Três da manhã

Meu filho estava inquieto na cama quando levantei. Eu não sabia bem que horas eram, apenas que a noite estava escura e fria. Mais de meia-noite, talvez, por conta do silêncio que se espalhava feito óleo queimado através das ruas vazias.

A casa estava escura, por insistência minha. Bebeto reclamava sempre, mas eu lhe dizia que não devíamos ter medo de coisas que não existem. Sempre fui muito racional, e cansei de levá-lo até o guarda-roupa, abrir as portas e mostrar que o Bicho-Papão era apenas uma blusa preta.

Bebeto gemia e chamava meu nome. Eu o sacudi algumas vezes, mas ele não conseguia acordar. Pensei em despertar Luíza, mas ela parecia estar muito cansada quando fora se deitar. Sentei ao lado do menino e coloquei a mão sobre seu peito, sentindo seu coração bater.

Como eu amava esse garoto! Os cabelos lisos como os da mãe, mas o rosto igual ao meu, suavizado pela beleza que herdara dela. Era inteligente, esforçado e muito carinhoso. Às vezes eu até esquecia que ele tinha apenas oito anos.

Quando Bebeto se acalmou fui até a cozinha. O frio me incomodava, mas tinha sido assim nesse último mês: mesmo durante o dia, a temperatura estava sempre mais baixa que o habitual. Deveria ter alguma relação com o aquecimento global, La Niña ou outro fenômeno meteorológico que enlouquecia o tempo e as pessoas.

O relógio da cozinha marcava três horas. Senti, junto do frio, um arrepio que era quase obrigatório ao ver essa hora. Lembrei dos filmes, e das inúmeras lendas urbanas que amarravam esse período da madrugada a fenômenos sobrenaturais. Sorri, mas o mal-estar não passou.

Voltei ao quarto de Bebeto, mas ele estava tranquilo. De volta à minha cama, encontrei Luíza deitada atravessada, agarrada com o travesseiro, chorando baixinho enquanto dormia. Tentei acordá-la também, mas, assim como Bebeto, ela tinha o sono muito pesado. Dei-lhe um beijo no rosto quente e sussurrei em seu ouvido que tudo iria ficar bem, era só um sonho ruim.

– Mas por que você tinha que morrer logo agora, Roberto? Por quê?

Ela sonhava que eu havia morrido? Eu disse, ainda sussurrando, que estava bem ali, que quando acordasse nos veríamos. Ela se acalmou e parou de chorar.

Fui mais uma vez até a cozinha, desta vez para beber água. Estava quase apanhando o copo quando percebi que o relógio ainda marcava três da manhã. Acendi a luz para ver se estava com defeito…

… e percebi que eu estivera na mais completa escuridão o tempo inteiro. O ponteiro dos segundos andava, mas quando chegava ao limite entre o virar de minuto, voltava para trás, e reiniciava seu caminho.

O tempo não estava passando!

Voltei até o quarto acendendo todas as luzes da casa, e depois apagando, percebendo que não fazia diferença que estivessem acesas ou não. Parei no meio da sala sem saber o que pensar.

Luíza levantou e caminhou até perto de onde eu estava. Descabelada e linda, os olhos inchados do chorar recente, abraçou a si mesma, soluçou e prendeu o choro.

– Eu não aguento mais isso! – ela disse, a voz cansada e trêmula.

Bebeto levantou também, e apareceu à porta de seu quarto.

– Mãe, as luzes acenderam sozinhas de novo?

– Não – disse ela, indo até ele e abraçando-o. – Eu as acendi, filho. Pensei que tinha ouvido alguma coisa, mas era só o barulho do chuveiro vazando.

Bebeto deu dois passos adiante, os olhos arregalados.

– Será o papai, mãe? Será ele querendo falar com a gente?

Luíza conteve o choro mais uma vez, quase sem sucesso.

– Seu pai não está mais aqui, filho, e precisamos nos acostumar com isso. O importante é saber que ele nos amava, e que não sofreu muito quando… quando…

Eles se abraçaram, e eu entendi o frio, o silêncio e a escuridão. Tudo fez um sentido absurdo, e eu pude enxergar tudo com clareza.

Eu estava morto. E eu estava ali.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.