Cura, chato e cone

O nosso país segue firme em sua marcha rumo ao passado. Já são hasteadas as bandeiras do Brasil Império, diz-se que caravelas foram avistadas nas praias da Bahia, tem gente levando arco e flecha pro trabalho. É sintomático termos um vampiro matusalém comandando esta patacoada. Como reagir?

O obscurantismo da vez é o retorno da “cura gay”. Um juiz de Brasília (olha a piada pronta) decidiu abrir a possibilidade para terapias de reversão sexual, seja lá o que raios isso signifique. Atendeu a um pedido de uma psicóloga que entrou com processo contra o Conselho Federal de Psicologia (CFP) por este impedir a prática. Diz o juiz que proibir tal atendimento seria uma censura.

Ora, alguém deveria avisar ao magistrado que o CFP não proíbe ninguém de praticar a “cura gay”. O que se proíbe é que se faça isso como fosse psicologia, como fosse ciência. O problema é a prática do charlatanismo, excelência, porque “cura gay”, é bom que se diga, não existe.

Chegará o dia que um médico poderá tratar câncer com a imposição das mãos?

É óbvio que a “cura gay” é um troço inventado por um bando de ignorantes. Curioso é que, a considerar a possibilidade de uma pessoa gay ser “tratada” (nunca usei tantas aspas num texto) para se tornar heterossexual, o corolário disto é ser verdade também o inverso. Duvido que quem defenda a “cura gay” cogite um cenário onde exista a “cura hétero”.

— Sim, doutor, tenho ouvido Madonna três vezes ao dia, renovei meu guarda-roupa com um personal stylist, já nem tenho mais vontade de ir em baladinhas top.

— Muito bem. E beijar rapazes?

— Bem… Na verdade, minha esposa reatou comigo. Adorou o meu novo comportamento.

Ao invés de perder tempo com esse tipo de imbecilidade, esses “psicólogos” deveriam se concentrar em descobrir um tratamento para o chatismo-de-fila, um distúrbio real que aflige milhões de brasileiros. É grave e repetidamente ignorado pelas autoridades, jogado pra debaixo do tapete pela mídia, evitado nas famílias. Estudos já mostraram que, depois da depressão, o chatismo-de-fila é a maior causa de suicídios no país: daqueles que estão ao lado do chato, claro.

Dia desses, começo de mês, supermercado lotado, presenciei um triste caso.

Estamos lá naquela muvuca de carrinhos de compras (o meu, muito vergonhosamente, carregado apenas de cervejas e congelados), quando a moça à minha frente começa a se inquietar. “Nesse caroço tem angu”, penso. Ela olha pra um lado, olha pro outro, bate o pé no chão, mexe no celular, vira pra mim e dispara:

— Esses caixas são muito lesados!

Procuro nos bolsos os fones de ouvido, desesperado. Não encontro, mas desvio o olhar. Deve-se evitar o contato visual. Ela continua, subindo o tom.

— Também, botam só esse pingo de gente pra trabalhar…

Faço a minha melhor cara de desinteresse. Não adianta. A patologia de um chato-de-fila o torna indiferente às emoções humanas. Um leve balançar de cabeça, um murmúrio quase inaudível: qualquer micro sinal de aprovação ao que dizem já lhes serve de incentivo ao espetáculo.

Foram horas e horas ouvindo reclamações vãs.

Apesar de comumente diagnosticado em supermercados, como o próprio nome revela, o chatismo-de-fila pode se manifestar nos mais diversos ambientes e situações, basta ter uma fila.

Descobri neste último fim de semana que um grande amigo sofre desse mal. Saíamos da padaria, de carro, quando nos vimos presos em um pequeno congestionamento. A causa: aos domingos, a prefeitura tem usado cones para fechar vias da cidade para a prática do ciclismo. Parece uma medida bastante razoável, não?

— Absurdo um engarrafamento desse em pleno domingo!

— A gente poderia ter vindo de bicicleta.

— Nesse sol? Tá louco? Aliás, quem é que anda de bicicleta uma hora dessas?

Apontei para os ciclistas.

— Bando de desocupados.

— É domingo, cara. Todo mundo tá desocupado.

— Vou perder o jogo por conta desses abestados aí.

Calei-me. Ele não é uma pessoa ruim; percebi que era o chatismo-de-fila falando por ele. Diante do meu silêncio, ele reclamou por todo o percurso, talvez esperando que algum dos cones concordasse. Em certo momento, pensei ver um deles nos acenar.

Nunca tinha visto um cone vestindo toga.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Emerson Braga

    Aaaaahhhhhhh, Moacir!!!

    • Moacir Marcos

      Ah, seu Emerson!

  • Iolandinha Pinheiro

    Pior que existe mesmo gente que vive puxando conversa em fila para que dita ande mais rápido. Minha mãe é especialista nisso. Faz amizade, liga depois, recebe em casa. Minha mãe é uma figura. Outro dia eu estava na casa dela e chegou uma mulher buzinando. Fui ver que treta era aquela, e a mulher tinha trazido uma imagem para a mamãe, de Belém. A amiga da buzinadora tinha conhecido mamãe na fila do banco e mandou pela amiga que ia para Fortaleza uma imagem da Nossa Senhora. Eu posso com isso? Ótima a sua crônica, Moacir. Se encontrar numa destas filas uma loura simpática e sorridente tentando puxar conversa com alguém, pergunte se ela é se chama Iolanda. Se for, pode ter certeza que vc a encontrou.

  • Gina Eugênia Girão

    Menino, você tá cada dia melhor!!!

    • Moacir Marcos

      Menina, obrigado!

  • Claudia Jeveaux Fim

    Enquanto processo este absurdo (se é que um dia conseguirei), vou aturando os chatos…
    Só sei que toda vez que eu olhar pra um cone, vou lembrar deste texto! 🙂
    Sempre ótimo, Moacir!

    • Moacir Marcos

      Obrigado, Claudia! 🙂

  • Sá Tiro

    Bem!
    Mas… «Absurdo um engarrafamento desse em pleno domingo!»? – Enfim, é fala de personagem. Pode expressar-se debilmente à vontade.
    «Tá louco? Aliás, quem é que anda de bicicleta uma hora dessas?» Afinal a dita personagem sabe fazer a concordância “uma hora dessas”.
    Opte por uma.

    • Moacir Marcos

      Ás vezes a personagem fala de um jeito, às vezes de outro.

      Lide com isso.