exclusividade dos bancos. Qualquer profissional de marketing que se preze trabalha tentando convencer o público que a empresa não quer mesquinharias como margens de lucro mais altas ou maior fatia do mercado. Não, a empresa quer mudar o mundo. E tome propaganda de maquiagem com mensagens do tipo “aceite a sua beleza”, ainda que se esteja vendendo um produto para embelezar-se; propaganda de refrigerante apelando a vida saudável, ainda que o produto que descerá goela abaixo dos consumidores sirva muito bem como desentupidor de pia.

Assim, mesmo que a gente nunca tenha visto pessoas trans recebendo depósito num caixa, é claro que cedo ou tarde um banco promoveria uma exposição tratando de diversidade sexual e questões de gênero.

Claro que praticamente ninguém se interesse por arte no Brasil. Porém, nada está a salvo da estupidez-online. Nada.

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A estupidez-online (nome científico: stupere bandus) é uma criatura da família dos conectadeos que habita todos os continentes do globo, apresentando considerável crescimento populacional nas matas de cabos óticos brasileiros no decorrer da última década. Está entre as maiores espécies de estupidezes, superando a estupidez-de-programa-policial-na-hora-do-almoço, a estupidez-do-colega-bêbado-na-festa-da-firma e até mesmo a temida estupidez-americana-de-bico-laranja-e-topete. Já foram registrados indivíduos dessa espécie tão medonhos quanto a quase extinta estupidez-do-tio-na-ceia-de-natal.

Besta diuturna, a estupidez-online sobrevive parasitando seres humanos. São metívoras, alimentando-se do medo de seus hospedeiros e excretando ódio e intolerância, o que gera mais medo e, portanto, mais energia para seu desenvolvimento.

A estupidez-online não tem predileção por nenhuma presa em específico, mas cresce com maior vigor entre grupos desbragadamente ignorantes, buscando massas com forte alinhamento ideológico, partidário, religioso e futebolístico. Como no Brasil, por qualquer razão desconhecida, tais assuntos estão intimamente misturados, essas bestas são vistas esbanjando saúde.

Os hábitos reprodutivos das estupidezes-online são curiosos. É comum que se reproduzam por bipartição, de forma assexuada, no silêncio de smartphones e computadores. Porém, quando alcançam certo porte, usam de seus hospedeiros para acasalarem em restaurantes, universidades e grandes protestos, causando mal-estar e vergonha alheia em humanos saudáveis.

O comportamento dos hospedeiros da estupidez-online é gregário para com outros hospedeiros e extremamente hostil para com os demais. Impregnados dos excrementos do parasita, perseguem com ferocidade tudo aquilo que entendem como ameaça aos seus mundinhos estreitos, ou, na maioria dos casos, simplesmente tudo aquilo que não entendem. É bastante coisa.

Ao se deparar com uma estupidez-online em idade adulta (aproximadamente cinco minutos após o primeiro textão no Facebook), é inútil argumentar, gritar ou tentar espantá-la, pois as estupidezes-online são absolutamente surdas para todo som que não seja concordância. Fugir tampouco será possível; elas enxergam longe, ainda que incapazes de compreender o que estão vendo para além de uma disputa por espaço e reconhecimento. Especialistas recomendam sair da internet, agarrar o travesseiro e chorar. Em alguns dias, talvez ela perca o interesse.

A ONU tenta desenvolver uma medida emergencial para conter a praga. Nenhum cientista se manifestou até o momento: estão ocupados, lutando pela sobrevivência contra aliens do passado, nazismo de esquerda, terra plana e ideologia de gênero.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Michel Euclides

    Eu já disse isso várias vezes, mas ouso repetir: um dia, quando eu crescer, quero escrever igual a esse cara.

    Moa nunca decepciona, e confesso que seu olhar lúcido e desapegado já me fez rever um monte de conceitos.

    Moa-farol, o nome dessa criatura. Parabéns pelo excelente texto.

    P.S.: Peço permissão para lê-lo em sala de aula, na presença de meus alunos.

    • Moacir de Souza Filho

      Permissão concedida, mestre.

      Saiba que grande parte do que vai aí aprendi com você!

  • Emerson Braga

    Moacir, você é um comunicador excepcional! Sua maneira de escrever é cativante, pois você fala de coisas sérias brincando, como todo bom contador de historias. Obrigado por seu talento e lucidez, bonito!

    • Moacir de Souza Filho

      Valeuzão, Emerson. Beijos

  • Diego Sampaio

    Ei! eu acredito nos aliens do passado ahahah.

    • Moacir de Souza Filho

      Cada doido com as suas manias! kkkk

  • Angela Cristina

    Ótimo!
    Simples assim!

    • Moacir de Souza Filho

      Simples, né?

  • Claudia Jeveaux Fim

    Adoro este seu jeito de escrever! Você tira leite de pedra, Moacir! Traz leveza com este toque humorado. Parabéns!

    • Moacir de Souza Filho

      Obrigado, Claudia!

      Só nos resta mesmo o humor.

  • Jéssica Souza

    Nossa! Muito bom! Quando achei que não tinha como melhorar (já no meio do texto), chego na parte sobre a estupidez! Ótimo, e já sigo o conselho de fugir e chorar no travesseiro, é o que nos resta.

    • Moacir de Souza Filho

      Obrigado, Jéssica!

      Meu travesseiro vive ensopado. 🙁